“Um país sancionado não pode salvar vidas”

Sabrina Mendoza pede solidariedade permanente à Venezuela após terremoto, enquanto Lucy Paguada denuncia interferência dos Estados Unidos e desmonte de políticas sociais em Honduras

Da Redação

A tragédia provocada pelo terremoto na Venezuela e a nova conjuntura política de Honduras expõem, sob circunstâncias distintas, as dificuldades enfrentadas por países latino-americanos diante de emergências humanitárias, sanções econômicas e pressões externas. O tema foi debatido nesta terça-feira, 7 de julho, no programa Democracia no Ar, apresentado por Sara Goes, com a participação da artista venezuelana Sabrina Mendoza e da ativista hondurenha Lucy Paguada. A entrevista teve comentários e mediação de Antônio Ibiapino.

Durante a conversa na TV Atitude Popular, Sabrina Mendoza apresentou um relato sobre as consequências do terremoto, a mobilização das equipes de resgate e a campanha internacional de solidariedade às vítimas. Lucy Paguada analisou a mudança política ocorrida em Honduras, denunciou interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral e relatou a interrupção de políticas sociais implementadas durante o governo de Xiomara Castro.

As duas convidadas relacionaram as situações de seus países ao debate sobre soberania e integração regional. No caso venezuelano, Sabrina afirmou que as sanções dificultam a recuperação de um país atingido por uma catástrofe. Em relação a Honduras, Lucy sustentou que a mudança de governo está sendo acompanhada pela retomada das privatizações e pelo enfraquecimento de serviços públicos.

Venezuela enfrenta reconstrução após terremoto

Sabrina Mendoza descreveu o terremoto como a maior tragédia sísmica da história venezuelana. Segundo seu relato, o país sofreu dois fortes abalos em um intervalo extremamente curto, fenômeno que chamou de “doblete sísmico”.

A convidada afirmou que o primeiro terremoto atingiu magnitude 7,2 e o segundo, 7,5. De acordo com sua exposição, os dois movimentos ocorreram em um espaço de apenas 39 segundos, condição que teria agravado os danos e dificultado qualquer resposta entre um abalo e outro.

“Estamos falando da maior tragédia que a Venezuela viveu em sua história”, afirmou Sabrina.

A artista explicou que um duplo evento sísmico ocorre quando dois terremotos de magnitude semelhante atingem uma mesma região em curto intervalo. Nesse caso, segundo ela, não se trata simplesmente de um abalo principal seguido por uma réplica comum.

As regiões mais atingidas, de acordo com Sabrina, foram Caracas e La Guaira, situada nas proximidades da capital. La Guaira teria concentrado os efeitos mais devastadores.

A convidada apresentou números sobre edificações danificadas e estruturas que desabaram, além de relatar que as operações de busca continuavam localizando sobreviventes vários dias depois dos terremotos. Segundo ela, milhares de pessoas foram resgatadas nos primeiros dias.

A dimensão dos danos levou à mobilização de aproximadamente 25 mil funcionários públicos, de acordo com os números apresentados durante a entrevista. Sabrina também mencionou cerca de 10 mil voluntários envolvidos nos esforços de socorro.

O trabalho incluiu controle de áreas afetadas, organização das vias para permitir o deslocamento de equipes médicas e de resgate, atendimento às famílias atingidas e preparação de estruturas para receber pessoas que perderam suas casas ou precisaram abandonar imóveis considerados inseguros.

Ajuda imediata não resolve uma reconstrução de longo prazo

Sabrina chamou atenção para uma característica recorrente das grandes catástrofes: a solidariedade costuma ser intensa nos primeiros dias, mas diminui enquanto os problemas permanecem.

Para ela, a Venezuela precisará de apoio por um período prolongado. A reconstrução de moradias, estradas e demais estruturas afetadas não será concluída em poucas semanas.

“Isso não é um problema de um mês ou dois meses. É necessário muito para a reconstrução do país.”

Segundo a convidada, o governo venezuelano destinou inicialmente US$ 200 milhões para a recuperação da infraestrutura habitacional e viária atingida. Ela relatou também o recebimento de ajuda humanitária internacional e mencionou a contribuição de diferentes países.

Sabrina destacou a participação de Cuba na assistência às vítimas. Segundo ela, mesmo enfrentando suas próprias restrições econômicas, o país enviou especialistas para colaborar com a resposta à emergência.

A convidada também mencionou a participação de médicos palestinos que estudavam na Venezuela e passaram a auxiliar no atendimento às vítimas do terremoto.

Para Sabrina, a campanha internacional deve considerar que o atendimento emergencial é apenas uma parte do desafio. Famílias que perderam moradias e comunidades com infraestrutura destruída continuarão necessitando de apoio depois que o terremoto deixar de ocupar espaço no noticiário internacional.

