Da Redação
Ataque israelense contra o Hospital Nasser matou mais de 20 pessoas, entre elas profissionais ligados à Reuters, Associated Press e Al Jazeera; no aniversário da ofensiva, duas das maiores agências de notícias do mundo afirmam que Israel ainda não apresentou uma explicação completa e transparente. Gaza tornou-se o cenário mais letal para jornalistas já documentado pelo CPJ
Um ano depois de cinco jornalistas serem mortos durante ataques israelenses contra o Complexo Médico Nasser, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, duas das maiores organizações jornalísticas do mundo voltaram a fazer uma cobrança que permanece sem resposta satisfatória. A Reuters e a Associated Press exigem que o governo de Israel esclareça integralmente as circunstâncias dos ataques de 25 de agosto de 2025 e explique por que profissionais da imprensa que trabalhavam dentro de um hospital foram atingidos.
A cobrança foi feita conjuntamente pela editora-chefe da Reuters, Alessandra Galloni, e pela editora-executiva da AP, Julie Pace. Segundo as duas agências, as informações fornecidas até agora pelas autoridades israelenses são insuficientes. As organizações querem uma investigação completa, transparente e capaz de estabelecer responsabilidades.
O episódio permanece como um dos casos mais emblemáticos da devastação sofrida pela imprensa palestina desde outubro de 2023.
Os ataques ao Hospital Nasser mataram mais de 20 pessoas, incluindo cinco jornalistas. Entre os mortos estavam Hussam al-Masri, cinegrafista que trabalhava para a Reuters; Mariam Abu Dagga, jornalista que colaborava com a Associated Press; e Moaz Abu Taha, freelancer que também prestava serviços à Reuters. Outros profissionais de imprensa morreram no ataque.
O fato de jornalistas terem sido atingidos dentro de uma instalação médica tornou o episódio ainda mais grave. Hospitais e profissionais de saúde possuem proteções específicas sob o Direito Internacional Humanitário, assim como jornalistas civis que não participam diretamente das hostilidades.
A sequência dos ataques também provocou questionamentos internacionais. O Hospital Nasser foi atingido mais de uma vez naquele dia, e jornalistas estavam em uma área conhecida por ser utilizada pela imprensa. Um relatório posterior do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos registrou o episódio entre casos que levantavam fortes indícios de que jornalistas poderiam ter sido deliberadamente atingidos durante o exercício de seu trabalho.
Isso não equivale, por si só, a uma determinação judicial definitiva de intenção criminosa no caso específico. Mas significa que as circunstâncias foram consideradas suficientemente graves para exigir investigação independente e responsabilização.
É justamente isso que Reuters e AP continuam cobrando.
Um ano depois, a pergunta permanece: por que jornalistas trabalhando no Hospital Nasser morreram e quem deve responder por essas mortes?
A questão ultrapassa aquele ataque porque o caso ocorreu dentro de uma realidade sem precedentes para o jornalismo contemporâneo.
O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) classificou a guerra em Gaza como o período mais mortal para profissionais da imprensa desde que a organização começou a reunir sistematicamente esses dados, em 1992. Em abril de 2026, o organismo havia documentado pelo menos 207 jornalistas e trabalhadores da mídia palestinos mortos por Israel em Gaza. Após revisão metodológica realizada posteriormente, o CPJ informou em junho que seu total então confirmado era de 209 profissionais mortos por Israel em Gaza e em centros de detenção israelenses desde 7 de outubro de 2023.
A revisão é importante para a precisão desses números. O próprio CPJ retirou nomes de sua base depois de encontrar evidências posteriores de que algumas pessoas haviam participado de combates ou não preenchiam seus critérios de classificação como jornalistas ou trabalhadores da mídia. O organismo afirma utilizar pelo menos duas fontes independentes e excluir pessoas quando surgem provas de participação direta nas hostilidades.
Isso torna ainda mais significativo o quadro que permaneceu depois das verificações.
O CPJ afirma que Israel matou jornalistas em escala sem paralelo em seus registros históricos. Em relatório publicado em fevereiro, a organização concluiu ainda que dois terços dos 129 jornalistas e trabalhadores da mídia mortos no mundo em 2025 foram mortos por Israel. Foi o segundo ano consecutivo de recorde global de mortes de profissionais da imprensa.
Há também uma diferença fundamental entre morrer durante uma guerra e ser deliberadamente atacado por exercer o jornalismo.
O CPJ afirma ter documentado dezenas de casos em que jornalistas foram diretamente visados em represália por seu trabalho e continua investigando outras mortes. A organização descreve o padrão de violência contra a imprensa palestina como sem precedentes.
O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos apresenta números ainda maiores por utilizar metodologia própria. Em relatório publicado em 2026, o órgão informou ter verificado 289 jornalistas palestinos mortos em Gaza desde 7 de outubro de 2023 e descreveu um quadro que inclui mortes, censura, detenções arbitrárias e maus-tratos.
