Investigação do Estadão mostra que o banqueiro recebia roteiros antecipadamente, solicitava mudanças e discutia quando os conteúdos deveriam ser publicados. Diretora de marketing afirmou que havia contrato de 12 meses com a apresentadora, que contesta qualquer vínculo comercial com a instituição
Da Redação
Chamada: Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, reveladas nesta sexta-feira (16), apontam que a direção do Banco Master participava da elaboração de vídeos publicados por Gabriela Prioli em defesa da instituição financeira. Os registros mencionam um contrato de 12 meses, orientações para contestar reportagens jornalísticas e uma rede de aproximadamente 15 influenciadores de diferentes posições políticas. Prioli nega ter recebido pagamentos, assinado contrato ou mantido contato com representantes do banco. A investigação levanta questões sobre publicidade não identificada, credibilidade nas redes sociais e o uso de influenciadores para interferir no debate público sobre operações financeiras.
A divulgação de mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro acrescentou nesta sexta-feira, 16 de outubro, novos elementos à investigação sobre a estratégia de comunicação utilizada pelo Banco Master durante as negociações para vender parte da instituição ao Banco de Brasília (BRB). Conversas entre o banqueiro e Ana Matos, então superintendente de Comunicação e Marketing do Master, mostram que a equipe acompanhava a produção de vídeos publicados pela advogada e influenciadora Gabriela Prioli, encaminhava materiais para avaliação de Vorcaro e discutia alterações antes de sua divulgação nas redes sociais. Em uma das mensagens, a executiva afirmou que havia um contrato assinado por 12 meses com a apresentadora, informação que ela nega publicamente.
A investigação foi publicada pelo Estadão, em reportagem de Aguirre Talento, Luiz Vassallo, Gustavo Côrtes e Vinícius Valfré. Os jornalistas examinaram diálogos que descrevem uma operação de comunicação envolvendo influenciadores digitais de diferentes orientações políticas, mobilizados para defender o Banco Master e contestar notícias sobre suas atividades.
Os registros mostram que o banqueiro acompanhava pessoalmente o conteúdo das publicações relacionadas à instituição. Em determinadas ocasiões, sugeria argumentos, recomendava mudanças e avaliava o momento mais conveniente para divulgar os materiais.
Gabriela Prioli, que possui uma audiência de milhões de seguidores, publicou vídeos nos quais questionava críticas dirigidas ao Master e apresentava argumentos favoráveis à segurança de investimentos em certificados de depósito bancário, os CDBs.
Nas gravações, o conteúdo era apresentado como manifestação pessoal sobre questões econômicas que despertavam seu interesse. Não havia, segundo o material examinado pelo Estadão, indicação pública de que os vídeos integrassem uma estratégia contratada pelo banco.
Essa diferença entre opinião espontânea e comunicação comercial constitui o principal ponto da controvérsia.
A influenciadora nega ter celebrado contrato ou recebido pagamentos do Master e afirma que não manteve contato com representantes da instituição. As mensagens atribuídas aos executivos do banco apresentam uma versão diferente dos acontecimentos, mas a reportagem não divulgou a íntegra do contrato mencionado nem comprovantes individuais de pagamento a Prioli.
A existência de um vínculo comercial efetivo, suas condições e a eventual responsabilidade dos envolvidos dependem, portanto, do confronto entre os registros, os documentos contratuais e as manifestações das partes.
Contrato de 12 meses aparece em conversa com diretora de marketing
A sequência de mensagens começou a ganhar forma no início de abril de 2025, poucos dias depois do anúncio da negociação que previa a aquisição de parte do Banco Master pelo BRB.
Naquele momento, a operação despertava questionamentos no mercado financeiro e na imprensa, sobretudo pela situação da instituição controlada por Vorcaro e pelas consequências de uma possível transferência de ativos e passivos para um banco público.
Em 4 de abril, o banqueiro elogiou a participação de Gabriela Prioli na estratégia de comunicação.
No dia seguinte, encaminhou à sua funcionária uma publicação da influenciadora sobre experiências pessoais de exclusão em ambientes da elite paulistana. Vorcaro considerou que o relato poderia ser relacionado à narrativa que pretendia construir sobre sua própria trajetória empresarial.
O empresário frequentemente sustentava que o Banco Master enfrentava resistência de grandes instituições financeiras por representar concorrência aos grupos tradicionais do setor.
A proposta era explorar essa interpretação em conteúdos destinados ao público das redes sociais.
Na mesma data, Ana Matos relatou a Vorcaro que havia conversado com Gabriela Prioli e que ambas estavam concluindo o roteiro de uma publicação.
