Zambelli pede dinheiro na Itália

Condenada pelo Supremo Tribunal Federal e vivendo na Itália após deixar o Brasil, ex-deputada anuncia uma comunidade de assinantes por R$ 50 mensais para custear suas despesas. Carla Zambelli responsabiliza Alexandre de Moraes pelas dificuldades financeiras que afirma enfrentar, mas sua situação decorre de processos criminais, decisões judiciais e uma disputa internacional sobre extradição. O caso terá novo capítulo na Justiça italiana em 24 de novembro.

Da Redação

A ex-deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) recorreu aos próprios seguidores para pedir ajuda financeira e custear sua permanência na Itália. Em vídeo divulgado nesta terça-feira, 3 de novembro, ela anunciou a criação de uma comunidade virtual com assinatura mensal de R$ 50, afirmando que enfrenta dificuldades para abrir uma conta bancária, conseguir trabalho e receber pagamentos no país europeu. Durante a gravação, responsabilizou diretamente o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), pelas restrições que afirma enfrentar. A iniciativa ocorre enquanto Zambelli permanece em liberdade na Itália, depois de ter sido condenada criminalmente no Brasil e de se tornar personagem de uma disputa judicial internacional sobre sua extradição.

O pedido de contribuições representa um novo momento na trajetória da ex-parlamentar, que alcançou projeção nacional como uma das integrantes mais conhecidas do bolsonarismo e construiu parte de sua atuação pública em confrontos políticos com o Supremo Tribunal Federal. Agora, afastada do mandato parlamentar e submetida às consequências jurídicas de condenações criminais, Zambelli afirma depender da solidariedade financeira de seus apoiadores para manter suas despesas pessoais no exterior. O apelo foi divulgado em uma plataforma digital, instrumento que ela utilizou intensamente durante sua carreira política para mobilizar seguidores e divulgar suas posições.

A campanha foi apresentada como uma comunidade de conteúdo pago, e não apenas como uma solicitação de doações sem contrapartida. Segundo a ex-deputada, os participantes terão acesso a publicações exclusivas, transmissões ao vivo, relatos pessoais e discussões sobre diferentes áreas de conhecimento. Ela também prometeu compartilhar experiências relacionadas ao período em que esteve presa em Roma. A assinatura mensal será destinada, conforme seu próprio relato, ao custeio da vida na Itália até que consiga reorganizar sua situação financeira e profissional.

Na gravação, Zambelli afirmou que não consegue abrir uma conta em instituições financeiras italianas. Segundo ela, o problema estaria relacionado à inclusão de seu nome nos registros da Interpol e às medidas de bloqueio determinadas pelo Supremo. A ex-parlamentar sustenta que as informações associadas à condenação pela invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) geraram interpretações equivocadas por parte dos bancos, que estariam tratando seu histórico judicial como impedimento para a abertura de contas.

A alegação, entretanto, não veio acompanhada de documentos bancários que permitam confirmar os motivos específicos das recusas. Instituições financeiras estão sujeitas a exigências de identificação de clientes, prevenção à lavagem de dinheiro e avaliação de riscos, mas os critérios aplicados dependem das normas locais e das circunstâncias de cada pedido. A inclusão de uma pessoa em mecanismos de cooperação policial internacional não implica, por si só, uma proibição universal e automática de acesso a todos os serviços bancários. Para estabelecer a relação entre as decisões brasileiras e as dificuldades relatadas, seria necessário conhecer os fundamentos apresentados pelas instituições italianas.

A ex-deputada atribuiu ainda suas dificuldades profissionais à impossibilidade de receber salários sem uma conta bancária em seu nome. O relato apresenta uma situação de vulnerabilidade financeira segundo sua própria avaliação, mas não permite determinar, de maneira independente, sua renda atual, seu patrimônio disponível ou a existência de outras fontes de sustento. A campanha de arrecadação demonstra que ela decidiu solicitar contribuições aos seguidores; não comprova, isoladamente, a extensão das dificuldades econômicas alegadas.

A situação judicial que antecedeu o pedido começou a adquirir dimensão internacional em 2025. Naquele ano, o Supremo Tribunal Federal condenou Zambelli a dez anos e oito meses de prisão por sua participação na invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça e pela inserção de documentos falsos. O caso envolveu o hacker Walter Delgatti Neto e a emissão fraudulenta de documentos judiciais, incluindo um falso mandado de prisão contra Alexandre de Moraes.

