No Código do Poder, Reynaldo Aragon e Rodrigo Quinan discutem as transformações geopolíticas após os ataques de 2001, a ascensão da extrema direita e os desafios da soberania informacional
O 11 de setembro de 2001 marcou uma ruptura na ordem internacional que havia se consolidado após o fim da União Soviética. Vinte e cinco anos depois, as guerras no Oriente Médio, a expansão da vigilância estatal, a radicalização da direita americana e a disputa pelo controle das informações continuam presentes nas crises políticas e institucionais dos Estados Unidos. No sexto episódio do videocast Código do Poder, exibido em 13 de setembro de 2026, Reynaldo Aragon recebeu o pesquisador Rodrigo Quinan para discutir as consequências daquele acontecimento e suas relações com os conflitos políticos contemporâneos.
Pesquisador de pós-doutorado no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputa, Soberania Informacional, Quinan desenvolve estudos sobre teorias da conspiração. Ao lado de Reynaldo, que também integra o instituto, ele analisou a transformação do sistema internacional, os efeitos da Guerra ao Terror, a radicalização do Partido Republicano e as conexões entre o cenário americano e os conflitos políticos no Brasil. A conversa foi transmitida pelos canais Código Aberto, TV Travessia, Satélite de Ideias e Rádio e TV Atitude Popular.
O fim do mundo unipolar
Para Rodrigo Quinan, o 11 de setembro não deve ser compreendido apenas como um ataque terrorista de grandes proporções. O acontecimento representou uma ruptura simbólica com o período iniciado após o fim da União Soviética, em 1991, quando os Estados Unidos passaram a ser tratados como a única superpotência capaz de organizar a política mundial.
“Simbolicamente, politicamente foi o começo do nosso milênio, foi o começo do nosso século e especialmente foi o fim dos anos 90”, afirmou o pesquisador.
A década de 1990 foi marcada pela expansão da globalização neoliberal, pela influência das instituições financeiras internacionais e pela expectativa de consolidação da democracia liberal e do capitalismo como modelos dominantes. Nesse contexto, ganhou projeção a tese de Francis Fukuyama sobre o “fim da história”, segundo a qual a vitória do capitalismo liberal sobre o socialismo soviético encerraria as grandes disputas ideológicas.
Quinan observou que o ataque expôs os limites daquela visão de mundo. A Al-Qaeda, organização liderada por Osama bin Laden, não era uma potência militar comparável aos Estados Unidos, mas conseguiu realizar uma operação de impacto global. O episódio demonstrou que a concentração de poder econômico e militar não eliminava a existência de outros agentes, interesses e conflitos.
“Não estamos vivendo no mundo unipolar que achávamos nos anos 90, da hiperpotência Estados Unidos. Estamos vivendo no mundo multipolar agora”, declarou.
A multipolaridade não surgiu exclusivamente em razão dos ataques. O crescimento da China, a reorganização da Rússia após o fim da União Soviética e a formação de novos agrupamentos internacionais já estavam em curso. O 11 de setembro, porém, acelerou transformações que passaram a desafiar a hegemonia americana.
Da solidariedade internacional à Guerra ao Terror
Reynaldo Aragon lembrou que a reação inicial aos ataques foi marcada por uma comoção internacional. As imagens das Torres Gêmeas em chamas e a morte de milhares de pessoas provocaram solidariedade em diversos países, inclusive entre governos que mantinham divergências com a política externa americana.
A expectativa, segundo o apresentador, era de que os Estados Unidos utilizassem aquele momento para fortalecer sua legitimidade internacional. O caminho adotado pelo governo George W. Bush, entretanto, foi a declaração da Guerra ao Terror, seguida por intervenções militares que alteraram o equilíbrio político do Oriente Médio.
“E hoje a gente tá vendo que aquela potência que naquele momento era inegável, era indiscutível, que era a maior potência econômica e militar, hoje tem perdido diversas guerras consecutivas”, afirmou Reynaldo.