A executiva informou que o contrato estava assinado por 12 meses e acrescentou que o banco trabalhava na contratação de aproximadamente 15 influenciadores digitais com alto engajamento, por um período inicial de três meses, sujeito a renovação.
Segundo a mensagem, os perfis seriam selecionados entre pessoas identificadas tanto com a esquerda quanto com a direita.
A composição política mencionada revela a intenção de alcançar audiências diferentes, sem restringir a estratégia de comunicação a um único campo ideológico.
Isso não demonstra que todos os influenciadores contatados tenham efetivamente celebrado contratos ou publicado conteúdos. Também não permite identificar os participantes da rede, além dos nomes mencionados nos materiais divulgados.
A existência de uma articulação envolvendo produtores de conteúdo de diferentes orientações políticas é, entretanto, relevante para compreender a estratégia atribuída ao Master.
O objetivo descrito nas conversas era construir uma defesa pública da instituição e contestar reportagens que questionavam suas operações.
Em determinado momento, Vorcaro recomendou retirar uma referência ao PT de um dos roteiros, argumentando que não desejava transformar o assunto em uma disputa partidária.
A orientação sugere uma preocupação com a apresentação das mensagens como argumentos econômicos capazes de circular entre públicos politicamente distintos.
Vídeo sobre concorrência bancária seguiu linha defendida por Vorcaro
O primeiro vídeo identificado pela investigação foi publicado no início de abril de 2025.
Na gravação, Prioli questionava por que determinadas instituições financeiras ofereciam rendimentos superiores aos dos grandes bancos e por que o Master enfrentava tantas críticas.
A influenciadora utilizou a comparação com a negociação de um imóvel, sugerindo que alguém interessado em comprar determinado bem poderia tentar desvalorizá-lo publicamente antes da aquisição.
O argumento se aproximava da narrativa defendida por Vorcaro, segundo a qual concorrentes de maior porte teriam interesse em apresentar o Master de maneira negativa.
A hipótese de pressões de instituições financeiras concorrentes não deve ser confundida com uma conclusão comprovada sobre as razões dos questionamentos ao banco.
Naquele período, a situação do Master já era objeto de notícias sobre suas operações e sobre a negociação com o BRB. A existência de concorrência no mercado financeiro não eliminava a necessidade de examinar os riscos dos produtos oferecidos pela instituição, a qualidade de seus ativos e sua capacidade de cumprir obrigações.
Prioli apresentava o vídeo como parte de uma iniciativa pessoal para discutir dinheiro e investimentos, afirmando que não abordava o tema na condição de especialista em mercado financeiro.
Essa apresentação tornou-se relevante diante das mensagens posteriormente divulgadas, que descrevem a participação da estrutura de marketing do banco na elaboração de conteúdos semelhantes.
Em 6 de abril, Vorcaro voltou a elogiar a escolha da influenciadora. Considerou sua contratação particularmente importante para a estratégia de comunicação da instituição.
Os diálogos publicados mencionam pelo menos quatro conteúdos associados às orientações da equipe de marketing.
As publicações não estavam mais disponíveis nas páginas de Prioli quando a reportagem foi divulgada. Parte dos vídeos continuava circulando por meio de reproduções feitas por outros usuários.
A retirada de publicações, isoladamente, não comprova irregularidade. Entretanto, dificulta a reconstituição integral de sua apresentação original e a verificação de eventuais avisos sobre relações comerciais.
Banco pretendia conter desconfiança sobre CDBs
Um dos pontos mais sensíveis da investigação envolve os investimentos em certificados de depósito bancário.
Em 18 de abril de 2025, Vorcaro sugeriu que Prioli produzisse conteúdo sobre os CDBs oferecidos pelo Banco Master, com o objetivo de convencer investidores a manter seus recursos na instituição.
A orientação ocorreu em um momento no qual a capacidade financeira do banco era objeto de questionamentos.
Em uma das gravações que voltaram a circular, Prioli destacou a existência da garantia oferecida pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) aos investimentos elegíveis.
A afirmação exige contextualização.
O FGC constitui um mecanismo de proteção a determinados depósitos e investimentos mantidos em instituições financeiras associadas. A cobertura, contudo, está sujeita a limites, condições e procedimentos específicos.
A existência dessa garantia não significa que uma instituição financeira não possa enfrentar problemas de liquidez, dificuldades de solvência ou intervenção regulatória.
Também não elimina os riscos e os transtornos associados à indisponibilidade temporária de recursos em situações de crise.
Para investidores, especialmente os que não possuem experiência no mercado financeiro, a distinção entre garantia de determinado produto e solidez da instituição emissora é importante.