A investigação examinou a participação da então parlamentar na articulação do acesso indevido aos sistemas e na produção dos registros falsificados. O episódio ultrapassou a esfera de uma manifestação política ou de uma disputa verbal com integrantes do Judiciário. A utilização indevida de sistemas oficiais e a falsificação de documentos judiciais constituem condutas tipificadas na legislação penal, com consequências para a integridade das instituições e a confiança pública nos registros utilizados pela administração da Justiça.

Depois da condenação, Zambelli deixou o território brasileiro e se deslocou para a Itália, país com o qual mantém vínculos de cidadania. Sua saída foi seguida por medidas judiciais relacionadas à execução da pena e à localização internacional. Em junho de 2025, foram determinados bloqueios de bens e ativos financeiros e outras restrições vinculadas ao processo, enquanto as autoridades brasileiras passaram a buscar sua extradição.

A ex-deputada foi presa em Roma em julho de 2025, no contexto da cooperação internacional solicitada pelo Brasil. Permaneceu detida até maio de 2026, quando a Justiça italiana decidiu contrariamente à extradição relacionada ao processo do CNJ e autorizou sua libertação. A decisão italiana foi fundamentada em questionamentos sobre a imparcialidade judicial no procedimento brasileiro, especialmente diante da participação de Moraes em um caso no qual havia sido mencionado entre os alvos dos atos investigados.

É importante distinguir os efeitos dessa decisão. A Justiça italiana analisou condições jurídicas para a entrega de Zambelli às autoridades brasileiras. Sua conclusão não corresponde automaticamente à anulação das decisões do STF nem ao desaparecimento das condenações no Brasil. Processos de extradição envolvem regras próprias, compromissos internacionais e avaliações realizadas pelos tribunais do país solicitado, podendo produzir resultados diferentes daqueles alcançados no julgamento criminal de origem.

Zambelli também possui uma segunda condenação, de cinco anos e três meses de prisão, por porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal. O processo está relacionado a um episódio ocorrido na véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2022, quando a então deputada sacou uma arma e perseguiu um homem pelas ruas de São Paulo. A ocorrência foi registrada em imagens que tiveram ampla repercussão nacional e posteriormente integraram a discussão judicial sobre sua conduta.

Essa segunda condenação permanece no centro de um novo procedimento de extradição examinado pelas autoridades italianas. Em 27 de outubro de 2026, a Corte de Apelação de Roma adiou para 24 de novembro a análise do pedido apresentado pelo Brasil. A decisão atendeu a uma solicitação da defesa, que pediu prazo adicional para examinar informações sobre as condições da Penitenciária Feminina do Distrito Federal, conhecida como Colmeia, estabelecimento indicado para eventual cumprimento da pena em território brasileiro.

As condições de encarceramento constituem uma questão relevante em pedidos internacionais de extradição. Tribunais estrangeiros podem examinar garantias relacionadas à integridade física, ao tratamento adequado e ao respeito aos direitos fundamentais das pessoas cuja entrega é solicitada. Essa avaliação não equivale necessariamente a um julgamento sobre a existência dos crimes, mas integra a verificação das obrigações jurídicas aplicáveis ao procedimento.

Enquanto aguarda a nova audiência, Zambelli permanece em liberdade na Itália. A ex-deputada procura reorganizar sua situação pessoal em um ambiente no qual sua permanência depende não apenas de circunstâncias familiares ou profissionais, mas também do desenvolvimento dos procedimentos judiciais. A campanha de assinaturas surge nesse período de incerteza, quando as possibilidades de trabalho, acesso a serviços financeiros e continuidade de sua residência no país se tornaram temas de suas manifestações públicas.

O episódio também chama atenção para uma característica da organização política contemporânea: a capacidade de converter identificação partidária e presença digital em financiamento direto. Plataformas de assinatura, comunidades fechadas e sistemas de pagamento recorrente permitem que figuras públicas mantenham atividades econômicas vinculadas a sua audiência, mesmo depois de deixarem cargos institucionais. A arrecadação pode financiar produção de conteúdo, atividades pessoais ou iniciativas políticas, dependendo das regras adotadas e da destinação efetiva dos recursos.

