Da Redação
Cinquenta e cinco anos após ter sua trajetória interrompida pela violência da ditadura militar brasileira, o estudante Stuart Edgard Angel Jones recebeu, nesta terça-feira (7), o diploma póstumo de bacharel em Ciências Econômicas concedido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A cerimônia representa um dos mais importantes gestos recentes de reparação histórica promovidos pela universidade e reconhece oficialmente uma vida interrompida pela repressão política do regime instaurado em 1964.
Stuart Angel era estudante da Faculdade de Economia da UFRJ e militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Em 1971, aos 25 anos, foi preso por agentes da repressão, submetido a torturas e assassinado nas dependências da Base Aérea do Galeão. Seu corpo jamais foi entregue à família, tornando-se um dos casos mais emblemáticos de desaparecimento político durante a ditadura militar.
Reconhecimento histórico
A entrega do diploma ocorreu no Salão Dourado da UFRJ e reuniu familiares, representantes da comunidade acadêmica, estudantes, professores e defensores dos direitos humanos.
Mais do que concluir simbolicamente um curso interrompido pela violência do Estado, a cerimônia buscou reafirmar o compromisso da universidade com a preservação da memória, da verdade histórica e da democracia. A homenagem também reconhece que Stuart teve seu direito à educação e ao futuro violentamente interrompidos pela repressão política.
A iniciativa foi articulada em conjunto com familiares de Stuart, entre eles a jornalista Hildegard Angel, e integrantes da comunidade universitária que há anos defendiam esse reconhecimento institucional.
Quem foi Stuart Angel
Nascido em Salvador, em 1946, Stuart Angel era filho da estilista Zuzu Angel e do norte-americano Norman Jones. Além da dedicação aos estudos de Economia, destacou-se como atleta de remo pelo Flamengo antes de ingressar na militância política contra a ditadura militar.
Na virada da década de 1970, passou a integrar o MR-8, organização que fazia oposição ao regime militar. Em maio de 1971 foi preso por agentes do Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), sendo levado para instalações militares onde sofreu sucessivas sessões de tortura. Nunca mais voltou para casa.
Uma das mortes mais brutais da ditadura
O assassinato de Stuart Angel tornou-se um dos episódios mais conhecidos da repressão política brasileira.
Relatos de testemunhas e documentos posteriormente reconhecidos pela Comissão Nacional da Verdade descrevem que ele foi submetido a métodos extremos de tortura antes de morrer sob custódia do Estado. Seu corpo desapareceu e jamais foi localizado oficialmente, fazendo dele um dos desaparecidos políticos do regime militar.
Durante décadas, sua mãe, Zuzu Angel, transformou a busca por respostas em uma campanha internacional de denúncia das violações de direitos humanos cometidas pela ditadura brasileira.
Ela utilizou sua projeção internacional como estilista para denunciar o desaparecimento do filho em desfiles, entrevistas e contatos com autoridades estrangeiras, tornando-se uma das vozes mais importantes na luta pela memória e pela justiça durante o período autoritário. Em 1976, também morreu em circunstâncias posteriormente reconhecidas como relacionadas à perseguição política promovida pelo regime.
Reparação que ultrapassa o simbolismo
Para a UFRJ, a entrega do diploma possui significado que vai além da homenagem individual.
A cerimônia reafirma o compromisso institucional com a defesa da democracia, da liberdade acadêmica e da preservação da memória das vítimas da violência de Estado.
Nos últimos anos, universidades brasileiras vêm ampliando iniciativas voltadas à recuperação da memória de estudantes, professores e servidores perseguidos durante a ditadura, incluindo memoriais, placas, monumentos, programas de pesquisa e ações educativas voltadas às novas gerações.
Memória como compromisso democrático
Passadas mais de cinco décadas, a diplomação póstuma de Stuart Angel simboliza o reconhecimento de uma injustiça histórica que não pôde ser reparada em vida.
Ao concluir simbolicamente a formação interrompida pela violência política, a universidade reafirma que o conhecimento, a liberdade de pensamento e a democracia constituem valores incompatíveis com a repressão, a censura e a tortura.
O gesto também reforça a importância da preservação da memória histórica como instrumento de educação democrática, lembrando que o reconhecimento das vítimas é parte essencial da construção de uma sociedade comprometida com os direitos humanos e com a não repetição das violações do passado.