Quando a comunicação sobre investimentos envolve agentes remunerados pelo emissor, a transparência sobre a relação comercial permite ao público avaliar possíveis conflitos de interesse.
No caso do Master, a investigação questiona justamente se conteúdos apresentados como avaliações pessoais faziam parte de uma operação de comunicação financiada pelo banco.
Essa dúvida possui relevância econômica concreta porque os vídeos tratavam de produtos financeiros oferecidos a investidores, e não apenas da reputação abstrata de uma empresa.
Orientação era atacar jornalistas, não bancos concorrentes
As mensagens revelam outra característica da estratégia conduzida por Vorcaro: a tentativa de direcionar críticas à cobertura jornalística.
Em 28 de maio de 2025, Ana Matos informou que estava elaborando um novo roteiro para Gabriela Prioli e solicitou a avaliação do banqueiro.
Vorcaro recomendou que as críticas fossem dirigidas aos jornalistas, e não ao BTG Pactual.
A orientação representa uma mudança de foco importante.
Em vez de concentrar o debate em possíveis divergências entre instituições financeiras, o banqueiro procurava questionar os profissionais responsáveis por divulgar informações desfavoráveis ao Master.
Críticas à imprensa são legítimas quando se referem a erros, omissões ou problemas de apuração demonstráveis. Uma empresa também possui direito de resposta e pode contestar publicamente informações que considere incorretas.
A situação é diferente quando uma instituição financia manifestações de terceiros sem tornar transparente a relação comercial, especialmente se o objetivo for influenciar a percepção dos leitores sobre reportagens de interesse público.
Nesse caso, a audiência pode interpretar como opinião independente um conteúdo elaborado ou orientado por uma das partes diretamente interessadas no assunto.
A investigação do Estadão apresenta mensagens que apontam nessa direção, mas a identificação das responsabilidades específicas exige examinar o conhecimento e a participação de cada pessoa envolvida.
As mensagens entre Vorcaro e Ana Matos documentam as conversas mantidas pela direção do banco. Elas não reproduzem, por si só, todas as comunicações que teriam ocorrido entre a executiva e Prioli.
Essa distinção é necessária para delimitar o que os registros demonstram diretamente e o que é relatado por terceiros.
Banqueiro discutiu alterações e momento de publicar vídeo
Em julho de 2025, a participação de Vorcaro na estratégia de divulgação voltou a aparecer nas conversas.
No dia 28, Ana Matos informou que havia organizado contatos com veículos de comunicação e que um vídeo de Prioli estava disponível para publicação.
O banqueiro pediu acesso ao material.
Depois de assistir à gravação, solicitou alterações.
Dois dias mais tarde, a executiva voltou a procurar Vorcaro e afirmou que a influenciadora havia incorporado as mudanças solicitadas.
Ana Matos acrescentou que não possuía espaço para pedir novas modificações e perguntou se o conteúdo poderia ser divulgado.
Naquela ocasião, a executiva mencionou que Prioli possuía mais de seis milhões de seguidores e afirmou que a divulgação seria útil à instituição.
Vorcaro recomendou o adiamento.
A justificativa apresentada foi que a atenção pública estava concentrada nas notícias sobre a aplicação da Lei Magnitsky pelo governo dos Estados Unidos contra o ministro Alexandre de Moraes.
O episódio revela que a direção do banco não discutia apenas o conteúdo dos vídeos, mas também sua oportunidade de publicação.
A decisão sobre o calendário era tratada como parte de uma estratégia de comunicação destinada a aproveitar momentos de maior visibilidade.
No dia seguinte, a executiva enviou a Vorcaro registros de conteúdos temporários publicados pela influenciadora.
Esses materiais já não estavam disponíveis nas redes quando a investigação foi divulgada.
A sequência é importante porque apresenta, em datas diferentes, referências à elaboração de roteiros, à avaliação de conteúdos pelo banqueiro, a pedidos de modificação e ao acompanhamento das publicações.
Ao mesmo tempo, os registros conhecidos não substituem a análise do contrato mencionado nem esclarecem integralmente a relação jurídica entre as partes.
Prioli nega ter recebido dinheiro ou mantido contato com o Master
Gabriela Prioli apresentou uma versão diferente dos acontecimentos.
Em janeiro de 2026, depois de seu nome ser associado publicamente às operações de comunicação do Banco Master, a advogada publicou um vídeo negando que tivesse sido contratada para defender a instituição.
Na ocasião, afirmou que suas manifestações sobre o banco haviam sido espontâneas.
