Kiev busca recursos para financiar produtores e escoar até 22 milhões de toneladas de grãos por rotas alternativas; governo também negocia US$ 250 milhões com o Banco Mundial
Da Redação
A União Europeia recusou um pedido de € 220 milhões feito pelo governo da Ucrânia para apoiar agricultores e preservar a capacidade produtiva do setor, segundo declaração do ministro da Política Agrária e Alimentação ucraniano, Taras Vysotsky. A decisão ocorre em um momento de forte pressão sobre a agricultura do país, afetada pela guerra, pela redução da área cultivável e pelas dificuldades para transportar a produção até os mercados internacionais.
Kiev tenta agora obter um empréstimo concessional de US$ 250 milhões do Banco Mundial para manter parte das atividades do setor até o fim de 2026. Ao mesmo tempo, o governo ucraniano solicitou aproximadamente € 1,1 bilhão à União Europeia para compensar os custos adicionais de transporte de até 22 milhões de toneladas de produtos agrícolas por rotas alternativas aos principais portos do Mar Negro.
O ministro ucraniano classificou a situação atual como a mais difícil enfrentada pelo setor desde o início da guerra, em fevereiro de 2022. O problema não está apenas na produção. A agricultura depende de uma cadeia que envolve armazenamento, financiamento, transporte e acesso aos mercados externos. Quando uma dessas etapas é interrompida, o impacto pode chegar ao ciclo seguinte de plantio.
Os números apresentados pelo governo ucraniano ajudam a dimensionar a dificuldade. Segundo Kiev, as exportações agrícolas previstas para setembro podem alcançar apenas 46% do volume considerado necessário. As rotas alternativas disponíveis não têm capacidade para absorver toda a produção que normalmente seria escoada pelos grandes portos do Mar Negro.
Apoio político não significa recursos ilimitados
A recusa dos € 220 milhões ocorreu enquanto ministros da Agricultura dos países da União Europeia discutiam justamente a situação do setor agrícola ucraniano. Na reunião realizada em Bruxelas, os governos europeus reiteraram seu apoio aos agricultores da Ucrânia e destacaram a importância de manter a assistência ao país.
O episódio mostra que o apoio europeu a Kiev envolve diferentes níveis de decisão e não significa que todas as solicitações financeiras apresentadas pelo governo ucraniano serão atendidas.
A própria agricultura europeia enfrenta dificuldades. Os ministros discutiram os custos elevados de energia e fertilizantes, a redução dos preços recebidos pelos produtores e os efeitos da seca registrada durante o verão. Nesse contexto, governos do bloco também precisam responder às demandas de seus próprios agricultores e às pressões sobre os orçamentos nacionais.
A questão é particularmente sensível porque a integração econômica da Ucrânia ao mercado europeu também afeta produtores dos países-membros. A entrada de produtos agrícolas ucranianos já provocou disputas políticas em partes do Leste Europeu, onde agricultores reclamam da concorrência com mercadorias produzidas em condições diferentes.
Para Kiev, ampliar o acesso aos mercados europeus é uma forma de preservar receitas durante a guerra. Para parte dos produtores europeus, porém, o aumento da oferta ucraniana pode pressionar preços e reduzir margens de produção.
A guerra, portanto, colocou a agricultura no centro de uma disputa que envolve simultaneamente financiamento, comércio e logística.
Produzir não basta
A Ucrânia continua sendo uma importante produtora agrícola, apesar dos danos provocados pela guerra. Segundo dados citados pelo AgroPortal, o país perdeu aproximadamente 5 milhões de hectares de terras cultiváveis e teve redução estimada de 28 milhões de toneladas em seu potencial produtivo desde o início do conflito. Ainda assim, a produção de grãos permanece próxima de 80 milhões de toneladas.
O problema central passou a ser o escoamento.
Historicamente, grande parte das exportações agrícolas ucranianas depende dos portos do Mar Negro. A guerra atingiu essa infraestrutura e tornou as rotas marítimas mais vulneráveis. De acordo com dados citados pela Euronews, aproximadamente 90% das commodities agrícolas ucranianas dependem do Mar Negro para chegar aos mercados externos.
Com a redução da capacidade dos grandes portos, Kiev passou a depender mais de alternativas como os portos do Danúbio, ferrovias e corredores terrestres através de países da União Europeia.
