Versão surgida em Israel transformou uma ocorrência ainda sob investigação numa suposta briga entre pilotos ligados à Rússia e à Ucrânia. Horas depois, a história mudou, um dos envolvidos passou a ser identificado como omanense e o governo Netanyahu falou em terrorismo. A sucessão de versões coloca sob suspeita a construção informacional em torno do episódio
Da Redação
Um Boeing 737 da Flydubai seguia de Dubai para Tel Aviv nesta quarta-feira, 30, quando alguma coisa muito grave aconteceu dentro da cabine. O voo FZ1073 perdeu abruptamente mais de 4 mil metros de altitude, transmitiu primeiro o código internacional de emergência 7700 e, posteriormente, o 7500, utilizado para indicar interferência ilícita a bordo. A aeronave abandonou a rota para Israel e pousou em Tabuk, na Arábia Saudita. Passageiros relataram violência, houve feridos e os pilotos precisaram de atendimento médico. Até esse ponto, havia um acontecimento concreto, registrado pelos sistemas de acompanhamento do voo e confirmado pela companhia aérea. O problema começou quando, antes que qualquer investigação pudesse esclarecer o que havia ocorrido na cabine, uma narrativa geopolítica extraordinariamente conveniente começou a circular a partir de Israel.
A primeira versão dizia que os dois pilotos envolvidos eram russo e ucraniano. A informação foi atribuída ao Channel 12 israelense e rapidamente atravessou fronteiras, sendo reproduzida por veículos e perfis de diferentes países. A coincidência parecia perfeita: dois homens supostamente pertencentes aos países envolvidos na maior guerra europeia das últimas décadas teriam entrado em confronto dentro da cabine de um avião que transportava cerca de 180 pessoas para Israel. Não era sequer necessário afirmar explicitamente que a briga teria relação com a guerra. A simples associação das nacionalidades fazia esse trabalho. Em poucas horas, uma ocorrência aeronáutica ainda inexplicada havia sido transformada numa extensão simbólica do conflito entre Moscou e Kiev.
A dificuldade é que essa versão começou a se desfazer antes mesmo do fim do dia. A Flydubai não havia divulgado oficialmente as nacionalidades dos pilotos e nenhuma autoridade russa ou ucraniana havia confirmado a história. O Consulado-Geral da Rússia em Dubai informou, depois de consultar representantes da companhia aérea, que não havia cidadão russo entre os pilotos. Paralelamente, novas informações provenientes de Israel passaram a identificar o suposto agressor como cidadão de Omã. Em outras reconstruções, o comandante apareceu como cidadão dos Emirados Árabes Unidos. A história que havia começado como uma espécie de guerra russo-ucraniana dentro de um Boeing passou, portanto, a ter protagonistas completamente diferentes.
Há ainda uma questão relevante sobre como essa transformação ocorreu. Apurações posteriores indicaram que a informação inicial atribuída ao Channel 12 poderia se referir à origem russa e ucraniana dos pilotos, e não necessariamente às suas cidadanias. Durante a reprodução internacional, “origem” teria sido convertida em “nacionalidade”. A distinção não é pequena. Um cidadão emiradense pode ter ascendência russa, assim como alguém de outra nacionalidade pode ter origem ucraniana. Mas, mesmo admitindo essa possibilidade, permanece sem resposta a pergunta central: por que a origem dos pilotos apareceu tão rapidamente como elemento decisivo da notícia quando sequer se conhecia a motivação do confronto?
Essa pergunta é importante porque uma operação informacional não precisa necessariamente inventar um acontecimento. O incidente no voo FZ1073 foi real. Houve uma emergência real, violência real e risco concreto para passageiros e tripulantes. Uma operação de informação pode ocorrer posteriormente, na seleção dos elementos divulgados, na maneira como eles são combinados e no significado político atribuído ao acontecimento. Não existe, até agora, evidência pública suficiente para afirmar como fato que Israel tenha organizado deliberadamente uma psyop em torno do voo. Mas a velocidade com que uma versão politicamente carregada surgiu no ecossistema midiático israelense, foi amplificada internacionalmente e começou depois a entrar em contradição com novas informações torna legítimo investigar a origem e a trajetória dessa narrativa.
