“Um regime ditatorial trabalha com violações de direitos e com silenciamento”, afirma Marcília Gama

Historiadora detalha vigilância sobre associações de moradores, perseguição a religiosos e atuação do DOPS contra comunidades organizadas durante a ditadura militar

Da Redação

A organização de moradores das periferias por direitos básicos, como água, saneamento, transporte e moradia, foi suficiente para transformar associações comunitárias e lideranças religiosas em alvos dos órgãos de repressão durante a ditadura militar brasileira. A vigilância alcançou organizações de bairro, comunidades eclesiais de base e religiosos que atuavam junto às populações mais pobres, segundo a historiadora e especialista em Arquivologia Marcília Gama.

Em entrevista ao programa Café com Democracia, da Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas, Marcília apresentou resultados de pesquisas realizadas a partir de documentos dos órgãos de repressão, especialmente arquivos relacionados ao DOPS, e explicou como o aparato estatal acompanhava a organização política e social nos bairros populares.

“Um regime autoritário busca a vigilância, em primeiro lugar, de todos os segmentos sociais”, afirmou a professora. Segundo ela, dentro da lógica da chamada Doutrina de Segurança Nacional, a organização comunitária era observada preventivamente porque poderia produzir consciência política entre moradores das periferias e colocá-los em confronto com os interesses do regime.

Associações de moradores sob vigilância

Parte das pesquisas apresentadas por Marcília teve origem em um trabalho desenvolvido a partir de 2013, quando orientou a pesquisadora Jeane Bezerra Cavalcante em um projeto dedicado às associações de bairros. A investigação levou aos arquivos do DOPS e revelou o acompanhamento sistemático dessas entidades.

As associações atuavam em questões diretamente relacionadas à vida cotidiana. Reivindicavam melhorias habitacionais, saneamento, abastecimento de água, transporte e outros serviços públicos.

Apesar desse caráter comunitário, a repressão enxergava nessas organizações um possível espaço de atividade política contrária à ditadura.

“Eles mapearam todas”, explicou Marcília ao comentar documentos que registravam associações, bairros e lideranças. “O objetivo da polícia era rastrear qualquer tipo de organização que fosse de encontro à ordem do regime.”

Segundo a historiadora, os documentos mostram que associações comunitárias chegaram a ser tratadas como possíveis locais de “arregimentação comunista”. A vigilância procurava identificar dirigentes, organizações mais ativas e religiosos ligados às comunidades.

A repressão não se limitava ao acompanhamento documental. Marcília lembrou que órgãos policiais realizavam intervenções diretas contra organizações populares, com invasões, prisões e destruição de espaços utilizados pelos moradores.

Quando reivindicar água virava assunto de polícia

Recortes de jornais e documentos apresentados durante o programa mostram mobilizações como a luta dos moradores do Vasco da Gama, no Recife, pela solução de problemas locais e movimentos populares pelo acesso à água nos morros.

Marcília explicou que, num período anterior à internet e às redes sociais, as associações eram fundamentais para reunir moradores, identificar necessidades e encaminhar reivindicações à prefeitura e aos representantes políticos.

A participação comunitária, entretanto, também passou a alimentar arquivos produzidos pelos órgãos repressivos.

Nesse ambiente ganharam importância as comunidades eclesiais de base e setores progressistas da Igreja Católica. Religiosos que viviam ou trabalhavam nas periferias contribuíam para organizar moradores e introduziam nas atividades pastorais discussões sobre direitos sociais.

“Os vigários levavam a perspectiva de dizer: ‘Olha, gente, nós juntos podemos fazer a diferença’”, relatou Marcília.

A professora citou documentos referentes a bairros como Macaxeira, Casa Amarela e Alto José do Pinho e ressaltou que o fenômeno ultrapassava Recife. Segundo ela, há registros de perseguição a organizações e religiosos também em outros estados nordestinos, incluindo Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas e Ceará.

“Há o mapeamento de todas as comunidades periféricas que, de alguma maneira, ousaram se organizar”, afirmou.

Dom Hélder Câmara e a Igreja perseguida

Entre os religiosos abordados durante a entrevista está Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife durante grande parte da ditadura e uma das figuras brasileiras mais conhecidas internacionalmente na defesa dos direitos humanos.

Marcília destacou a atuação de Dom Hélder contra a fome, a miséria e a desigualdade social e sua aproximação com comunidades pobres. A crescente projeção do religioso o colocou sob intensa vigilância do regime.

“Quando eu falo em fome, eu sou considerado comunista”, resumiu a historiadora ao explicar a lógica utilizada para enquadrar reivindicações sociais como ameaças políticas.

À medida que a repressão se intensificou e denúncias de prisões, perseguições e torturas se acumularam, Dom Hélder passou a denunciar as violações também fora do Brasil. Marcília lembrou que ele foi chamado de “padre vermelho” pelos adversários e sofreu censura e perseguição.

O episódio mais brutal relacionado ao círculo próximo do arcebispo foi o assassinato do padre Antônio Henrique Pereira Neto, auxiliar de Dom Hélder e responsável pelo trabalho pastoral com jovens. Seu corpo foi encontrado em 1969 com marcas de violência.

