Atitude Popular

“Vai ser uma eleição sanguinária”

No Democracia no Ar, Roberto Cardoso analisa a ascensão de Flávio Bolsonaro, o reposicionamento de Nikolas Ferreira e os riscos de uma reorganização agressiva da direita para 2026


A disputa por protagonismo no campo da direita brasileira, com reflexos diretos sobre a sucessão presidencial de 2026, foi o centro do debate no programa Democracia no Ar, exibido na terça-feira, 3 de março, pela Rádio e TV Atitude Popular. A entrevista com o professor Roberto Cardoso, criador do canal Pensando Alto, teve apresentação de Sara Goes e comentários de Antonio Ibiapino, e se debruçou sobre a reconfiguração do bolsonarismo, o crescimento político de Flávio Bolsonaro e os sinais de desgaste de Nikolas Ferreira.

A partir da conversa exibida no programa, a análise apontou que a direita brasileira atravessa uma fase de rearranjo interno em que antigas figuras perdem centralidade, enquanto outras se consolidam como alternativas viáveis para manter vivo o capital político do bolsonarismo. Nesse contexto, Roberto Cardoso alertou que subestimar o avanço de Flávio Bolsonaro pode ser um erro grave, especialmente num cenário em que a extrema direita já começa a se organizar com antecedência e forte capacidade de mobilização.

Segundo o professor, a ascensão do senador fluminense não deve ser tratada como algo improvável ou exótico. Para ele, o movimento é coerente com a lógica do bolsonarismo e com a capacidade que Jair Bolsonaro ainda conserva de transferir influência para dentro da própria família. Em sua avaliação, a esquerda demorou a perceber que Flávio estava sendo testado e legitimado como nome competitivo.

“Ele deu uma tacada de mestre, porque percebeu que só ele tem voto na direita. Eu nunca entendi por que falavam que Tarcísio é o nome mais viável. O único que tem votos é o Jair. Por que ele vai apoiar alguém de fora da família?”, afirmou.

Na leitura de Roberto Cardoso, o erro estratégico de muitos adversários foi considerar Flávio um candidato fraco demais para merecer atenção. Enquanto isso, ele teria circulado pelo país, ampliado articulações e se consolidado como depositário natural do espólio eleitoral do pai.

“As pessoas não levavam o Flávio a sério. Isso foi um erro da esquerda, que achava que ele era o candidato mais fácil de derrotar. Deixou ele correr sozinho, deixou ele fazer campanha”, disse.

O professor também sustentou que, mesmo sem o carisma histriônico do ex-presidente, Flávio reúne características que o tornam particularmente funcional para os setores dominantes da direita. Ao contrário de outras figuras que buscam construir liderança própria, ele apareceria como alguém disposto a operar sobretudo em nome de um objetivo central: proteger o pai e manter coeso o bolsonarismo.

“O Flávio tende a ser um candidato ideal para a direita, porque ele só quer tirar o pai da cadeia. Ele não quer fazer nada. Então, o que ele tiver que fazer, ele faz. O que ele tiver que entregar, ele entrega”, afirmou.

Essa avaliação foi acompanhada de um alerta mais amplo sobre o ambiente da próxima disputa presidencial. Para Roberto Cardoso, a eleição de 2026 tende a ser ainda mais dura do que a de 2022, justamente porque o ressentimento acumulado na extrema direita se intensifica a cada derrota.

“Toda eleição do Lula tende a ser mais difícil que a anterior, porque cada vitória aumenta o rancor, aumenta o ressentimento, aumenta o ódio. Não vão permitir mais uma. Vai ser uma eleição sanguinária”, resumiu.

Durante o programa, Antonio Ibiapino reforçou a preocupação com a base social que sustenta o bolsonarismo, especialmente entre segmentos religiosos e econômicos que atuam como núcleos de fidelização política. Em sua avaliação, parte importante da força da extrema direita decorre da combinação entre fanatismo ideológico, manipulação da fé e interesse de setores empresariais em políticas de retirada de direitos.

Ao comentar a dificuldade de enfrentamento desse campo, Ibiapino observou que há uma base mobilizada que não muda de posição com facilidade e que opera muitas vezes a partir de lealdades religiosas e morais, mesmo quando seus próprios interesses materiais são contrariados. Ele defendeu que o enfrentamento dessa realidade exige disputa política paciente, didática e permanente, com ênfase nas conquistas concretas obtidas pelos governos progressistas.

Nesse ponto, o debate se deslocou para as formas possíveis de fazer campanha num cenário em que a direita trabalha com narrativas flexíveis, contraditórias e emocionalmente eficazes. Uma das questões centrais levantadas foi justamente o modo como Flávio Bolsonaro vem sendo apresentado como uma espécie de versão moderada do bolsonarismo, alguém capaz de herdar a base do pai, mas com aparência mais palatável para eleitores cansados do estilo agressivo do ex-presidente.

Roberto Cardoso observou que esse tipo de construção exige da esquerda uma estratégia menos centrada em seus redutos tradicionais e mais disposta a dialogar com setores que votaram contra Bolsonaro em 2022, mas não mantêm fidelidade automática ao campo progressista.

