Da Redação
Em longa entrevista ao Going Underground, jornalista conservador afirma que a guerra na Ucrânia e o conflito dos Estados Unidos e Israel contra o Irã estão se fundindo numa confrontação de alcance global. Ex-aliado influente de Donald Trump acusa o presidente de abandonar compromissos assumidos com sua própria base eleitoral e fala na “maior traição” que testemunhou na política americana.
A entrevista de Tucker Carlson ao jornalista Afshin Rattansi, divulgada neste fim de semana pelo Going Underground, é relevante menos como previsão objetiva de uma guerra nuclear iminente e mais como sinal de uma ruptura que se aprofunda dentro do próprio campo político que levou Donald Trump novamente à Casa Branca. Carlson, uma das vozes mais influentes do conservadorismo norte-americano, sustenta que os Estados Unidos já participam efetivamente de uma guerra contra a Rússia por meio da Ucrânia e que a escalada simultânea contra o Irã criou uma conexão entre teatros militares antes tratados separadamente. Em sua avaliação, “as guerras se fundiram numa guerra global” e, caso essa trajetória não seja interrompida, o risco extremo seria uma confrontação entre potências nucleares. Essa é a interpretação de Carlson, não uma constatação de que uma guerra mundial ou um ataque nuclear sejam inevitáveis.
O ponto politicamente mais explosivo da entrevista, entretanto, está dentro dos Estados Unidos. Carlson acusa Trump e seus principais assessores de terem “quase sistematicamente traído” os eleitores que votaram no republicano em 2024 e descreve essa mudança como a maior traição política de que tem conhecimento. A crítica atinge diretamente uma contradição que se tornou visível na coalizão trumpista: parte do movimento America First esperava redução dos compromissos militares externos e rejeição às chamadas “guerras eternas”, enquanto o governo acabou aprofundando operações militares no Oriente Médio. A divergência entre Carlson e a administração já havia se tornado pública justamente por causa da guerra contra o Irã.
A dimensão militar do argumento de Carlson precisa ser confrontada com aquilo que o próprio governo norte-americano admite. Em março, o Departamento de Guerra informou oficialmente que forças dos Estados Unidos estavam realizando ataques diretos e em grande escala contra o Irã na Operação Epic Fury. Em uma coletiva, Pete Hegseth afirmou que norte-americanos e israelenses haviam atingido milhares de alvos e que aeronaves dos EUA operavam persistentemente sobre território iraniano. O chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, descreveu uma campanha destinada a destruir capacidades de mísseis, drones, estruturas navais e partes da base industrial de defesa iraniana. Portanto, a existência de uma guerra direta envolvendo Washington e Teerã não é uma caracterização de Carlson; é um fato reconhecido pelas próprias autoridades norte-americanas.
O salto analítico ocorre quando Carlson conecta esse conflito à Ucrânia e conclui que ambos formam uma única guerra mundial. Na entrevista, ele afirma que os serviços de inteligência norte-americanos comandam a guerra a partir da Ucrânia contra a Rússia e, por isso, considera os Estados Unidos já em guerra com Moscou. A presença de apoio militar, inteligência, treinamento e armamentos ocidentais à Ucrânia é amplamente conhecida; caracterizar essa participação como uma guerra direta Estados Unidos–Rússia, contudo, é a interpretação política de Carlson. Essa distinção é decisiva porque Washington e Moscou continuam evitando reconhecer formalmente uma guerra bilateral justamente devido ao risco de escalada entre as duas maiores potências nucleares do planeta.
A advertência de Carlson, ainda assim, toca numa questão estratégica real: quando diferentes conflitos começam a compartilhar as mesmas potências, sistemas de armas, serviços de inteligência, sanções, corredores energéticos e alianças militares, aumenta o risco de uma crise localizada produzir efeitos em outro teatro. Rússia e Irã possuem relações estratégicas; Estados Unidos mantêm compromissos militares com Israel e com aliados europeus; a guerra iraniana repercute sobre energia e navegação internacional; e a guerra ucraniana permanece ligada à arquitetura de segurança europeia. Isso não significa que exista um comando único ou uma “Terceira Guerra Mundial” formalmente constituída. Significa que as fronteiras entre crises regionais ficaram mais permeáveis.
