Da Redação
Presidente dos Estados Unidos afirma que Washington passou a deter “controle majoritário” sobre uma parcela gigantesca das reservas venezuelanas, numa declaração de enorme alcance econômico e geopolítico. Anúncio ocorre meses depois da intervenção norte-americana que retirou Nicolás Maduro do poder e exige uma pergunta fundamental: quais são os termos jurídicos, econômicos e políticos que permitem aos EUA exercer controle sobre uma riqueza pertencente ao Estado venezuelano?
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira (28) que seu governo conseguiu estabelecer aquilo que definiu como “controle majoritário dos EUA” sobre mais de 65 bilhões de barris das reservas comprovadas de petróleo da Venezuela. A declaração tem uma dimensão extraordinária não apenas pelo volume envolvido, mas pelo momento histórico em que é feita: ocorre meses depois da intervenção militar norte-americana que retirou Nicolás Maduro do poder e em meio à profunda reorganização das relações políticas, econômicas e energéticas entre Washington e Caracas.
Os números ajudam a compreender o tamanho do que está sendo anunciado. A Venezuela possui aproximadamente 303 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo, a maior quantidade oficialmente reconhecida no mundo. Os 65 bilhões mencionados por Trump corresponderiam, portanto, a mais de um quinto de todas as reservas venezuelanas conhecidas. Não se trata de um contrato comercial comum nem de um volume marginal de produção. Estamos falando de uma quantidade de petróleo que, caso efetivamente submetida a mecanismos de controle norte-americano de longo prazo, terá consequências para o mercado energético, para as relações da Venezuela com outras potências e, principalmente, para o debate sobre soberania na América Latina.
É necessário, entretanto, fazer uma distinção fundamental. Trump utilizou a expressão “controle majoritário”, mas isso não significa automaticamente que os Estados Unidos tenham se tornado proprietários de 65 bilhões de barris pertencentes à Venezuela. Ainda precisam ser conhecidos em detalhes os instrumentos jurídicos da operação, as empresas envolvidas, os campos petrolíferos abrangidos, o prazo das concessões, a participação da estatal PDVSA e, sobretudo, o significado concreto da palavra “controle”. Pode tratar-se de direitos de exploração, participação majoritária em empreendimentos, controle sobre produção e comercialização, garantias de fornecimento ou uma combinação desses mecanismos.
Justamente por isso, a declaração presidencial não pode ser banalizada nem ampliada além daquilo que as evidências permitem demonstrar neste momento. O fato relevante é suficientemente grave por si só: o presidente dos Estados Unidos afirma publicamente que seu país obteve controle majoritário sobre uma parcela colossal das reservas petrolíferas venezuelanas.
Segundo a reportagem do Brasil 247, Trump atribuiu a negociação ao secretário de Estado Marco Rubio e ao secretário de Guerra Pete Hegseth, que teriam trabalhado com o governo interino de Delcy Rodríguez e com representantes da iniciativa privada. Trump também afirmou que a operação não produziria custos para os contribuintes norte-americanos. O ponto que permanece sem esclarecimento é justamente qual estrutura econômica permitirá que Washington obtenha tamanha influência sobre essas reservas e quais contrapartidas receberá a Venezuela.
A questão ganha ainda mais importância quando colocada na sequência dos acontecimentos políticos de 2026. Em janeiro, uma operação militar dos Estados Unidos retirou Nicolás Maduro do território venezuelano. Delcy Rodríguez, até então vice-presidente, assumiu interinamente o governo e iniciou uma rápida reaproximação com Washington. A política energética tornou-se desde então um dos principais pilares dessa nova relação.
É impossível analisar o anúncio desta sexta-feira separando-o dessa transformação. Há uma sequência histórica que precisa ser observada com atenção: primeiro ocorreu a intervenção militar e a mudança do comando político venezuelano; depois veio a reorganização das relações entre Caracas e Washington; agora surge a afirmação do presidente norte-americano de que seu país conseguiu controle majoritário sobre dezenas de bilhões de barris da principal riqueza natural venezuelana.
Essa sucessão de acontecimentos não prova, por si só, a existência de uma operação previamente planejada para apropriação dos recursos do país. Fazer essa afirmação exigiria evidências que ainda precisam ser demonstradas. Mas a conexão temporal e política entre intervenção, reorganização institucional e acesso aos recursos energéticos é suficientemente importante para exigir investigação profunda.
O petróleo sempre esteve no centro da relação conflituosa entre Venezuela e Estados Unidos. Durante décadas, o mercado norte-americano foi um destino natural para o petróleo pesado venezuelano, especialmente porque parte das refinarias da Costa do Golfo dos Estados Unidos possui instalações preparadas para processar esse tipo de óleo. A ruptura política entre os dois países, as sanções e o progressivo isolamento de Caracas reduziram essa integração e empurraram a Venezuela para uma aproximação crescente com China, Rússia e outros parceiros.
Agora, Washington parece tentar reconstruir essa relação em condições radicalmente diferentes.
A Venezuela produz muito menos petróleo do que poderia produzir considerando o tamanho de suas reservas. Problemas de investimento, deterioração da infraestrutura, dificuldades financeiras, sanções e perda de capacidade técnica fizeram a produção cair dramaticamente em relação aos níveis históricos. Isso significa que existe uma diferença gigantesca entre o petróleo disponível no subsolo e a capacidade venezuelana de transformá-lo em produção efetiva.