A influenciadora reiterou a negativa em outubro, após a divulgação de novas mensagens atribuídas à equipe de Vorcaro.
Prioli declarou que nunca conversou com o banqueiro ou com funcionários da instituição, não assinou contrato e não recebeu pagamentos para produzir conteúdos relacionados ao Master.
Também questionou a ausência de documentos que comprovassem o vínculo comercial alegado, incluindo contrato, transferências financeiras e registros de reuniões.
A negativa precisa ser considerada na avaliação das informações.
O relato de Ana Matos sobre a existência de um contrato de 12 meses representa uma evidência documental de que a executiva comunicou essa informação ao proprietário do banco. Não equivale, entretanto, à apresentação pública do próprio instrumento contratual.
Da mesma maneira, os diálogos sobre roteiros e alterações indicam uma atuação coordenada da equipe de marketing, mas não esclarecem integralmente quais instruções foram transmitidas diretamente à influenciadora e sob quais condições.
A existência de uma agência intermediária também foi mencionada em reportagens anteriores sobre o episódio.
Esse elemento torna necessário examinar a estrutura de contratação, eventuais pagamentos realizados a empresas terceirizadas e a documentação disponível sobre serviços prestados.
Até a divulgação da reportagem do Estadão, não haviam sido apresentados publicamente todos esses documentos.
A redação do jornal procurou Prioli e Ana Matos para comentar as novas mensagens. Segundo a publicação, nenhuma das duas havia respondido até o fechamento da matéria.
A ausência de manifestação específica sobre os novos registros não pode ser interpretada como reconhecimento das alegações, especialmente porque a influenciadora já havia negado publicamente a existência de vínculo comercial.
Estratégia digital se conecta a outras revelações sobre o Banco Master
A documentação sobre Prioli surge em meio a uma sequência de reportagens que examinam as relações de Daniel Vorcaro com veículos de comunicação, influenciadores e representantes de instituições públicas e privadas.
Na quinta-feira (15), investigação do UOL mostrou que o banqueiro recebeu antecipadamente reportagens do Metrópoles e apresentou sugestões que foram incorporadas a parte dos textos publicados.
Os registros envolveram, entre outros assuntos, a cobertura da tentativa de aquisição do Master pelo BRB e reportagens relacionadas a integrantes da direção do Banco Central.
O caso revelou uma relação comercial de grande valor entre o banco e o portal, além de conversas nas quais Vorcaro discutia conteúdo e calendário de divulgação.
A direção do Metrópoles negou que contratos publicitários tivessem determinado decisões editoriais.
Embora as circunstâncias sejam diferentes, os episódios possuem um elemento comum: a utilização de canais de comunicação com ampla audiência para apresentar interpretações favoráveis aos interesses do Banco Master.
No caso de um veículo jornalístico, a questão envolve a separação entre publicidade e redação.
No caso de influenciadores digitais, o problema central é a identificação de conteúdos patrocinados e a transparência sobre eventuais interesses comerciais presentes nas manifestações.
Ambas as situações exigem distinguir a liberdade de expressão das fontes e dos comunicadores da obrigação de não induzir o público a erro quanto à natureza das mensagens divulgadas.
No Brasil, o Código de Defesa do Consumidor estabelece princípios de identificação da publicidade. O artigo 36 determina que a comunicação publicitária seja apresentada de maneira que possa ser reconhecida pelo consumidor.
As regras de transparência também são abordadas por orientações do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), inclusive em relação ao marketing de influência.
A aplicação dessas normas a um caso específico exige comprovar que existia uma relação comercial ou outra contrapartida relevante vinculada à produção dos conteúdos.
Portanto, não basta que determinada publicação seja favorável a uma empresa para caracterizá-la como publicidade irregular.
É necessário demonstrar que sua produção ou divulgação ocorreu em condições que exigiam identificação publicitária e verificar se essas obrigações foram cumpridas.
As mensagens publicadas pelo Estadão oferecem elementos relevantes para essa apuração, mas a definição de eventual responsabilidade jurídica depende de informações adicionais.
Credibilidade dos influenciadores passou a integrar estratégias empresariais
O caso também evidencia uma transformação na maneira como empresas procuram influenciar a percepção pública sobre seus negócios.
Durante décadas, a divulgação de produtos e a administração da reputação corporativa estiveram concentradas em campanhas publicitárias, assessorias de imprensa e relações institucionais.
As redes sociais ampliaram essas possibilidades ao permitir que pessoas com grande audiência atuem como intermediárias entre empresas e consumidores.
A força desse modelo está na relação de confiança construída entre o influenciador e seus seguidores.
