“Você não pode tratar candidaturas antidemocráticas como se fossem normais”

Sylvia Moretzsohn critica a atuação da imprensa diante da eleição de 2026 e afirma que fatos graves, como a interferência dos Estados Unidos no Brasil, recebem menos destaque do que denúncias dirigidas ao campo progressista

Da Redação

“Você não pode tratar candidaturas que sabe que não são democráticas como se fossem normais.” A advertência da jornalista e professora Sylvia Moretzsohn marcou a edição do quadro “A Notícia que Você Não Vê”, exibido pelo programa Democracia no Ar.

Professora da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora de ética jornalística e crítica da mídia, Sylvia participou do programa ao lado da professora e comentarista Sandra Helena. A conversa analisou como omissões, exageros, escolhas editoriais e enquadramentos superficiais impedem que acontecimentos importantes sejam compreendidos pelo público.

A edição também prestou homenagem ao professor Lejeune Mirhan, que morreu aos 73 anos. Reconhecido por suas análises sobre geopolítica, multipolaridade e soberania, Lejeune mantinha uma colaboração frequente com veículos progressistas e dedicou parte importante de sua trajetória à divulgação de conhecimento.

Sandra Helena lembrou sua produção intelectual, a relação com os livros e o compromisso com a causa palestina. “É inegável que ele deu uma colaboração inestimável para o nosso campo progressista”, afirmou.

Quando a notícia aparece, mas não é explicada

O quadro “A Notícia que Você Não Vê” foi criado para analisar não apenas acontecimentos ignorados pelos grandes veículos, mas também fatos que recebem ampla exposição sem a contextualização necessária.

Uma notícia pode desaparecer por omissão, mas também pode ser ocultada por uma cobertura excessiva e fragmentada. Manchetes, imagens e declarações são apresentadas sem que o público conheça os interesses envolvidos ou as relações entre os acontecimentos.

Sylvia observou que esse problema não é novo. “A gente não tem muitas surpresas no que é a cobertura da imprensa”, disse.

Para a pesquisadora, os padrões editoriais permanecem reconhecíveis. Determinados assuntos são elevados à condição de crise nacional, enquanto outros, mesmo relacionados à soberania do país e à estabilidade democrática, ocupam espaços secundários.

A eleição de 2026 amplia os efeitos dessas escolhas. Ao definir o que será manchete, por quanto tempo uma acusação será repercutida e quais fatos desaparecerão rapidamente, os veículos também interferem no ambiente político.

Ceuta e a força das primeiras imagens

A primeira parte do debate tratou da entrada em massa de migrantes em Ceuta, território espanhol situado no norte da África. Imagens de milhares de pessoas avançando pela fronteira foram apresentadas inicialmente como uma crise migratória espontânea.

Sylvia afirmou que a dimensão do movimento despertava dúvidas desde os primeiros registros.

“Uma avalanche dessas não é normal. Alguma coisa aconteceu para que isso tivesse transbordado”, observou.

Segundo ela, a cobertura inicial privilegiou o impacto das imagens. Televisões, jornais e portais destacaram a entrada das pessoas e os riscos de uma crise humanitária, mas demoraram a abordar as relações entre Espanha, Marrocos e Argélia.

O episódio ocorreu num contexto de tensões diplomáticas envolvendo a posição espanhola sobre o Saara Ocidental e a aproximação com a Argélia. Sylvia avaliou que o governo marroquino teria utilizado a flexibilização do controle da fronteira como instrumento de pressão sobre a Espanha.

“As pessoas são mobilizadas e atraídas para outro território como uma forma de pressionar a Espanha”, explicou.

Em sua análise, migrantes foram tratados como instrumentos de uma disputa entre governos. Muitos chegaram sem bagagem, alimentação ou estrutura para permanecer no território. A maioria foi repatriada posteriormente.

Desinformação estimulou a travessia

A movimentação também foi impulsionada por mensagens divulgadas nas redes sociais. Conteúdos distorciam uma decisão judicial espanhola e sugeriam que qualquer pessoa que alcançasse Ceuta teria o direito de permanecer no território europeu.

A informação correta era mais restrita. A situação de cada migrante precisaria ser analisada e a entrada no território não garantia permanência automática. As mensagens, contudo, apresentavam a decisão como uma abertura da fronteira.

Sylvia relacionou o episódio ao processo descrito por Max Fisher no livro A máquina do caos, que analisa como plataformas digitais ampliam conteúdos capazes de provocar medo, revolta e mobilização.

“Isso circulou de maneira distorcida, quase como se abrisse a porteira para que todo esse pessoal chegasse”, afirmou.