Da guerra da Ucrânia ao terrorismo em poucas horas
O aspecto mais revelador do episódio talvez seja aquilo que aconteceu em seguida. À medida que a história do piloto russo contra o piloto ucraniano perdia consistência, surgiu um segundo enquadramento, igualmente poderoso do ponto de vista político. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que o copiloto havia atacado o comandante e tentado deliberadamente derrubar a aeronave. Segundo a versão israelense, passageiros e integrantes da tripulação conseguiram entrar na cabine, dominar o agressor e permitir que outros pilotos assumissem o controle até o pouso de emergência na Arábia Saudita. O suspeito passou então a ser identificado como omanense.
O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, avançou ainda mais e passou a tratar preliminarmente o episódio como possível ataque terrorista jihadista. Em questão de horas, portanto, a explicação geopolítica havia mudado completamente. A guerra entre Rússia e Ucrânia desapareceu do centro da narrativa e foi substituída por outro enquadramento familiar à política de segurança israelense: um cidadão árabe supostamente tentando derrubar uma aeronave cheia de israelenses a caminho de Tel Aviv.
É perfeitamente possível que a investigação conclua que houve uma tentativa deliberada de destruir o avião e que encontre evidências de motivação terrorista. Mas essa conclusão ainda depende da apuração criminal e aeronáutica. A própria Flydubai confirmou a ocorrência grave dentro da cabine, porém afirmou que as causas e motivações continuavam sob investigação e pediu cautela diante de especulações. Essa diferença é essencial. Uma coisa é saber que um piloto atacou outro ou interferiu no controle da aeronave. Outra é estabelecer por que ele fez isso e transformar essa motivação numa conclusão política.
O episódio ocorreu ainda em um ambiente particularmente sensível para Israel. O país se aproxima de eleições, a segurança nacional ocupa posição central na disputa política e Netanyahu vinha alertando para possíveis ameaças contra Israel. Depois do incidente, integrantes do governo rapidamente o incorporaram ao discurso de segurança. A oposição acusou o primeiro-ministro de instrumentalizar politicamente o episódio. Nada disso demonstra que o incidente tenha sido fabricado ou que o governo israelense tenha criado deliberadamente a primeira versão. Mostra, porém, que havia condições políticas concretas para que um acontecimento ainda mal compreendido adquirisse rapidamente valor eleitoral e geopolítico.
É justamente por isso que a hipótese de uma operação informacional precisa ser tratada com método, e não com especulação. A investigação deve começar pela origem da primeira informação. Quem disse ao Channel 12 que os pilotos eram de origem russa e ucraniana? Essa informação veio da Flydubai, de passageiros, de autoridades aeroportuárias, de serviços de segurança israelenses ou de outra fonte? O canal recebeu informação sobre origem étnica e ela foi posteriormente convertida em cidadania por outros veículos? Houve simplesmente um erro jornalístico ou alguém introduziu deliberadamente esse elemento no circuito informacional? Sem responder a essas perguntas não é possível demonstrar uma psyop, mas ignorá-las seria igualmente irresponsável.
A importância dessa reconstrução está no funcionamento contemporâneo da guerra informacional. Uma informação não precisa permanecer verdadeira durante muito tempo para produzir efeitos. Basta entrar no sistema por uma fonte considerada legítima, ser reproduzida por outros veículos e alcançar as redes sociais. A partir daí, a origem se perde. Um jornal cita uma televisão, outro veículo cita o jornal, perfis reproduzem a manchete sem ressalvas e, algumas horas depois, aquilo que começou como informação preliminar passa a circular como fato estabelecido. Quando chega a correção, ela raramente possui a mesma força da história original.
