“Viralização não é apoio político”, afirma João Paulo Bandeira

Cientista político analisa o início da propaganda eleitoral, a disputa entre Elmano e Ciro no Ceará, as estratégias presidenciais e os limites das campanhas construídas para as redes sociais

Da Redação

A entrada da campanha eleitoral no rádio e na televisão amplia o alcance das candidaturas e permite que o debate chegue a eleitores que não acompanham diariamente a política pelas redes sociais. Embora a internet tenha reduzido a centralidade dos meios tradicionais, o rádio e a TV ainda exercem influência relevante, sobretudo entre trabalhadores com pouco tempo disponível e moradores de cidades do interior.

A avaliação é do cientista político e professor do Instituto Federal do Ceará (IFCE) João Paulo Bandeira. Em entrevista concedida nesta terça-feira (1º) ao programa Café com Democracia, da Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas, ele analisou os primeiros dias da propaganda eleitoral, as estratégias das principais candidaturas no Ceará e no país e a influência do tempo disponível para cada partido.

Para Bandeira, a propaganda gratuita marca uma nova etapa da disputa porque alcança parcelas do eleitorado que não acompanham a pré-campanha, os debates partidários ou a comunicação cotidiana dos candidatos. Ele destacou que essa distância da política não decorre necessariamente de desinteresse, mas das condições concretas de vida de quem enfrenta longas jornadas de trabalho.

“Agora, quando chega no rádio e na TV, é que a maioria da população, aquele trabalhador que está na jornada 6 por 1 e não tem muito tempo para acompanhar nem a família, passa a ser alcançada. Não é porque ele não quer acompanhar a vida política. É porque ele não tem tempo”, explicou.

Inserções podem ser mais influentes que o programa eleitoral

Na avaliação do professor, as inserções curtas distribuídas durante a programação podem exercer influência maior do que os blocos tradicionais do horário eleitoral. Uma parcela dos espectadores troca de canal ou desliga o aparelho quando começa o programa político, enquanto os anúncios menores aparecem no intervalo de conteúdos que já fazem parte de sua rotina.

“O horário político gratuito ainda é muito importante no rádio e na TV, embora tenha diminuído. Mais importantes do que o próprio horário são as pequenas inserções durante a programação. A pessoa está vendo ou ouvindo seu programa preferido e, de repente, aparece uma propaganda eleitoral”, afirmou.

A repetição das mensagens e o caráter inesperado das inserções facilitam a apresentação de candidatos, propostas e críticas aos adversários. Segundo Bandeira, esse formato tem capacidade de alcançar especialmente as classes populares, que nem sempre estão presentes nos ambientes digitais onde se concentra parte considerável do debate eleitoral.

O rádio conserva um papel particular nas cidades do interior do Ceará e de outros estados. Emissoras locais acumulam credibilidade e mantêm uma relação cotidiana com seus ouvintes, permitindo que a mensagem política seja recebida em um espaço de confiança já estabelecido.

“O rádio ainda é muito importante, principalmente nas cidades do interior, nos rincões do Ceará e do Brasil. As emissoras das cidades têm muita força. A pessoa ouve aquilo na rádio que sempre escuta, com a qual já tem uma relação no seu cotidiano, e isso impacta a vida”, declarou.

Elmano e Ciro têm tempos semelhantes no Ceará

Na disputa pelo Governo do Ceará, a coligação de Elmano de Freitas dispõe de 4 minutos e 37 segundos, enquanto a aliança liderada por Ciro Gomes conta com 4 minutos e 22 segundos. Para Bandeira, a pequena diferença cria uma situação próxima de empate e concentra a exposição televisiva nos dois candidatos.

“Quando você só vê Ciro e Elmano na televisão, praticamente empatados, isso dá cada vez mais uma cara de segundo turno para a eleição de primeiro turno no Ceará”, avaliou.

O tempo disponível pode ser utilizado para apresentar as biografias dos candidatos, divulgar realizações, responder a críticas e atacar adversários. As propostas, segundo o professor, ainda aparecem de maneira secundária porque os primeiros programas costumam ser dedicados à apresentação das candidaturas e de suas trajetórias.

Bandeira identificou duas narrativas distintas. A campanha de Elmano mostra ações realizadas pelo governo e defende a continuidade de um projeto político. Ciro, por sua vez, apresenta o Ceará como um estado em situação de deterioração, especialmente na segurança pública, e coloca sua própria experiência como resposta ao problema.

“É como se Elmano mostrasse o prédio pronto e Ciro dissesse que o prédio está pegando fogo. Elmano mostra a casa e Ciro mostra a casa pichada pela facção”, comparou.

Associação de Ciro ao bolsonarismo enfrenta limites

Uma das principais estratégias da campanha de Elmano consiste em associar Ciro Gomes a Jair Bolsonaro e aos grupos bolsonaristas que passaram a apoiá-lo no Ceará. A intenção é disputar eleitores que votam no Presidente Lula, mas ainda identificam Ciro com posições de centro-esquerda.