No caso de Zambelli, a associação entre discurso político e solicitação financeira é explícita. A ex-deputada apresenta sua situação como consequência das decisões de um ministro do Supremo e pede ajuda a pessoas que acompanharam sua trajetória pública. Ao mesmo tempo, oferece acesso a conteúdos exclusivos e relatos da experiência carcerária. A iniciativa combina prestação de serviços digitais, mobilização de uma comunidade política e tentativa de financiamento pessoal.

A estratégia também reabre uma questão sobre responsabilidade individual. Decisões judiciais produzem efeitos sobre a vida de pessoas condenadas, inclusive restrições patrimoniais e limitações decorrentes de procedimentos de execução penal. Isso não significa que toda dificuldade financeira posterior esteja automaticamente justificada ou que eventuais abusos não possam ser questionados. Significa, porém, que a análise das consequências deve considerar o histórico processual e os fundamentos legais de cada medida, em vez de atribuir todas as circunstâncias a uma atuação pessoal de determinado magistrado.

Alexandre de Moraes exerceu a relatoria de procedimentos relacionados à ex-parlamentar, mas a condenação no caso do CNJ foi resultado de deliberação judicial, não de uma decisão política unilateral. O funcionamento do Supremo envolve competências definidas pela Constituição, julgamentos colegiados e instrumentos de recurso. A avaliação de irregularidades ou violações de garantias exige identificar atos concretos e confrontá-los com as normas aplicáveis.

A manifestação de Zambelli constitui uma crítica pública ao ministro, protegida nos limites legais da liberdade de expressão. Entretanto, sua afirmação de que Moraes teria destruído sua vida representa uma interpretação pessoal da situação, não uma conclusão jurídica demonstrada. O exame jornalístico precisa distinguir essa percepção dos fatos estabelecidos: a existência de condenações, as medidas de bloqueio, o procedimento de extradição e as decisões proferidas pela Justiça italiana.

O caso também provoca reflexões sobre a relação entre exercício de mandato, atuação política e responsabilidade perante a legislação. A representação parlamentar confere prerrogativas destinadas a proteger a independência do Legislativo, mas não estabelece imunidade geral para condutas criminosas. Da mesma maneira, a perda do mandato ou a condenação não elimina direitos processuais e garantias fundamentais. O Estado de Direito exige que a responsabilização seja conduzida por procedimentos regulares, com respeito ao direito de defesa.

Essa exigência deve valer independentemente da orientação política da pessoa investigada ou condenada. A avaliação das decisões contra Zambelli precisa considerar as provas, os fundamentos legais e o cumprimento dos procedimentos. A mesma objetividade é necessária para examinar alegações de dificuldades financeiras no exterior ou eventuais questionamentos sobre a cooperação entre as autoridades brasileiras e italianas.

O anúncio da assinatura de R$ 50 mensais não modifica a situação processual da ex-deputada. A arrecadação constitui uma iniciativa privada, enquanto o pedido de extradição será decidido segundo as regras da Justiça italiana. Tampouco existe, até o momento, demonstração de que o lançamento da comunidade tenha produzido receitas suficientes para custear sua permanência no país europeu. O alcance da iniciativa dependerá do número de participantes e de sua continuidade.

A próxima etapa relevante está marcada para 24 de novembro. Nessa data, a Corte de Apelação de Roma deverá retomar a análise do pedido brasileiro relacionado à condenação pelo episódio de 2022. A decisão poderá ser acompanhada de novos recursos ou procedimentos, conforme o direito italiano aplicável. Até que haja uma conclusão definitiva, não é possível afirmar que Zambelli será entregue ao Brasil ou que permanecerá indefinidamente em território italiano.

A campanha de arrecadação anunciada por Carla Zambelli revela uma nova etapa de sua trajetória depois da perda do mandato e das condenações criminais. A ex-deputada atribui suas dificuldades econômicas a Alexandre de Moraes e procura financiamento direto entre seus seguidores, enquanto a Justiça italiana continua examinando um pedido de extradição apresentado pelo Brasil. A situação reúne responsabilidades penais já reconhecidas pela Justiça brasileira, controvérsias jurídicas internacionais e alegações pessoais que ainda dependem de comprovação independente. O próximo capítulo ocorrerá em Roma, onde os tribunais deverão decidir sobre a continuidade do procedimento que pode definir seu retorno ao país.