“Um país sancionado não pode salvar vidas”

A principal reivindicação política apresentada por Sabrina Mendoza foi a retirada das sanções econômicas e financeiras impostas à Venezuela.

Segundo a artista, as restrições dificultam o acesso do país ao sistema bancário internacional, obrigando a realização de transações por intermédio de terceiros. Ela também relacionou as sanções às dificuldades para acessar recursos e ativos venezuelanos mantidos no exterior.

Ao falar sobre o impacto dessas medidas na resposta ao terremoto, Sabrina fez a declaração que sintetizou sua intervenção:

“Um país sancionado não pode salvar vidas.”

A convidada afirmou que as consequências das sanções não ficam restritas às autoridades governamentais. Em sua avaliação, elas atingem diretamente a capacidade do Estado de financiar serviços, adquirir recursos e responder às necessidades da população.

Sabrina defendeu que a solidariedade internacional à Venezuela inclua a reivindicação pelo fim das sanções.

“O mais importante é exigir que se eliminem as sanções. Isso é o mais importante.”

A artista também pediu atenção ao compartilhamento de informações nas redes sociais. Ela recomendou que as pessoas verifiquem os conteúdos antes de divulgá-los e evitem participar de campanhas de hostilidade e desinformação.

Segundo Sabrina, existe uma distância entre a realidade observada no país e parte da representação internacional sobre a Venezuela.

Jovens participam de mobilizações nas ruas e nas redes

Durante a entrevista, Sabrina também comentou a participação da juventude venezuelana nas mobilizações políticas.

Ela afirmou que jovens têm participado de manifestações nas ruas e de campanhas nas redes sociais. Segundo a convidada, influenciadores digitais também aderiram às iniciativas de denúncia sobre a situação política venezuelana.

Sabrina reconheceu a existência de diferentes posições políticas entre os jovens, inclusive de críticas ao governo. Segundo ela, porém, há setores que, mesmo mantendo divergências internas, rejeitam qualquer intervenção dos Estados Unidos.

A convidada afirmou que manifestações e movimentos organizados dentro e fora da Venezuela não recebem, em sua avaliação, atenção proporcional dos grandes veículos internacionais.

Ela também informou que integra um comitê de solidariedade à Venezuela formado por dezenas de pessoas de diferentes países. O grupo organiza campanhas, protestos e outras iniciativas políticas.

Lucy Paguada recupera trajetória política de Honduras

Ao analisar Honduras, Lucy Paguada iniciou sua intervenção pelo golpe de Estado de 2009. Para a ativista, aquele episódio é indispensável para compreender a atual conjuntura do país.

Lucy responsabilizou os Estados Unidos por participação no processo que retirou Manuel Zelaya do governo. Segundo sua análise, o período seguinte permitiu a consolidação de governos conservadores e, posteriormente, de um sistema político associado ao narcotráfico.

A ativista mencionou o ex-presidente Juan Orlando Hernández, condenado nos Estados Unidos por crimes relacionados ao tráfico de drogas e armas. Segundo Lucy, a trajetória do ex-governante demonstra a profundidade da crise institucional atravessada por Honduras durante aquele período.

Ela afirmou que a resistência política iniciada após o golpe permaneceu ativa e levou à vitória eleitoral de Xiomara Castro em 2021, primeira mulher eleita para a Presidência de Honduras.

Lucy apresentou uma avaliação positiva do governo de Castro, destacando políticas nas áreas de saúde, educação, infraestrutura e assistência social.

Segundo a ativista, o governo recebeu um país com graves problemas institucionais e buscou recuperar serviços públicos e programas voltados à população de baixa renda.

Acusação de interferência no processo eleitoral

Lucy Paguada acusou o governo de Donald Trump de interferir diretamente no processo eleitoral hondurenho de 2025.

Segundo seu relato, mensagens foram direcionadas à população para influenciar o voto e houve ameaças relacionadas às remessas enviadas por hondurenhos que vivem no exterior.

Esses recursos têm grande importância para a economia do país e para a renda de milhares de famílias. Lucy afirmou que o tema foi utilizado como instrumento de pressão sobre os eleitores.

“Honduras não tem um presidente eleito pelo povo. O que tivemos foi uma fraude monstruosa e a imposição do candidato de Donald Trump.”

A afirmação expressa a avaliação política da ativista sobre o resultado eleitoral. Lucy declarou que não reconhece a legitimidade do atual governo e o considera resultado de uma interferência externa.