Bandeira reconheceu que a estratégia pode produzir resultados, mas ponderou que Ciro possui trajetória e capital político próprios. Essa identidade construída durante décadas dificulta a associação imediata de sua imagem ao bolsonarismo, apesar da aliança com o PL e da incorporação de pautas e expressões utilizadas pela extrema direita.

“É muito difícil colar uma imagem de bolsonarista no Ciro, embora ele esteja falando como bolsonarista, usando os termos do bolsonarismo, acompanhado do bolsonarismo e cercado de bolsonaristas. Isso ainda não colou”, observou.

O professor afirmou que as pesquisas divulgadas após o início da propaganda serão importantes para medir o efeito dessa tentativa. O desafio de Elmano é aproximar sua intenção de voto do desempenho do Presidente Lula no Ceará. Para isso, sua campanha precisa conquistar eleitores lulistas que ainda consideram votar em Ciro.

Na análise de Bandeira, Ciro apresenta a ideia de que existiu no Ceará um período de prosperidade que foi perdido e se oferece como dirigente capaz de recuperá-lo. Elmano procura situar os avanços no presente e se apresenta como representante de um projeto coletivo.

“O que Elmano vai dizer é que o projeto é o mesmo e Ciro mudou de lado. Essa é a disputa narrativa desses primeiros dias”, sintetizou.

Candidatos ao Senado recorrem às próprias trajetórias

Na eleição para o Senado, a chapa formada por Cid Gomes e Luizianne Lins dispõe de 3 minutos e 35 segundos, enquanto a aliança de Capitão Wagner e Alcides Fernandes tem 3 minutos e 24 segundos. A diferença também é pequena e permite que os dois grupos desenvolvam campanhas competitivas no rádio e na televisão.

Cid destaca sua passagem pelo Senado e por outros cargos públicos. Luizianne recupera sua trajetória como liderança popular de Fortaleza e representante das periferias da capital. Capitão Wagner concentra sua comunicação na segurança pública, área à qual sua imagem política está associada.

“O Capitão Wagner está falando para o público dele, para aqueles que confiam em sua liderança. É uma estratégia acertada para ele”, disse o professor.

Alcides Fernandes, segundo Bandeira, possui uma trajetória política mais curta e recorre com maior intensidade à sua história pessoal e religiosa. Ao mesmo tempo, sua campanha já começou a dirigir críticas a Cid Gomes.

O cientista político elogiou a qualidade técnica das principais campanhas cearenses. Para ele, as candidaturas apresentam trabalhos bem elaborados do ponto de vista estético, discursivo e visual. A presença do Presidente Lula também aparece como um dos principais ativos eleitorais das candidaturas de Elmano, Cid e Luizianne.

Enquanto Ciro tenta concentrar a campanha nos problemas estaduais, como se as questões nacionais não interferissem na realidade do Ceará, seus adversários procuram vincular a eleição local ao projeto político representado por Lula.

Campanhas para deputado ainda apresentam poucas propostas

Ao analisar a propaganda dos candidatos a deputado estadual e federal, Bandeira apontou a presença de jingles bem produzidos, mas criticou a ausência de propostas detalhadas. Na avaliação dele, os programas ainda não explicam com clareza quais projetos serão defendidos, quanto custarão e de onde sairão os recursos necessários.

O reduzido tempo de exposição leva muitos candidatos a repetirem formatos antigos, limitados à apresentação do nome e do número. O professor relacionou essa situação às mudanças eleitorais que diminuíram a duração das campanhas e da propaganda gratuita sob o argumento de reduzir despesas.

“A diminuição do horário político eleitoral gratuito foi um retrocesso porque segue aquela ideia de que a política é ruim, perda de tempo ou algo desnecessário. Quem perde é a população, que não tem espaço na televisão e no rádio para realmente conhecer seus candidatos”, declarou.

Nas redes sociais, as candidaturas dispõem de mais liberdade para explorar humor, coreografias e conteúdos voltados à viralização. Bandeira advertiu, porém, que visibilidade não pode ser confundida com voto.

“Viralização não é apoio político. Muitas vezes, o sujeito está só passando vergonha no feed dele”, afirmou.

Segundo o professor, existe uma diferença delicada entre o humor que aproxima uma candidatura do eleitor e a exposição que transforma o candidato em motivo de rejeição. Tornar-se conhecido pode despertar interesse, mas também pode levar o eleitor a decidir que não votará naquela pessoa.

Bandeira considera preocupante a substituição do discurso político por tendências e coreografias. O uso desses recursos pode integrar a comunicação, mas não deveria impedir a apresentação de propostas ou eliminar a responsabilidade vinculada à disputa de um cargo público.

Mobilização nas ruas continua necessária

Apesar da expansão da comunicação digital, o professor defendeu que a capacidade de mobilizar eleitores presencialmente permanece importante. Candidaturas com grande alcance nas redes precisam demonstrar que esse apoio também existe nos bairros, nas caminhadas e nas atividades políticas.

