Casa Branca mantém aberta a possibilidade de ampliar os ataques após as eleições de meio de mandato de novembro, enquanto Teerã aposta no desgaste provocado pela guerra, pelo petróleo e pela inflação; conflito entra no oitavo mês sem solução militar ou diplomática
Da Redação
A guerra dos Estados Unidos contra o Irã entrou definitivamente no calendário eleitoral americano. A pouco mais de um mês das eleições legislativas de 3 de novembro, o governo de Donald Trump mantém aberta a possibilidade de uma grande escalada militar depois da votação, enquanto tenta administrar um conflito que já dura sete meses, pressiona os preços do petróleo e dos combustíveis e se tornou um problema crescente para os republicanos. Do outro lado, Teerã percebeu essa vulnerabilidade e passou a falar diretamente ao eleitor americano, numa disputa em que o campo de batalha já não está apenas no Golfo Pérsico, mas também dentro da política doméstica dos Estados Unidos.
Trump havia declarado anteriormente que esperava que a guerra terminasse “imediatamente depois” das eleições de meio de mandato. A afirmação chamou atenção porque estabeleceu uma ligação explícita entre o calendário político americano e a duração do conflito. Segundo o presidente, o Irã estaria prolongando a guerra na expectativa de prejudicar os republicanos nas urnas. Agora, porém, a possibilidade discutida em Washington é mais complexa: caso não exista acordo, uma ofensiva militar de maior escala poderá ocorrer justamente depois das eleições, quando a pressão eleitoral imediata sobre a Casa Branca terá diminuído.
O cálculo é perigoso porque nenhuma das partes demonstra disposição para aceitar as condições centrais da outra. Washington exige concessões nucleares iranianas e mantém um bloqueio econômico e militar destinado a pressionar Teerã. O Irã exige o fim do bloqueio, alívio das sanções, acesso a recursos financeiros congelados e condições para a normalização do tráfego pelo Estreito de Ormuz. As negociações indiretas, conduzidas principalmente por intermediários do Catar, continuam, mas até agora não produziram um acordo capaz de encerrar o conflito.
Nesta quarta-feira, surgiu uma nova demonstração dessa situação contraditória. O governo iraniano informou ter recebido uma resposta oficial dos Estados Unidos à proposta apresentada recentemente por Teerã para retomar o cessar-fogo. O documento foi levado pelo chanceler Abbas Araghchi ao presidente Masoud Pezeshkian. A existência de uma resposta americana mostra que, apesar das declarações públicas agressivas e das ameaças de nova ofensiva, os canais diplomáticos continuam funcionando.
A guerra e a negociação avançam, portanto, ao mesmo tempo.
Uma guerra cada vez mais ligada às urnas
O elemento eleitoral tornou-se impossível de separar da estratégia dos dois países. Para Trump, uma escalada antes de novembro carrega riscos evidentes. Uma nova rodada de grandes ataques poderia elevar ainda mais os preços do petróleo, encarecer gasolina e diesel, pressionar a inflação e reforçar a percepção de que os Estados Unidos entraram em mais uma guerra prolongada no Oriente Médio. Para o Irã, justamente esses custos oferecem uma forma de pressão sobre Washington que não depende de derrotar militarmente as forças americanas.
A guerra já alterou profundamente o mercado energético. O petróleo Brent voltou a superar a marca de US$ 100 em contratos próximos, enquanto o petróleo americano também acumulou forte valorização. O problema não é apenas o preço do barril. Seguros marítimos, fretes e custos de transporte pelo Golfo aumentaram de maneira extraordinária, obrigando os Estados Unidos a manter operações navais caras para proteger o tráfego de navios e permitir que parte do petróleo continue atravessando a região.
Washington também voltou a recorrer à Reserva Estratégica de Petróleo para tentar reduzir a pressão sobre o mercado doméstico. O governo autorizou a liberação de dezenas de milhões de barris num momento em que os estoques estratégicos americanos já se encontram em níveis historicamente baixos. A medida mostra como uma guerra travada a milhares de quilômetros passou a chegar diretamente ao posto de gasolina e ao orçamento das famílias americanas.
É exatamente essa conexão que Teerã tenta explorar. A Guarda Revolucionária divulgou uma longa carta dirigida diretamente à população dos Estados Unidos, pedindo aos americanos que rejeitem nas urnas políticos associados à política externa de Trump e ao apoio militar americano a Israel. O documento acusa Washington de utilizar o programa nuclear iraniano como justificativa para uma política de dominação regional e sustenta que americanos e iranianos poderiam coexistir caso os Estados Unidos abandonassem sua atual estratégia.
A iniciativa representa uma tentativa explícita de interferir no debate político americano. Sua capacidade real de influenciar eleitores é incerta e provavelmente limitada, mas seu significado estratégico é evidente. O Irã compreendeu que a guerra possui um segundo campo de batalha dentro dos Estados Unidos e procura aumentar o custo político do conflito para a Casa Branca.
Trump interpreta essa estratégia como tentativa iraniana de sobreviver até novembro. O presidente afirma que Teerã está economicamente enfraquecido e acredita que uma mudança na composição do Congresso poderá limitar sua capacidade de conduzir a guerra. Os iranianos, por sua vez, parecem calcular que quanto mais tempo conseguirem sustentar a pressão sobre o mercado energético e sobre a economia americana, maior será o desgaste político do governo.
Essa combinação ajuda a explicar por que uma grande escalada antes das eleições pode ser inconveniente para os dois lados, embora por razões diferentes. Trump não quer assumir o risco econômico e eleitoral de uma ofensiva de consequências imprevisíveis. Teerã não tem incentivo para aliviar uma pressão que considera capaz de atingir os republicanos nas urnas.