É nesse cenário que a ruptura de Carlson com Trump adquire peso maior. Não se trata de um crítico tradicional do Partido Democrata acusando um presidente republicano de militarismo. Carlson ajudou durante anos a construir uma vertente do conservadorismo americano hostil às intervenções externas, à política tradicional de Washington e a setores do aparato de segurança nacional. Sua crítica vem, portanto, de dentro do universo político que Trump mobilizou. Ao acusar o presidente de abandonar seus eleitores, Carlson tenta estabelecer uma divisão entre a promessa original do America First e a política externa efetivamente conduzida pela administração.
Essa disputa ficou explícita quando o próprio governo respondeu às críticas. Em coletiva oficial sobre a guerra iraniana, uma pergunta dirigida a Hegseth mencionou diretamente Carlson e suas declarações contra a ofensiva. O episódio demonstra que a divergência deixou de ser uma discussão periférica das redes sociais e alcançou a comunicação pública da administração.
A entrevista também amplia o diagnóstico para a transformação do sistema internacional. O programa informa que Carlson discutiu a ascensão do BRICS, o crescimento do poder chinês, censura e liberdade política nos Estados Unidos e a mudança do equilíbrio mundial. Esses temas não aparecem isoladamente. A guerra no Irã ocorre simultaneamente ao fortalecimento das discussões sobre mecanismos financeiros alternativos, comércio em moedas nacionais e redução da exposição a sanções; a China amplia seu peso econômico e tecnológico; e o BRICS reúne países que procuram aumentar sua autonomia diante das estruturas internacionais tradicionalmente dominadas pelo Ocidente.
Há, portanto, duas histórias diferentes dentro da entrevista. A primeira é a advertência geopolítica de Carlson: conflitos que Washington ainda apresenta como teatros distintos estariam se aproximando perigosamente de uma única confrontação internacional. Essa tese é discutível e não deve ser transformada em fato consumado. Não há evidência de que uma troca nuclear seja inevitável, nem de que todas essas guerras componham operacionalmente um único conflito.
A segunda história é mais concreta e talvez mais importante: uma fissura dentro do próprio trumpismo sobre os limites do poder militar norte-americano. A promessa de concentrar recursos nos Estados Unidos e reduzir guerras externas entra em tensão com uma administração envolvida diretamente numa campanha militar de grande escala contra o Irã e ainda profundamente comprometida com a disputa estratégica contra Rússia e China.
Carlson tenta ocupar justamente esse espaço. Sua acusação não é simplesmente que Trump tomou uma decisão militar equivocada. É mais profunda: ele sustenta que a política externa atual representa uma ruptura com o mandato político recebido em 2024. Essa afirmação pertence a Carlson e será disputada dentro da própria direita norte-americana, onde há também amplo apoio republicano às ações militares do governo.
O significado da entrevista está nessa contradição. Durante anos, America First reuniu sob o mesmo guarda-chuva nacionalistas econômicos, conservadores tradicionais, setores favoráveis a Israel, críticos das guerras externas e defensores de uma postura militar mais agressiva diante dos adversários dos Estados Unidos. Enquanto essas posições permaneceram como discurso de oposição, suas incompatibilidades puderam ser administradas. A guerra colocou-as diante de decisões concretas.
Por isso, a pergunta levantada pela entrevista de Tucker Carlson ultrapassa sua previsão mais dramática sobre armas nucleares. A questão é saber se uma potência pode sustentar simultaneamente confrontações militares e estratégicas contra diferentes adversários, preservar a promessa de reduzir compromissos externos e impedir que crises inicialmente separadas passem a alimentar umas às outras.
Carlson responde que essa fronteira já foi ultrapassada. Os fatos disponíveis não permitem afirmar que uma guerra mundial seja inevitável. Mas permitem concluir que a disputa sobre essa fronteira chegou ao coração da coalizão política que governa os Estados Unidos — e que um de seus antigos porta-vozes mais influentes agora acusa Trump de conduzi-la exatamente na direção que prometera evitar.