Uma mensagem transmitida por uma pessoa acompanhada diariamente pode ser recebida de maneira diferente de um anúncio produzido diretamente por uma instituição financeira.
Essa característica não constitui, por si só, um problema. A publicidade realizada por influenciadores faz parte do mercado de comunicação e pode ser legítima quando respeita as regras aplicáveis.
A dificuldade surge quando o público não possui informações suficientes para distinguir uma avaliação pessoal de um conteúdo produzido mediante orientação ou contratação comercial.
No setor financeiro, essa diferença exige atenção porque informações sobre riscos, garantias e rentabilidade podem influenciar decisões envolvendo economias familiares e investimentos.
Uma pessoa que acompanha determinado comunicador pode considerar sua manifestação relevante para avaliar um produto bancário, mesmo que o conteúdo não contenha uma recomendação formal de investimento.
Por isso, a identificação de interesses comerciais é importante para que o público compreenda as condições de produção das informações.
As revelações sobre o Master também mostram que as estratégias de comunicação podem ser organizadas para atravessar divisões partidárias e alcançar audiências com diferentes identificações políticas.
A mensagem de Ana Matos sobre a contratação de influenciadores de esquerda e direita sugere uma tentativa de ampliar a circulação da narrativa da instituição para além de grupos específicos.
Essa estratégia pode ser analisada sob a perspectiva do marketing empresarial, mas também exige transparência quando envolve temas de interesse público e instituições submetidas a questionamentos financeiros.
Investigação ainda precisa esclarecer contrato e pagamentos
A reportagem do Estadão apresenta uma sequência de documentos atribuídos aos diálogos entre Vorcaro e a antiga responsável pelo marketing do Master.
Os registros são relevantes porque foram produzidos no período em que os vídeos estavam sendo elaborados e publicados, e não apenas depois da crise da instituição.
Eles mostram que o banqueiro participava das discussões e acompanhava os conteúdos relacionados à atuação pública de Gabriela Prioli.
Também registram a afirmação expressa de Ana Matos sobre a assinatura de um contrato de 12 meses.
Entretanto, permanecem pontos que exigem esclarecimento.
A íntegra do contrato não foi apresentada na reportagem. Também não foram divulgados comprovantes individualizados de pagamento que permitam determinar os valores e os destinatários das transferências relacionadas aos vídeos.
Não foi possível estabelecer, apenas com as mensagens divulgadas, todas as condições de eventual contratação por intermédio de agência, o grau de conhecimento da influenciadora sobre as orientações atribuídas ao banqueiro e o conteúdo integral das comunicações mantidas durante a produção dos materiais.
A posição pública de Prioli permanece de negativa categórica.
Esses elementos deverão ser considerados em qualquer avaliação jurídica ou institucional do episódio.
A publicação de conteúdos favoráveis ao Banco Master não constitui prova de participação nas irregularidades financeiras investigadas na instituição.
Também não há, nos documentos divulgados, demonstração de que a influenciadora tenha participado da elaboração das operações bancárias examinadas pelas autoridades.
O objeto da investigação jornalística é a possível relação comercial oculta e a interferência da equipe do banco no processo de produção e divulgação de mensagens apresentadas ao público como opiniões independentes.
Essa distinção delimita a natureza das revelações e impede atribuir responsabilidades que não estejam sustentadas pelos fatos conhecidos.
A investigação amplia, entretanto, o conhecimento público sobre a estrutura de comunicação montada por Daniel Vorcaro durante um período decisivo para o futuro do Banco Master.
A tentativa de aquisição pelo BRB dependia de autorizações institucionais e provocava questionamentos sobre a situação financeira do banco. Nesse ambiente, sua direção procurava divulgar interpretações favoráveis à operação, contestar reportagens e influenciar a percepção de investidores e usuários das redes sociais.
As mensagens reveladas nesta sexta-feira apresentam uma relação entre o banqueiro e sua equipe de marketing que incluía planejamento, revisão de roteiros e decisões sobre publicações atribuídas a uma influenciadora de grande audiência.
A versão de Gabriela Prioli, que nega contrato e pagamentos, permanece em conflito com a informação registrada nas mensagens da executiva.
A resolução dessa divergência dependerá da apresentação e análise de documentos contratuais, financeiros e de comunicação ainda não integralmente disponíveis ao público.
O episódio também coloca em discussão uma questão que ultrapassa o caso Banco Master: a capacidade dos cidadãos de reconhecer quando uma informação apresentada como opinião individual resulta, na realidade, de uma relação comercial ou de uma estratégia de comunicação organizada por uma empresa interessada no assunto.