O resultado é uma guerra que pode permanecer num equilíbrio extremamente instável até novembro.
O Congresso tentou limitar Trump e fracassou
A ligação entre guerra e eleições também chegou ao Congresso. Na semana passada, o Senado rejeitou por margem estreita uma resolução liderada pelos democratas que exigia que Trump encerrasse a guerra ou obtivesse autorização do Legislativo para continuar as operações militares. A iniciativa não conseguiu votos suficientes, mas mostrou que a política iraniana deixou de ser apenas uma questão externa e se tornou uma das linhas de disputa entre republicanos e democratas antes das eleições.
Alguns republicanos também começaram a demonstrar desconforto com a duração e o custo do conflito. O problema para a Casa Branca é conhecido na história americana: guerras inicialmente apresentadas como operações capazes de produzir resultados rápidos podem se transformar em compromissos militares prolongados, caros e politicamente difíceis de abandonar.
O Irã não precisa derrotar militarmente os Estados Unidos para explorar essa contradição. Precisa sobreviver, preservar capacidade suficiente de resposta e continuar impondo custos. A geografia do Golfo oferece a Teerã um instrumento especialmente poderoso para isso. O Estreito de Ormuz permanece uma das passagens marítimas mais importantes do planeta e qualquer ameaça ao fluxo de petróleo produz efeitos quase imediatos sobre preços internacionais, seguros, fretes e expectativas inflacionárias.
Os Estados Unidos conseguiram aumentar novamente o volume de petróleo transportado pela região utilizando escoltas militares e outras medidas de segurança. Ainda assim, a operação possui custos elevados e não eliminou a capacidade iraniana de ameaçar a navegação. É essa capacidade que impede Washington de tratar a questão como resolvida.
Para Trump, existe ainda outro problema. Aceitar as principais condições iranianas antes das eleições poderia ser apresentado pelos adversários como recuo diante de Teerã. Rejeitá-las mantém a guerra e seus custos econômicos. Escalar militarmente pode elevar ainda mais o preço do petróleo e produzir baixas americanas. Adiar decisões importantes para depois de novembro reduz parte do risco eleitoral imediato, mas permite ao Irã continuar utilizando o tempo como instrumento de pressão.
Washington está, portanto, diante de escolhas ruins, e Teerã sabe disso.
Negociação continua apesar das ameaças
A situação desta quarta-feira mostra que a possibilidade de uma solução diplomática ainda existe. O Irã havia apresentado uma proposta para reabrir o Estreito de Ormuz e retomar negociações mais amplas sobre o fim da guerra. Entre as exigências estavam o alívio de sanções, o desbloqueio de recursos iranianos e mudanças no bloqueio americano. Trump rejeitou publicamente a ideia de ter oferecido concessões, mas interlocutores dos dois governos continuaram negociando por meio de mediadores.
Agora, Teerã confirma ter recebido uma contraproposta americana.
O conteúdo completo não foi tornado público, e seria precipitado afirmar que existe um acordo próximo. As diferenças fundamentais continuam grandes. Washington insiste em obter concessões relacionadas ao programa nuclear iraniano, enquanto Teerã procura colocar o bloqueio, as sanções e a circulação pelo Estreito de Ormuz no centro da negociação.
A própria existência dessas conversas, entretanto, mostra que a retórica militar não conta toda a história. Enquanto Trump mantém a possibilidade de uma grande ofensiva e autoridades iranianas falam em resistência, representantes dos dois países continuam procurando uma fórmula que permita interromper uma guerra que nenhum dos lados conseguiu transformar em vitória definitiva.
Esse impasse ajuda a compreender por que novembro se tornou uma espécie de linha de demarcação. Depois das eleições, o cálculo político americano muda. Trump continuará presidente independentemente do resultado das disputas legislativas, mas saberá qual será a composição do Congresso durante a segunda metade de seu mandato. Se os republicanos perderem espaço, sua margem política poderá diminuir. Se mantiverem suas posições, a Casa Branca poderá interpretar o resultado como autorização para continuar ou ampliar sua estratégia.
Nada disso significa que uma grande ofensiva depois das eleições esteja decidida. Trata-se de uma possibilidade discutida dentro de um cenário ainda condicionado pelas negociações, pela situação militar e pelo comportamento iraniano. Mas o simples fato de novembro aparecer repetidamente nas declarações e nos cálculos dos dois lados revela até que ponto o conflito foi incorporado à política interna americana.
A guerra começou no Oriente Médio, mas parte de seu destino pode agora ser decidido pelo custo da gasolina em Ohio, pelo preço dos alimentos na Pensilvânia e pela composição do Congresso em Washington.
É uma situação paradoxal. Os Estados Unidos possuem enorme superioridade militar convencional, mas o Irã controla instrumentos capazes de transformar resistência militar em pressão econômica global. Washington pode bombardear instalações iranianas, impor sanções e bloquear exportações. Teerã pode ameaçar rotas energéticas, prolongar o conflito e tentar fazer com que cada semana adicional de guerra apareça no bolso do eleitor americano.
Por isso, as eleições de 3 de novembro se transformaram num marco estratégico.
Até lá, diplomacia e guerra continuarão caminhando lado a lado. Washington pressiona militarmente enquanto negocia. Teerã resiste enquanto apresenta propostas. Trump ameaça escalar enquanto procura impedir que o conflito produza um custo eleitoral ainda maior.
Depois das urnas, esse equilíbrio poderá mudar.
E é justamente essa possibilidade que torna as próximas semanas particularmente perigosas: quando uma guerra passa a obedecer também ao calendário eleitoral de uma potência militar, decisões sobre atacar, negociar ou esperar deixam de depender apenas do que acontece no campo de batalha. Passam a depender também do que acontece dentro das urnas.