“Você pode ter o vídeo que quiser viralizado e as redes sociais mais ativas. Se não conseguir trazer as pessoas para a rua, essa parte da internet fica prejudicada. O volume de campanha importa muito”, explicou.

Bandeira recordou que as eleições já tiveram uma dimensão festiva mais intensa, com distribuição de camisetas, broches e realização de apresentações artísticas. Parte dessas práticas foi proibida para conter o abuso do poder econômico e a compra de votos. Ainda assim, ele considera que a eleição continua mobilizando a sociedade brasileira.

“As eleições são uma festa. O brasileiro pode até não gostar muito de política, mas gosta da eleição, da disputa e de entrar nesse debate”, avaliou.

Lula explora trajetória e pauta da jornada 6 por 1

Na eleição presidencial, a coligação do Presidente Lula dispõe de 5 minutos e 31 segundos. Flávio Bolsonaro, candidato apenas pelo PL, sem uma coligação partidária, tem 4 minutos e 20 segundos. Ronaldo Caiado conta com 2 minutos e 2 segundos, enquanto Augusto Cury possui 35 segundos.

A campanha de Lula iniciou a propaganda recuperando sua biografia e sua trajetória como liderança política e sindical. As imagens do lançamento da candidatura em São Bernardo do Campo ajudam a apresentar Lula como um candidato cuja relação com os trabalhadores antecede seus mandatos presidenciais.

As inserções também começaram a estabelecer um confronto com Flávio Bolsonaro. Algumas peças foram questionadas judicialmente, levando a campanha de Lula a retirar referências que poderiam ser interpretadas como ataques pessoais e reformular a mensagem sem abandonar seu objetivo político.

A jornada 6 por 1 apareceu como uma das primeiras pautas da campanha. A comunicação procura estabelecer um contraste entre a realidade de trabalhadores submetidos a essa escala e a trajetória de Flávio, que nunca enfrentou uma rotina de trabalho com carteira assinada nessas condições.

Bandeira avaliou que as campanhas ainda estão testando temas e ajustando seus discursos. A expectativa é de que a disputa se torne mais intensa durante setembro, quando as peças de apresentação devem dar lugar a comparações mais diretas entre os candidatos.

Flávio busca eleitorado feminino e aposta na segurança

A campanha de Flávio Bolsonaro reservou parte de seu tempo para tentar reduzir a rejeição entre as mulheres. Sua esposa aparece na propaganda apresentando-o como um Bolsonaro moderado e afirmando que precisou reeducá-lo.

Além dessa tentativa de reposicionamento, Flávio concentra o discurso na inflação e na segurança pública. Uma de suas propostas é reproduzir no Brasil políticas adotadas por El Salvador, marcadas pelo encarceramento em larga escala.

Bandeira criticou a ausência de explicações sobre os custos e as consequências dessa promessa. Segundo o cálculo apresentado durante a entrevista, se o Brasil adotasse proporcionalmente o mesmo nível de encarceramento de El Salvador, precisaria chegar a cerca de 4 milhões de pessoas presas.

“Imagine como seria isso para fortalecer o crime organizado. A solução não é só encarceramento, é óbvio que não”, alertou.

Ronaldo Caiado utiliza seu tempo para apresentar experiência administrativa, coragem pessoal e formação médica. Sua propaganda valoriza o governo de Goiás como principal demonstração de sua capacidade política.

Augusto Cury, por sua vez, dirige críticas simultaneamente ao PT e à família Bolsonaro. Bandeira avaliou que o candidato tenta ocupar o espaço de uma terceira candidatura competitiva no campo da direita, sem assumir a identidade de terceira via.

Financiamento público exige controle e transparência

O programa também discutiu o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, que disponibilizou R$ 4,961 bilhões para distribuição entre 30 partidos nas eleições de 2026.

João Paulo Bandeira defendeu a existência do financiamento público como alternativa ao financiamento empresarial, que produziu graves distorções no processo eleitoral. Ele ponderou, no entanto, que a aplicação dos recursos precisa ser acompanhada por mecanismos mais rigorosos de controle e transparência.

“A democracia é cara. As campanhas estão cada vez mais caras. Eu defendo que haja maior controle público sobre esses gastos, maior controle sobre os partidos e maior transparência na distribuição dessas verbas”, afirmou.

O professor também defendeu a democratização das decisões internas dos partidos para impedir que os recursos permaneçam concentrados nas cúpulas partidárias. Para ele, o problema não está apenas no valor do fundo, mas nos critérios utilizados para definir quais candidaturas receberão dinheiro e quanto cada uma poderá gastar.

Bandeira observou que a comunicação profissional envolve custos com publicidade, produção audiovisual e marketing político. Esses profissionais desempenham a função de traduzir temas complexos para uma linguagem compreensível, mas sua contratação precisa ocorrer dentro de regras fiscalizáveis.

“A comunicação custa caro, mas deveria haver realmente um controle maior. Quanto mais interação e mais pessoas debatendo as questões públicas, mais importante isso é para a vida coletiva”, concluiu.

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