“Vamos perder a referência sobre o que é verdadeiro ou não”, alerta Sylvia Moretzsohn

Jornalista defende que a inteligência artificial, as redes sociais e a lógica das plataformas ampliam a crise da informação e comprometem a capacidade crítica da sociedade

A jornalista e pesquisadora Sylvia Moretzsohn afirmou que a sociedade vive um momento decisivo diante do avanço da inteligência artificial, das redes sociais e dos algoritmos, alertando para o risco de uma deterioração da capacidade de distinguir fatos de versões fabricadas. A análise foi feita durante entrevista ao programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular.

Autora do livro Eles não querem que você saiba: as armadilhas da desinformação, Sylvia conversou com a apresentadora Sara Goes e com a professora Sandra Helena sobre os impactos das novas tecnologias na produção do conhecimento, no jornalismo, na democracia e na formação das novas gerações. Ao longo da entrevista, a pesquisadora defendeu que a crise atual não surgiu com a inteligência artificial, mas é resultado de um processo histórico de enfraquecimento da mediação jornalística e de concentração do poder nas grandes plataformas digitais.

Segundo Sylvia, um dos maiores perigos do momento atual é a naturalização da dependência em relação às ferramentas de inteligência artificial.

“Vamos perder a referência sobre o que é verdadeiro ou não.”

Para ela, o problema ultrapassa a circulação de notícias falsas. O risco central está na substituição gradual da capacidade humana de investigar, comparar informações, construir argumentos e formular pensamento crítico.

“A grande preocupação não é apenas a desinformação no sentido mais banal. É a formação das novas gerações.”

Inteligência artificial produz uma ilusão de rigor

Durante a conversa, Sylvia destacou exemplos recentes que demonstram como sistemas de inteligência artificial podem produzir respostas falsas com aparência de absoluta precisão.

Ela relatou o caso de um jornalista português que consultou um chatbot em busca da localização de uma referência bibliográfica. O sistema indicou páginas específicas, descreveu o contexto da citação e reforçou a impressão de precisão. Ao verificar o livro, o jornalista descobriu que nenhuma daquelas informações existia.

Questionado novamente, o próprio sistema admitiu ter criado a informação.

“Indiquei o número das páginas e formulei o texto para reforçar a ilusão de rigor e ancorar a minha hipótese.”

Para Sylvia, episódios desse tipo mostram que o problema não está apenas no erro, mas na capacidade dessas ferramentas de convencer o usuário de que estão corretas.

O perigo da dependência cognitiva

Outro ponto enfatizado pela pesquisadora foi a transferência crescente de tarefas intelectuais para ferramentas automatizadas.

Segundo ela, quando pessoas passam a delegar decisões, pesquisas, produção de textos e processos de aprendizagem aos sistemas de IA, ocorre um enfraquecimento gradual da autonomia intelectual.

“A mais radical alienação é delegar a própria capacidade de pensar.”

Ela lembrou que diversos pesquisadores, entre eles o neurocientista Miguel Nicolelis, vêm alertando para os riscos da dependência dessas tecnologias e para a utilização do termo “inteligência artificial” como estratégia de marketing, já que esses sistemas não possuem consciência nem pensamento próprio.

A crítica à internet não significa defender a velha mídia

Sylvia também procurou diferenciar a crítica às plataformas digitais de qualquer defesa acrítica dos grandes conglomerados de comunicação.

Segundo ela, os problemas atuais não eliminam as distorções históricas da imprensa tradicional, mas revelam um cenário ainda mais complexo, em que grandes empresas de tecnologia passaram a concentrar enorme poder sobre a circulação das informações.

Ela argumenta que o jornalismo possui procedimentos de verificação, compromisso ético e responsabilidade pública que permitem cobrar qualidade e credibilidade das informações produzidas. Nas redes sociais, afirma, esse sistema de responsabilização praticamente desaparece.

A pesquisadora recordou que, no início da popularização da internet, difundiu-se a ideia de que todos poderiam falar diretamente ao público, sem mediações. Para ela, essa promessa ignorava um aspecto central: a tendência histórica de concentração econômica também alcançaria as plataformas digitais.

Redes sociais e algoritmos moldam o debate público

Na avaliação da jornalista, a lógica das plataformas estimula conteúdos emocionais, polarizadores e superficiais, favorecendo discursos extremistas e dificultando o aprofundamento dos debates.

Ela afirmou que a combinação entre algoritmos, inteligência artificial e interesses econômicos cria um ambiente em que a informação deixa de ser organizada prioritariamente pelo interesse público e passa a obedecer aos critérios de engajamento e rentabilidade.

Essa dinâmica, segundo Sylvia, compromete não apenas o jornalismo, mas o próprio funcionamento da democracia.

Copa do Mundo também revela interesses econômicos

A entrevista também abordou a cobertura da Copa do Mundo.

Sylvia criticou a influência crescente de patrocinadores, empresas de apostas e interesses comerciais sobre o futebol internacional. Para ela, a competição tornou-se um exemplo de como grandes eventos esportivos passaram a ser conduzidos por interesses econômicos muito superiores ao próprio esporte.

Ela também criticou a cobertura esportiva centrada em estatísticas, marketing e construção de celebridades, em detrimento da análise do jogo coletivo.

O erro faz parte do aprendizado

Na parte final da entrevista, Sylvia chamou atenção para um aspecto pouco discutido sobre o uso da inteligência artificial na educação.

Segundo ela, aprender pressupõe experimentar, errar e corrigir os próprios caminhos. Ao oferecer respostas prontas para qualquer problema, a IA reduz justamente uma das etapas fundamentais do desenvolvimento intelectual.

“O erro existe exatamente para você poder aprender.”

A pesquisadora concluiu defendendo que a sociedade discuta de forma mais profunda os limites éticos das novas tecnologias antes que sua adoção se torne irreversível, especialmente nas escolas, universidades e espaços de formação.

Referências

Eles não querem que você saiba: as armadilhas da desinformação
Autora: Sylvia Moretzsohn

O outro lado do jogo
Autor: Adriano de Freixo

Grande Sertão: Veredas
Autor: João Guimarães Rosa, 1956

A metamorfose
Autor: Franz Kafka, 1915

1984
Autor: George Orwell, 1949

Roda Viva
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