Foi exatamente esse mecanismo que transformou o episódio da Flydubai numa história sobre Rússia e Ucrânia antes que estivesse demonstrado que Rússia e Ucrânia tinham qualquer coisa a ver com o que aconteceu dentro daquele avião. A construção era poderosa porque dispensava explicações. Bastava dizer “piloto russo” e “piloto ucraniano” para que anos de guerra, propaganda e antagonismo fossem automaticamente transportados para dentro da cabine.
Depois, com a identificação do suspeito como omanense, o mesmo mecanismo passou a funcionar em outra direção. A nacionalidade árabe e a condição de um voo destinado a Tel Aviv permitiram a construção imediata de outro significado. Desta vez, a palavra central deixou de ser Ucrânia e passou a ser terrorismo. Novamente, a interpretação política avançou mais rapidamente do que a investigação.
A pergunta que ainda precisa ser respondida
O caso do FZ1073 merece ser acompanhado justamente porque permite observar em tempo real a distância entre um acontecimento e as narrativas construídas para explicá-lo. O acontecimento material parece indiscutível: houve violência dentro da cabine, uma queda abrupta de altitude, acionamento de códigos de emergência e pouso não programado na Arábia Saudita. A partir daí começa outro território, no qual informações preliminares, interesses políticos, fontes anônimas, imprensa, governos e redes sociais disputam o significado daquilo que ocorreu.
É nesse segundo território que uma eventual psyop israelense precisa ser investigada. Não há base, neste momento, para afirmar que Israel fabricou o incidente ou coordenou comprovadamente uma operação psicológica. Também não há razão para aceitar passivamente uma sequência de versões que mudou de natureza em poucas horas sem perguntar de onde cada uma delas surgiu. O trabalho jornalístico consiste precisamente em manter abertas essas duas possibilidades enquanto se procura evidência.
A primeira versão possuía uma utilidade narrativa evidente. Ela transformava um episódio caótico numa história imediatamente compreensível para o público internacional: russos e ucranianos estão em guerra e levaram essa guerra para dentro de um avião. A segunda também possui uma utilidade evidente: Israel continua cercado por ameaças e até um voo comercial pode transformar-se em alvo de terrorismo. O fato de uma narrativa ser politicamente útil não prova que seja falsa. Mas aumenta a necessidade de saber quem a produziu, com quais informações e em que momento.
Por isso, o ponto decisivo da investigação não está em escolher antecipadamente entre “briga russo-ucraniana” e “ataque jihadista”. Está em reconstruir a cadeia informacional desde o primeiro minuto. É preciso identificar quem forneceu ao Channel 12 a origem atribuída aos pilotos, localizar a primeira formulação publicada, verificar como “origem” se transformou em “nacionalidade”, estabelecer quando as autoridades israelenses receberam as informações sobre o suposto cidadão omanense e comparar essa cronologia com as declarações políticas feitas posteriormente por Netanyahu e Katz.
Se houve apenas um erro produzido pela velocidade do noticiário, essa reconstrução deverá mostrar isso. Se houve instrumentalização posterior de uma informação inicialmente equivocada, também será possível demonstrá-la. E, caso existam evidências de que uma versão específica foi deliberadamente introduzida para orientar a percepção pública, então haverá base concreta para falar em operação psicológica.
Por enquanto, uma coisa já está clara: a guerra pela interpretação do voo FZ1073 começou antes que se soubesse o que realmente havia acontecido dentro da cabine. Primeiro o mundo recebeu uma história sobre Rússia e Ucrânia. Depois recebeu outra sobre Omã, Israel e terrorismo. Entre as duas versões permaneceu o fato bruto, muito menos conveniente e muito mais importante: um avião quase caiu, houve violência dentro da cabine e a própria companhia responsável ainda dizia que a motivação estava sendo investigada.
É nessa distância entre o fato e sua transformação em narrativa que a investigação deve avançar. Se existe uma operação informacional por trás do episódio, ela não será demonstrada repetindo suspeitas, mas seguindo o caminho da primeira informação até sua origem.
Quem colocou Rússia e Ucrânia dentro daquele avião antes que os investigadores chegassem à cabine?
Essa é a pergunta que ainda falta responder.