É exatamente nessa distância que entra o capital internacional. Empresas capazes de fornecer tecnologia, financiamento, infraestrutura e equipamentos podem aumentar significativamente a produção venezuelana ao longo dos próximos anos. Se companhias norte-americanas conquistarem posição dominante nesse processo, Washington poderá recuperar uma influência energética sobre a Venezuela que havia perdido durante o longo período de confronto com os governos chavistas.
Para Trump, há também um componente doméstico. Energia barata continua sendo uma questão econômica e eleitoral central nos Estados Unidos. Quanto maior a oferta de petróleo disponível para as refinarias norte-americanas, maior a possibilidade de reduzir pressões sobre preços de combustíveis, embora o valor final da gasolina dependa de numerosos fatores e não possa ser determinado apenas pela produção venezuelana.
O contexto internacional torna essa questão ainda mais relevante. A escalada das tensões envolvendo o Irã recolocou a segurança energética no centro da estratégia norte-americana. Quanto maior a instabilidade no Oriente Médio, maior o interesse de Washington por fontes de petróleo localizadas dentro de seu próprio entorno geopolítico. E nenhuma potência petrolífera reúne simultaneamente as características da Venezuela: reservas gigantescas, proximidade territorial dos Estados Unidos e infraestrutura historicamente conectada ao mercado norte-americano.
É nesse ponto que a questão deixa de ser apenas comercial e passa definitivamente para o campo da soberania.
A riqueza existente no subsolo venezuelano pertence juridicamente ao Estado venezuelano. Por isso, qualquer acordo capaz de entregar a agentes externos controle sobre dezenas de bilhões de barris precisa ser analisado não apenas em termos econômicos, mas constitucionais e políticos. Quem autorizou a operação? Quais instituições venezuelanas participaram? Qual será a parcela destinada ao Estado? Qual será o papel da PDVSA? Quais empresas privadas receberão direitos de exploração? Durante quanto tempo? Quem controlará a produção e a comercialização? Em qual jurisdição serão resolvidos eventuais conflitos?
Há ainda uma questão especialmente delicada: quais são os limites da legitimidade de um governo interino para assumir compromissos de longo prazo sobre recursos naturais estratégicos depois de uma mudança de poder produzida num contexto de intervenção militar estrangeira?
Essa pergunta não pode ser respondida por preferência ideológica. Exige conhecer os contratos e os instrumentos jurídicos utilizados.
A reorganização venezuelana também interessa diretamente a China e à Rússia. Durante os anos de afastamento de Washington, Caracas transformou Pequim e Moscou em parceiros econômicos e estratégicos importantes. A China tornou-se credora e compradora relevante do petróleo venezuelano, enquanto a Rússia estabeleceu relações nos setores energético, militar e diplomático. Se uma parcela significativa da indústria petrolífera venezuelana retornar para a órbita dos Estados Unidos, o resultado será também uma perda de espaço dessas duas potências dentro da América Latina.
Essa dimensão ajuda a explicar por que o episódio ultrapassa a Venezuela. O mundo atravessa uma disputa crescente pelo controle de energia, minerais críticos, terras raras, cadeias produtivas, infraestrutura digital e rotas comerciais. A América Latina possui alguns dos maiores estoques planetários desses recursos. Além do petróleo venezuelano, a região concentra o lítio do chamado Triângulo do Lítio, enormes reservas de cobre, biodiversidade, água doce, minerais críticos e recursos energéticos fundamentais para a economia das próximas décadas.
Para o Brasil, portanto, acompanhar o que acontece na Venezuela é uma questão estratégica. O país possui o pré-sal, enormes reservas minerais, terras raras, recursos hídricos e a Amazônia. Uma alteração da política norte-americana que associe de maneira mais explícita segurança hemisférica, influência política e acesso privilegiado a recursos naturais interessa diretamente à formulação da política externa e da estratégia de defesa brasileira.
É por isso que a declaração de Trump precisa ser tratada com rigor, sem exageros, mas também sem ingenuidade. Quando o presidente dos Estados Unidos afirma que seu país conseguiu “controle majoritário” sobre mais de 65 bilhões de barris pertencentes ao território que possui as maiores reservas petrolíferas comprovadas do planeta, não estamos diante de uma frase econômica qualquer.
Precisamos saber exatamente o que foi negociado.
Precisamos conhecer os contratos.
Precisamos saber quais empresas estão envolvidas e quais direitos receberam.
Precisamos saber quanto ficará para a Venezuela e durante quanto tempo esses compromissos permanecerão em vigor.
E, sobretudo, será necessário compreender se estamos diante de uma abertura negociada da indústria venezuelana ao capital norte-americano ou de uma transformação muito mais profunda na relação entre poder político, intervenção militar e controle de recursos estratégicos no hemisfério.
Essa distinção determinará a verdadeira dimensão histórica do anúncio.
Por enquanto, uma coisa está clara: poucos meses depois da intervenção que mudou dramaticamente a situação política venezuelana, o petróleo voltou ao centro da relação entre Caracas e Washington — e voltou numa escala gigantesca.
São 65 bilhões de barris.
Mais de um quinto das reservas comprovadas da Venezuela.
Por trás desse número existe uma questão que interessa não apenas aos venezuelanos, mas a toda a América Latina: quem controla os recursos naturais de uma nação e quem possui legitimidade para decidir o seu destino?
É essa, muito mais do que qualquer declaração triunfal de Donald Trump, a pergunta que precisa orientar a cobertura jornalística do que está acontecendo na Venezuela.