Para ela, Honduras voltou a ocupar uma posição semelhante à que teve em 2009, quando se tornou, em sua avaliação, um espaço de experimentação de métodos de intervenção política posteriormente utilizados em outros países.

Lucy considera que o controle e a pressão sobre sistemas eleitorais representam uma nova forma de interferência nas democracias latino-americanas.

Privatizações e desmonte de políticas sociais

Ao descrever a situação atual de Honduras, Lucy afirmou que o país atravessa uma nova onda de privatizações e de interrupção de programas sociais.

A ativista citou o fechamento de serviços médicos gratuitos instalados em regiões afastadas dos grandes centros urbanos com a participação de profissionais cubanos.

Segundo ela, projetos de construção de hospitais também foram interrompidos. Esses equipamentos estavam previstos para localidades onde a população encontra maiores dificuldades para acessar atendimento médico.

Lucy relatou ainda o encerramento de um programa que garantia acesso à energia elétrica para famílias que não tinham condições de pagar pelo serviço.

De acordo com a ativista, aproximadamente 1 milhão de hondurenhos eram beneficiados pela política. Ela também afirmou que a empresa responsável pelo fornecimento de energia está sob ameaça de privatização.

“O que o país está sofrendo neste momento é uma onda de privatizações e o desmantelamento dos programas sociais que haviam sido impulsionados pela presidenta.”

Para Lucy, as medidas representam uma reversão das políticas adotadas no período anterior e recolocam Honduras em uma direção semelhante à seguida durante os governos conservadores que antecederam Xiomara Castro.

Territórios administrados por empresas estrangeiras

Outro ponto destacado por Lucy foi a existência das Zonas de Emprego e Desenvolvimento Econômico, as ZEDEs, modelo implantado durante o governo de Juan Orlando Hernández.

A ativista descreveu essas áreas como territórios submetidos a regras próprias e administrados com forte participação de empresas estrangeiras.

Segundo Lucy, o modelo reduz a capacidade do Estado hondurenho de exercer soberania sobre partes de seu território e cria preocupações relacionadas à proteção dos direitos dos trabalhadores e das comunidades.

A convidada mencionou especificamente a experiência de Próspera, um dos projetos mais conhecidos vinculados a esse modelo.

Para a ativista, a discussão sobre essas áreas ultrapassa o debate econômico. Ela considera que o controle privado de territórios coloca em questão a capacidade de Honduras de fazer valer suas próprias leis e proteger sua população.

“Não é a primeira vez que vamos enfrentar uma adversidade dessa natureza”

Apesar da avaliação negativa sobre o cenário atual, Lucy afirmou que as organizações políticas e sociais hondurenhas continuam mobilizadas.

A ativista recordou que os movimentos de resistência enfrentam conflitos políticos desde o golpe de 2009 e considera que essa experiência acumulada será importante na nova conjuntura.

“Não é a primeira vez que vamos enfrentar uma adversidade dessa natureza. No passado conseguimos enfrentar e vencer.”

Lucy defendeu maior articulação entre os movimentos sociais latino-americanos e afirmou que a pressão exercida sobre Honduras precisa ser observada em conexão com acontecimentos políticos em outros países da região.

Para ela, o avanço de governos alinhados a Donald Trump exige atenção das organizações políticas e populares.

“Os povos somos mais fortes quando estamos unidos contra esse fascismo ultraconservador que avança em nossa América e no mundo inteiro.”

A declaração foi apresentada como um chamado à cooperação entre movimentos sociais e organizações políticas de diferentes países.

Solidariedade e soberania no centro do debate

A entrevista reuniu duas situações nacionais muito diferentes, mas aproximadas no debate pela questão da soberania.

Na Venezuela, a destruição causada pelo terremoto abriu uma campanha internacional de ajuda às vítimas, enquanto Sabrina Mendoza argumenta que as sanções reduzem a capacidade de reconstrução do país.

Em Honduras, Lucy Paguada descreve um processo de reversão das políticas sociais do governo anterior e acusa os Estados Unidos de terem interferido no processo eleitoral que levou à mudança de governo.

As duas convidadas defenderam formas permanentes de organização internacional. Para Sabrina, a Venezuela continuará necessitando de solidariedade muito depois da fase inicial de atendimento às vítimas. Para Lucy, os movimentos sociais hondurenhos precisarão manter sua capacidade de resistência e ampliar a cooperação com organizações de outros países.

A discussão também recolocou a integração latino-americana como uma questão concreta diante de crises políticas e humanitárias. As situações relatadas pelas convidadas mostram que desastres naturais, sanções financeiras, disputas eleitorais e mudanças nas políticas públicas podem ultrapassar as fronteiras nacionais e exigir respostas articuladas entre países e organizações sociais da região.

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