“É preciso dialogar com setores que a gente não está acostumado a dialogar, não falar só sobre a própria esquerda, não querer atender só a própria esquerda. Você já tem esse público. Precisa buscar um público a mais”, afirmou.

Entre os segmentos citados como decisivos estão mulheres evangélicas, negras e periféricas, muitas das quais rejeitaram Bolsonaro por causa da condução da pandemia e do impacto da inflação sobre a vida cotidiana, mas que não necessariamente permanecem identificadas com Lula ou com o PT. Na avaliação do entrevistado, reconquistar esse eleitorado e impedir sua reabsorção pela máquina bolsonarista será decisivo para 2026.

Outro eixo relevante da entrevista foi o reposicionamento de Nikolas Ferreira. Embora impedido pela idade de disputar a Presidência da República, o deputado mineiro foi descrito como uma das figuras mais perigosas da nova direita, justamente por sua habilidade comunicacional, sua inserção religiosa e sua capacidade de se projetar como liderança de uma geração mais jovem do bolsonarismo.

Roberto Cardoso foi enfático ao dizer que Nikolas não atua apenas como linha auxiliar da família Bolsonaro, mas como alguém que tenta construir sua própria centralidade política.

“O Nikolas nunca quis o Bolsonaro livre. Ele nunca se posicionou fortemente pela liberdade do Bolsonaro, porque ele quer o lugar do Bolsonaro. Ele quer ser o líder do bolsonarismo”, afirmou.

Para ele, os movimentos recentes do deputado indicam uma tentativa de assumir o comando simbólico do campo conservador, ainda que sem poder disputar a Presidência no próximo ciclo. Nesse sentido, as manifestações de rua e suas incursões midiáticas seriam parte de uma acumulação de capital político para o futuro.

Ao mesmo tempo, o programa apontou que Nikolas enfrenta sinais de desgaste. A sua capacidade de mobilização parece não se traduzir automaticamente em demonstrações de força nas ruas, e sua tentativa de ocupar o centro do bolsonarismo esbarra em outras ambições, especialmente as de Michelle Bolsonaro, descrita por Roberto como uma figura politicamente calculista e menos ingênua do que muitos supõem.

“A Michelle, que é a Bolsonaro mais esperta, já percebeu isso há muito tempo. Ela vê futuro do lado do Nikolas”, disse.

Segundo ele, Michelle não demonstra interesse real em fortalecer Flávio Bolsonaro e trabalha para preservar um espaço próprio, podendo inclusive apostar numa composição futura com Nikolas Ferreira. O resultado disso é uma disputa silenciosa, mas intensa, entre diferentes correntes do bolsonarismo por dinheiro, visibilidade e comando político.

O debate também chamou atenção para a mudança de foco narrativo da direita. Se em eleições anteriores o inimigo principal era Lula, o PT ou o fantasma do “comunismo”, agora a aposta parece se concentrar no Supremo Tribunal Federal como novo alvo mobilizador.

Roberto Cardoso argumentou que, diante do fracasso de algumas campanhas de pânico moral e econômico, a direita tenta canalizar a revolta popular contra o Judiciário, explorando temas como supersalários, penduricalhos, venda de sentenças e lentidão da Justiça.

“O objetivo não é tirar o Lula de lá. O objetivo é colocar gente séria de direita para fazer o impeachment dos ditadores da toga”, afirmou, ao descrever a narrativa que vem sendo construída pelo bolsonarismo.

Na sua análise, trata-se de uma estratégia perigosamente eficaz, porque encontra terreno fértil num país em que a população já vê o Judiciário com desconfiança. A aposta seria reeditar, com novo alvo, a lógica de indignação seletiva que ajudou a impulsionar Bolsonaro em 2018.

Ao longo do programa, também se discutiu a tentativa da direita de criar paralelos artificiais entre a família Bolsonaro e a família Lula, especialmente por meio da reativação recorrente do nome de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A avaliação dominante foi a de que mesmo sem fatos novos consistentes, a simples construção de suspeitas ou insinuações já pode ser usada para produzir desgaste político, num jogo em que a extrema direita não depende de comprovações, mas da circulação contínua de narrativas.

Nesse sentido, a entrevista insistiu que 2026 não será uma disputa comum, mas uma batalha em que a direita chegará preparada, financiada e disposta a usar todas as armas disponíveis. Por isso, o alerta lançado por Roberto Cardoso não se restringe à análise eleitoral. Ele é também um chamado à lucidez política diante de um adversário que não pode mais ser tratado como caricatura.

A entrevista do Democracia no Ar mostrou, em resumo, que a reorganização da direita brasileira não está acontecendo no improviso. Flávio Bolsonaro avança como herdeiro viável de um capital político familiar ainda robusto. Nikolas Ferreira se movimenta para liderar o pós-Bolsonaro. Michelle preserva seu próprio projeto. E, enquanto isso, a extrema direita ajusta seu discurso, redefine seus inimigos e prepara terreno para uma disputa nacional de alta voltagem.


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