Vídeos compartilhados nas redes ensinavam rotas e indicavam até o tipo de boia que deveria ser utilizado na travessia. Grande parte dos participantes era formada por homens jovens.

Para Sandra Helena, essa mobilização mostrou como mensagens digitais podem retirar um episódio de seu contexto local e transformá-lo em crise política internacional.

O aproveitamento da extrema direita

Grupos da extrema direita europeia tentaram utilizar o episódio para atacar as políticas migratórias do governo de Pedro Sánchez e defender novas restrições à entrada de estrangeiros.

A presença desses grupos em Ceuta, entretanto, provocou reação de moradores. Militantes que chegaram ao território para produzir propaganda contra os migrantes foram rechaçados por parte da população local.

Sylvia destacou que o governo espanhol adota uma posição menos hostil à imigração do que outros integrantes da União Europeia. Essa diferença foi utilizada para apresentar a Espanha como um país sem controle de fronteiras, embora as regras migratórias continuem existindo.

“Isso vem sendo distorcido e aproveitado pela extrema direita”, afirmou.

A cobertura também estimulou reações em países que não estavam diretamente ameaçados pela movimentação em Ceuta. Governos e grupos políticos passaram a defender reforço das fronteiras na França e na Itália e chegaram a sugerir mudanças na participação espanhola no Espaço Schengen.

O que ficou fora da cobertura

Sandra Helena analisou uma reportagem do Fantástico sobre Ceuta e apontou que o material parecia equilibrado, mas direcionava sua atenção para as críticas ao governo espanhol.

A reportagem ouviu reclamações sobre a demora da resposta e possíveis abusos cometidos durante a operação. Não apresentou com a mesma ênfase a rapidez da repatriação nem a maneira como grande parte das pessoas retornou.

Segundo a comentarista, das cerca de 50 mil pessoas que teriam entrado no território, aproximadamente 48 mil já haviam retornado ao fim do dia. O dado, porém, não recebeu o mesmo peso das imagens iniciais.

Esse tipo de escolha demonstra como uma notícia pode ser formalmente correta e ainda assim oferecer uma compreensão limitada. Não é necessário publicar uma informação falsa. Basta excluir os elementos que poderiam modificar a interpretação do episódio.

Três jornais, a mesma manchete

Ao discutir a cobertura brasileira, Sylvia comentou o fato de Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S.Paulo terem publicado manchetes idênticas sobre uma investigação envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do Presidente Lula.

A coincidência chamou atenção não apenas pela escolha do assunto, mas pela repetição exata da frase, sem diferenças de redação.

“A novidade é que era rigorosamente igual. Não é novidade colocar aquilo em manchete, porque isso acontece regularmente”, explicou Sylvia.

Segundo ela, a uniformidade pode decorrer de uma identificação ideológica entre as redações, que adotam critérios semelhantes para definir qual assunto dominará o noticiário.

“Há uma articulação ideológica tão clara nessa tropa de choque que a imprensa constitui para eleger qual assunto vai para a manchete”, afirmou.

Sylvia mencionou a possibilidade de a frase ter sido reproduzida de um comunicado distribuído às redações. Mesmo assim, a adoção do mesmo texto pelos principais jornais revelaria ausência de elaboração editorial e falta de disposição para questionar o enquadramento recebido.

O que ganha destaque e o que desaparece

Enquanto acusações relacionadas ao filho do Presidente Lula foram tratadas como tema nacional, Sylvia observou que outros casos deixaram rapidamente o noticiário.

Entre eles estão as investigações relacionadas ao Banco Master e as informações sobre contatos mantidos por Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro. A imprensa alternativa e alguns comentaristas continuaram cobrando explicações, mas os grandes veículos reduziram o espaço dedicado ao assunto.

“A própria situação de Flávio Bolsonaro e a falta de insistência desapareceram. Você vê essa insistência em algumas figuras, nas mídias alternativas e em alguns analistas”, disse Sylvia.

Para a professora, a diferença não está somente na decisão de publicar ou deixar de publicar. O desequilíbrio aparece na duração da cobertura, na quantidade de manchetes, no tom empregado e na cobrança dirigida aos envolvidos.

Uma acusação pode permanecer durante semanas como elemento permanente de desgaste. Outra pode ser registrada uma única vez e retirada da agenda antes que as perguntas sejam respondidas.

A interferência dos Estados Unidos tratada como crise diplomática

Sylvia apontou como exemplo mais grave o tratamento dado à intervenção dos Estados Unidos no processo político brasileiro. A revogação do visto de uma embaixadora brasileira e os atritos relacionados à indicação de um representante norte-americano para o Brasil foram apresentados como episódios de uma crise diplomática.