Essas rotas, entretanto, são mais caras e possuem capacidade limitada. É nesse ponto que entra o pedido de € 1,1 bilhão apresentado por Kiev. O recurso seria destinado a reduzir o impacto financeiro do transporte de até 22 milhões de toneladas de produtos agrícolas que enfrentam dificuldades para sair pelo Mar Negro.
Para os agricultores, o problema logístico rapidamente se transforma em problema financeiro. Se a produção não chega aos compradores, a receita diminui. Com menos recursos disponíveis, torna-se mais difícil financiar sementes, fertilizantes, combustível e outras despesas do ciclo seguinte.
Por isso, a preocupação de Kiev não está restrita à safra atual. O governo precisa preservar as condições para o próximo plantio.
A dependência do Mar Negro
A vulnerabilidade da agricultura ucraniana aumentou à medida que os ataques atingiram infraestrutura portuária e outras instalações relacionadas à exportação.
Kiev atribui à Rússia a responsabilidade pelos ataques e pela redução da segurança das rotas marítimas. Moscou apresenta outra interpretação para as operações no Mar Negro e relaciona a segurança da navegação a questões militares e às condições de eventuais acordos envolvendo a região.
Independentemente das posições apresentadas pelos dois governos, o efeito econômico para a Ucrânia é mensurável: transportar mercadorias por rotas terrestres e fluviais custa mais e limita o volume que pode ser exportado. A dificuldade de acesso aos portos transforma a logística em uma questão de sobrevivência econômica para um setor que continua sendo uma das principais fontes de receita externa da Ucrânia.
Essa dependência ajuda a explicar a dimensão do pedido feito a Bruxelas. Os € 1,1 bilhão solicitados não seriam destinados diretamente à produção agrícola, mas ao financiamento do custo adicional para levar a mercadoria até os mercados internacionais.
O pedido de € 220 milhões recusado pela União Europeia tem natureza diferente. Segundo o governo ucraniano, o objetivo era apoiar diretamente agricultores e empresas do setor diante das dificuldades enfrentadas durante a guerra. Kiev tenta agora compensar parte dessa ausência de recursos por meio do empréstimo negociado com o Banco Mundial.
O custo crescente de manter a economia funcionando
A situação da agricultura evidencia um problema mais amplo enfrentado pela Ucrânia depois de mais de quatro anos de guerra: manter a economia funcionando exige recursos que vão além da assistência militar.
É necessário financiar empresas, reparar infraestrutura, garantir energia, preservar empregos e manter setores exportadores capazes de gerar divisas.
A agricultura concentra parte importante dessa pressão porque depende de ciclos produtivos que não podem ser interrompidos indefinidamente. Uma dificuldade financeira no momento da preparação do solo pode comprometer uma safra que só será colhida meses depois.
Nesse contexto, o apoio externo continua sendo decisivo, mas os limites desse financiamento também ficam mais visíveis.
A União Europeia mantém seu compromisso político com a Ucrânia e continua discutindo mecanismos de apoio ao país. Ao mesmo tempo, governos europeus precisam administrar suas próprias restrições orçamentárias e responder às dificuldades enfrentadas por seus agricultores.
A negativa dos € 220 milhões não significa uma interrupção da assistência europeia a Kiev. Mostra que o apoio possui limites financeiros e políticos e que cada nova solicitação precisa disputar espaço com outras prioridades dentro do próprio bloco.
Para a Ucrânia, a questão é imediata.
O país precisa manter sua produção agrícola, encontrar rotas para exportar os grãos e garantir recursos para iniciar os próximos ciclos de plantio. O governo busca, simultaneamente, financiamento europeu para a logística e crédito internacional para sustentar os produtores.
A guerra transformou uma atividade tradicionalmente orientada pelo mercado global em uma operação que depende cada vez mais de financiamento externo e de corredores logísticos protegidos.
O episódio também coloca no centro da relação entre Kiev e seus parceiros ocidentais uma questão cada vez mais difícil de contornar: quanto custa sustentar a economia ucraniana durante uma guerra prolongada e por quanto tempo seus aliados estarão dispostos a assumir essa conta. No caso da agricultura, a resposta começa a aparecer nos números. A produção continua relevante, mas transportar, financiar e vender essa produção tornou-se uma tarefa tão importante quanto plantá-la.