A historiadora também mencionou outros religiosos perseguidos durante a ditadura, entre eles Frei Tito de Alencar, Joseph Comblin e Vito Miracapillo, além de Reginaldo Veloso.

“Veja o nível invasivo, de perseguição, de violência e violação de direitos que essa ditadura faz”, afirmou.

Para Marcília, o tratamento dado aos religiosos mostra que a repressão não atingia apenas organizações partidárias ou grupos envolvidos diretamente na oposição institucional. A suspeita podia alcançar qualquer pessoa ou entidade capaz de organizar comunidades em torno de direitos sociais.

Repressão também chegou ao campo

A entrevista abordou ainda a atuação de religiosos ligados aos conflitos agrários, entre eles Dom Pedro Casaldáliga e o padre João Bosco Penido Burnier.

Nesse caso, Marcília relacionou a repressão política à concentração fundiária e à resistência contra movimentos que defendiam trabalhadores rurais, indígenas e reforma agrária.

“A questão da terra é que está no epicentro desses debates”, afirmou.

Segundo ela, setores da Igreja envolvidos na defesa dos trabalhadores rurais também passaram a enfrentar perseguições. Religiosos estrangeiros eram particularmente vulneráveis à expulsão do país, enquanto lideranças locais podiam ser presas, ameaçadas ou assassinadas.

“Era uma forma de silenciamento”, definiu Marcília.

A professora relacionou essa experiência histórica à continuidade dos conflitos no campo brasileiro e mencionou a atuação do Conselho Indigenista Missionário, das pastorais ligadas à questão da terra e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

O efeito da repressão sobre a organização comunitária

Marcília chamou atenção para uma consequência menos visível da repressão: a destruição ou enfraquecimento dos espaços comunitários onde moradores discutiam problemas coletivos e tinham contato com informações políticas.

“Lideranças foram mortas, foram perseguidas, foram presas”, afirmou.

Para a historiadora, o medo produzido pela repressão afetou organizações que funcionavam como núcleos de debate e formação política. Essa experiência ajuda a compreender por que preservar documentos dos órgãos repressivos e estudar a atuação das associações populares é importante para reconstruir a memória da ditadura para além dos grandes centros políticos.

Os arquivos permitem observar como o regime chegava ao cotidiano de bairros e comunidades e transformava reivindicações por serviços públicos em questões de segurança nacional.

“A informação é tudo que leva você ao esclarecimento”

Na parte final da entrevista, a conversa avançou para os riscos contemporâneos da desinformação e para as eleições de 2026. Marcília associou a defesa da democracia à necessidade de conhecer a experiência autoritária brasileira e verificar as informações que circulam nas redes sociais.

Para ela, a tecnologia ampliou o acesso à informação, mas também criou condições para a circulação intensa de conteúdos falsos e estratégias profissionais de manipulação.

“Hoje a gente tem uma ferramenta muito rica em nossas mãos, que é a possibilidade de você ter a informação em tempo real”, afirmou.

A principal recomendação deixada pela historiadora foi o esforço permanente de informação e verificação.

“Para mim, a informação é tudo que leva você ao esclarecimento, a ver a essência dos processos e discernir entre o que é correto e o que é falso.”

Quatro décadas depois do fim da ditadura, os documentos apresentados por Marcília Gama ajudam a recuperar uma dimensão do período que nem sempre aparece nas narrativas mais conhecidas sobre a repressão: a vigilância sobre moradores que se reuniam para reivindicar água, transporte, saneamento e moradia e sobre religiosos que decidiram participar dessas lutas.

Nesse material, a repressão política não aparece apenas nos gabinetes ou nos grandes acontecimentos nacionais. Ela chega às associações de bairro, às comunidades eclesiais e aos morros onde cidadãos começaram a descobrir que organizar uma reivindicação coletiva também poderia colocá-los sob a mira do Estado.

Referências

Dom Hélder Câmara: arcebispo de Olinda e Recife e defensor dos direitos humanos, da justiça social e do combate à pobreza

Antônio Henrique Pereira Neto: sacerdote ligado à Arquidiocese de Olinda e Recife e ao trabalho com jovens, assassinado em 1969

Frei Tito de Alencar: frade dominicano perseguido, preso e torturado durante a ditadura militar

Joseph Comblin: sacerdote e teólogo de origem belga com extensa atuação pastoral no Nordeste brasileiro

Vito Miracapillo: sacerdote italiano que atuou em Pernambuco e foi expulso do Brasil durante a ditadura

Dom Pedro Casaldáliga: bispo e defensor dos povos indígenas, trabalhadores rurais e comunidades envolvidas em conflitos pela terra

João Bosco Penido Burnier: padre jesuíta assassinado em 1976 após intervir em defesa de mulheres que denunciavam tortura policial

Teologia da Libertação: corrente teológica cristã latino-americana associada à reflexão sobre pobreza, desigualdade e justiça social

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