Na avaliação da jornalista, esse enquadramento reduz a gravidade do acontecimento. O episódio deveria ser analisado como tentativa explícita de interferência nas eleições brasileiras.

“Isso é um fato inédito e gravíssimo. É uma demonstração absolutamente indiscutível da tentativa de intervenção”, afirmou.

Sylvia explicou que a indicação de um embaixador envolve procedimentos diplomáticos e uma consulta prévia ao país que receberá o representante. Segundo ela, os Estados Unidos anunciaram publicamente um nome antes de obter a concordância brasileira.

A pessoa indicada estaria relacionada às campanhas de questionamento das urnas eletrônicas e do processo eleitoral. Diante da recusa do Brasil, o governo norte-americano respondeu com uma medida dirigida à representante brasileira.

“O Brasil não pode aceitar. Quando não aceita, eles dão essa resposta como se fosse uma retaliação justificável”, analisou.

Manchete principal para um caso, nota lateral para outro

Sylvia comparou a dimensão do episódio diplomático com a primeira página de O Estado de S.Paulo em 5 de agosto. A manchete principal tratava de um repasse associado a um lobista e do possível desgaste eleitoral do governo.

A revogação do visto da embaixadora brasileira aparecia numa posição secundária.

Para a pesquisadora, a hierarquia deveria ter sido invertida. Uma ação externa relacionada ao processo eleitoral brasileiro possui relevância institucional muito superior a uma acusação ainda submetida à apuração.

“A manchete tinha que dizer: ‘Estados Unidos intervêm na eleição brasileira’ ou ‘rompem com o ritual diplomático ao descartar a embaixadora brasileira’”, afirmou.

Sylvia criticou comentaristas que responsabilizaram o Brasil pelo agravamento da crise ou sugeriram que o governo deveria evitar reações firmes.

“Em vez de escancarar o que aconteceu, há comentaristas que acham que o Brasil exagerou e que precisa ir com cuidado”, disse.

“Porque eu posso”

A jornalista relacionou o episódio ao comportamento adotado por Donald Trump em outras disputas internacionais. Ações contra países estrangeiros são praticadas, segundo ela, porque o governo norte-americano avalia que não encontrará resistência suficiente.

Sylvia recordou uma declaração atribuída a Trump ao justificar ameaças contra outros territórios: “Por que faço isso? Porque posso.”

“Sim, ele pode. Se ninguém detém, ele pode. Isso a imprensa não poderia desconhecer, independentemente de seu direcionamento ideológico”, afirmou.

A professora observou que embaixadas norte-americanas já estiveram associadas a intervenções políticas na América Latina. A diferença atual seria o caráter aberto das pressões.

“O que antes ocorria nos bastidores agora está escancarado”, resumiu.

Uma eleição entre democracia e extrema direita

Na avaliação de Sylvia, a eleição de 2026 possui caráter plebiscitário. De um lado está a candidatura do Presidente Lula. Do outro, diferentes nomes disputam quem representará de maneira mais agressiva a extrema direita.

“É Lula contra o resto. Não tem meio-termo. É Lula contra a extrema direita”, afirmou.

A pesquisadora citou a presença de palavras de ordem violentas em atos de lançamento de candidaturas e a tentativa de apresentar posições extremistas como manifestações políticas comuns.

Esse ambiente exige que o jornalismo reconheça a diferença entre candidatos comprometidos com as regras democráticas e grupos dispostos a desrespeitar resultados eleitorais.

“Se a imprensa tivesse um mínimo de respeito ao próprio ofício, saberia que só pode existir num ambiente democrático”, afirmou Sylvia.

Isso não significa que jornalistas devam deixar de investigar o governo ou os candidatos progressistas. Significa que não podem produzir uma falsa equivalência entre adversários submetidos às regras eleitorais e movimentos que pretendem destruí-las.

O erro de normalizar o autoritarismo

Sylvia comparou o comportamento da imprensa brasileira com a experiência dos Estados Unidos. Em sua primeira campanha, Donald Trump foi tratado como candidato convencional, embora já atacasse instituições, adversários e jornalistas.

Análises posteriores reconheceram que a imprensa norte-americana demorou a compreender que não estava diante de uma candidatura comum.

Para Sylvia, o mesmo erro foi cometido no Brasil com Jair Bolsonaro. Mesmo depois dos ataques aos jornalistas, da condução da pandemia e da tentativa de golpe, a cobertura ainda apresenta a escolha eleitoral como disputa entre projetos equivalentes.