Os números de diferentes organismos não devem ser simplesmente somados ou tratados como se utilizassem critérios idênticos. Eles resultam de metodologias e processos de verificação diferentes. O elemento comum, porém, é inequívoco: a imprensa palestina sofreu perdas extraordinárias e historicamente excepcionais durante a guerra.
Existe ainda uma característica estrutural que torna essas mortes especialmente importantes para o direito à informação.
Desde o início da guerra, Israel restringiu severamente o acesso independente de jornalistas estrangeiros a Gaza. O CPJ afirma que pesquisadores e correspondentes internacionais não conseguem entrar livremente no território e vem pressionando Israel judicial e politicamente para permitir acesso independente da imprensa estrangeira.
Isso transferiu para os jornalistas palestinos uma responsabilidade extraordinária.
São eles que, vivendo dentro da própria guerra, registram bombardeios, destruição, deslocamentos, hospitais, funerais, fome, operações militares e a vida cotidiana da população.
Muitas vezes documentam uma tragédia da qual suas próprias famílias fazem parte.
Quando esses profissionais morrem, portanto, perde-se mais do que uma vida e mais do que um trabalhador de determinada empresa jornalística. Desaparece também uma testemunha de acontecimentos aos quais grande parte da imprensa internacional não possui acesso independente.
É nesse contexto que a morte dos cinco jornalistas no Hospital Nasser permanece tão simbólica.
Eles estavam fazendo aquilo que jornalistas fazem durante guerras: tentando registrar o que acontecia.
E morreram no próprio local de onde transmitiam essa realidade ao mundo.
Israel sustenta reiteradamente que suas operações militares têm como alvo integrantes e infraestrutura de grupos armados e contesta acusações de que exista uma política destinada a matar jornalistas. Em diferentes casos envolvendo profissionais palestinos, as Forças de Defesa de Israel afirmaram que determinados indivíduos possuíam vínculos com Hamas ou Jihad Islâmica Palestina.
Essas alegações precisam ser examinadas individualmente.
Também por isso a transparência é indispensável. Se Israel possui evidências de que determinado profissional participava diretamente das hostilidades, essas provas podem ser apresentadas e submetidas a escrutínio. Se houve erro operacional, deve ser identificado. Se regras de engajamento foram violadas, é preciso estabelecer responsabilidades.
O que não pode substituir uma investigação é simplesmente a ausência de resposta.
Reuters e AP voltaram a insistir exatamente nesse ponto.
As duas organizações afirmam que jornalistas precisam poder trabalhar com segurança e renovaram também a cobrança por esclarecimentos sobre outro caso: a morte do jornalista da Reuters Issam Abdallah, atingido por fogo israelense no sul do Líbano em outubro de 2023.
A cobrança demonstra que a discussão não se limita à Faixa de Gaza.
Neste mês, o CPJ voltou a pedir responsabilização pela morte da jornalista libanesa Amal Khalil, atingida por um ataque israelense no sul do Líbano em abril. A organização fez a manifestação depois de uma investigação da Anistia Internacional concluir haver fundamentos para que o ataque fosse investigado como possível crime de guerra. Segundo o CPJ, 16 jornalistas foram mortos por forças israelenses no Líbano desde outubro de 2023.
O problema central é a impunidade.
O colete escrito PRESS existe precisamente para identificar alguém que não deve ser tratado como combatente. A câmera não é uma arma. A presença de um jornalista em uma zona de conflito não elimina sua proteção enquanto civil, desde que ele não participe diretamente das hostilidades.
Essa proteção não é uma cortesia oferecida pelos exércitos.
É parte das normas que procuram preservar algum limite para a violência durante uma guerra.
E existe uma razão democrática adicional para protegê-la: sem testemunhas independentes, a própria guerra se torna mais difícil de verificar.
É por isso que a discussão sobre jornalistas mortos em Gaza não pertence somente às organizações de imprensa.
Pertence ao público.
Quando um repórter desaparece, uma câmera deixa de registrar. Quando um fotógrafo morre, imagens deixam de existir. Quando correspondentes não conseguem entrar num território e aqueles que já estão dentro dele são mortos em números históricos, diminui a capacidade do restante do mundo de saber aquilo que acontece ali.
Um ano depois do ataque ao Hospital Nasser, Reuters e Associated Press não estão pedindo privilégio para seus profissionais.
Estão pedindo respostas.
Quem autorizou os ataques? Qual era o alvo? Que informações estavam disponíveis aos militares? Por que uma área utilizada por jornalistas foi atingida? O segundo ataque seguiu quais regras operacionais? Houve falha? Houve responsabilização?
São perguntas objetivas.
E justamente porque cinco jornalistas não podem mais fazê-las, cabe às organizações para as quais trabalhavam continuar perguntando.
O aniversário de suas mortes transforma-se, assim, numa lembrança incômoda de um princípio elementar do jornalismo em tempos de guerra: quando aqueles que documentam a violência são mortos e as circunstâncias de suas mortes permanecem sem explicação suficiente, a vítima não é apenas a imprensa. É também o direito da sociedade de conhecer aquilo que a guerra tenta esconder.