“Depois de tudo, a imprensa ainda acha que é uma escolha muito difícil”, criticou.

O problema não está em noticiar uma candidatura da extrema direita. Está em ignorar sua relação com a violência política, a contestação do sistema eleitoral e os ataques às liberdades necessárias ao próprio exercício do jornalismo.

A volta do negacionismo

Outro assunto abordado foi o retorno de discursos negacionistas sobre a pandemia e as vacinas. Mensagens voltaram a sustentar que Jair Bolsonaro teria sido impedido pelo Supremo Tribunal Federal de combater a covid-19 ou que medicamentos sem eficácia comprovada seriam tratamentos adequados.

Sylvia relacionou esse movimento à circulação de conteúdos nas redes sociais e à aliança entre as grandes plataformas digitais e o governo norte-americano.

A retomada dessas versões ocorre num momento em que os efeitos da queda na vacinação começam a aparecer em surtos de doenças anteriormente controladas.

“Você faz recrudescer tudo isso num momento em que começa uma epidemia de sarampo, resultado exatamente do negacionismo”, alertou.

A jornalista destacou que a desinformação sobre a pandemia não é apenas uma disputa sobre o passado. Ela interfere na adesão às vacinas e prepara novas campanhas políticas.

O silêncio em torno de Anatomia do Caos

Sandra Helena citou a baixa repercussão do documentário Anatomia do Caos, dirigido por Dandara Ferreira. Lançado nos cinemas em julho de 2026, o filme acompanha os bastidores da CPI da Covid e recupera o debate sobre a atuação do governo Bolsonaro durante a crise sanitária. Universidade Federal do Espírito Santo

A comentarista esperava que o documentário provocasse um novo debate público sobre as responsabilidades pelas mortes e sobre a campanha contra as vacinas. O filme, entretanto, recebeu pouca atenção.

Enquanto uma obra dedicada à memória da pandemia circulava com alcance limitado, conteúdos negacionistas voltavam às redes.

O contraste revela outro modo de ocultar uma notícia. Um filme existe, chega aos cinemas e apresenta registros relevantes, mas não encontra espaço suficiente para entrar no debate nacional.

Mesmo uma imprensa ética não resolveria tudo

Sylvia reconheceu que uma cobertura mais equilibrada não seria suficiente para resolver o problema da desinformação. Uma parte significativa da população deixou de buscar notícias em jornais, emissoras de televisão e portais jornalísticos.

Muitas pessoas recebem informações quase exclusivamente por aplicativos de mensagens e plataformas digitais. Nesses ambientes, conteúdos sem comprovação circulam sem mediação e são reforçados pelos sistemas de recomendação.

“Mesmo que tivéssemos um padrão decente de cobertura, estaríamos mal por causa dessa avalanche. Como não temos, estamos pior ainda”, afirmou.

A aliança entre as empresas de tecnologia e setores da extrema direita amplia a dificuldade. Plataformas podem favorecer mensagens que provocam indignação, medo e hostilidade, independentemente de sua veracidade.

O risco de contestação do resultado eleitoral

A possibilidade de uma eleição equilibrada aumenta o risco de contestação das urnas. Sylvia advertiu que, se a diferença entre os candidatos for pequena, o governo norte-americano pode se recusar a reconhecer o resultado brasileiro.

“Se Trump estivesse no poder, possivelmente o golpe de 2023 teria dado certo. Agora ele está no poder”, afirmou.

A pesquisadora citou a circulação internacional de declarações que questionam a segurança das urnas eletrônicas brasileiras. Essa campanha não está restrita ao país e pode ser utilizada para preparar o desconhecimento do resultado.

Para Sylvia, uma vitória eleitoral ampla dificultaria a ofensiva, mas não eliminaria o risco de novas tentativas de desestabilização.

Comunicação como parte da defesa democrática

O debate concluiu que a defesa da democracia depende também da capacidade de reconhecer como as notícias são organizadas.

Não basta identificar informações falsas. É preciso observar por que determinados fatos ocupam a manchete, quais assuntos desaparecem e como a linguagem empregada modifica a percepção do público.

Uma interferência estrangeira pode ser reduzida a “crise diplomática”. Um candidato autoritário pode ser tratado como alternativa comum. Uma acusação contra um integrante do campo progressista pode permanecer durante semanas, enquanto denúncias contra a extrema direita desaparecem após uma única publicação.

A notícia que o público não vê, portanto, nem sempre está ausente. Em muitos casos, ela aparece sem o contexto que revelaria sua importância.

Referências

A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo | Max Fisher | 2022
Anatomia do Caos | Direção de Dandara Ferreira | 2026

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