Quinan destacou que a reação americana produziu efeitos que ultrapassaram a perseguição à Al-Qaeda. Em outubro de 2001, o governo Bush aprovou o Patriot Act, legislação que ampliou significativamente os poderes de investigação e vigilância do Estado. A justificativa era impedir novos ataques, mas as medidas também afetaram direitos civis e a privacidade da população.
“O Patriot Act transformou os Estados Unidos num estado autoritário, basicamente assim”, resumiu o pesquisador.
A legislação ampliou o acesso governamental a informações pessoais e permitiu mecanismos de monitoramento que, posteriormente, seriam aprofundados por estruturas de vigilância digital. Anos mais tarde, as revelações de Edward Snowden expuseram a dimensão dos programas de espionagem conduzidos pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos.
Na análise apresentada no programa, a vigilância baseada em dados, algoritmos e monitoramento de comunicações encontra parte de suas origens políticas no ambiente criado após o 11 de setembro.
Iraque e a perda de credibilidade americana
A invasão do Afeganistão, iniciada em outubro de 2001, foi apresentada pelo governo Bush como uma resposta aos ataques, uma vez que a Al-Qaeda operava a partir do território afegão sob o regime do Talibã. A intervenção, contudo, transformou-se em uma guerra prolongada, cujo desfecho expôs as limitações da superioridade militar americana.
Para Quinan, a invasão do Iraque, em 2003, foi ainda mais decisiva para a perda de legitimidade dos Estados Unidos. O governo Bush justificou a operação com acusações de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa. As armas não foram encontradas, e a invasão ocorreu sem autorização do Conselho de Segurança da ONU.
“O grande teórico da conspiração sobre o 11 de setembro foi o Congresso dos Estados Unidos, que inventou a história de que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa”, afirmou.
A declaração foi apresentada como uma crítica à utilização de informações falsas ou não comprovadas para legitimar uma guerra. O pesquisador argumentou que a invasão do Iraque mostrou como uma potência poderia instrumentalizar o trauma de um ataque para justificar objetivos estratégicos mais amplos.
A discussão também abordou o papel dos neoconservadores, grupo político que defendia uma atuação externa mais agressiva dos Estados Unidos. Quinan citou o Project for the New American Century, organização associada a figuras que posteriormente ocuparam posições importantes no governo Bush, e observou que a ideia de uma intervenção militar no Oriente Médio já circulava antes de 2001.
O pesquisador ponderou, contudo, que a existência de planos e interesses políticos não comprova que o governo americano tenha organizado os ataques. A distinção é importante para compreender como teorias da conspiração se formam e por que determinadas suspeitas ganham força.
Teorias da conspiração e a busca por explicações
Ao abordar as teorias surgidas após o 11 de setembro, Rodrigo Quinan afirmou que a suspeita diante de um acontecimento de grandes proporções não é, por si só, irracional. A dificuldade aparece quando a busca por explicações substitui a análise das evidências.
Para ele, muitas teorias conspiratórias funcionam como uma tentativa de recuperar a sensação de controle diante de acontecimentos complexos.
“Eu acho que muitas vezes essas teorias da conspiração são assim uma falta de agência. Quando o mundo fica tão ambíguo e tão caótico, as pessoas precisam da normalidade do ‘só os Estados Unidos pode ferir os Estados Unidos’”, explicou.
A interpretação apresentada é que aceitar a possibilidade de um grupo relativamente pequeno ter executado um ataque capaz de abalar a maior potência militar do mundo pode ser mais difícil do que acreditar em uma conspiração organizada pelo próprio governo americano.
Nesse sentido, a teoria conspiratória oferece uma narrativa aparentemente mais simples. Em vez de lidar com a complexidade das relações internacionais, da radicalização política e das falhas de segurança, ela atribui o acontecimento a um centro de comando capaz de explicar tudo.
Quinan não apresentou essa interpretação como uma defesa das teorias conspiratórias. Ao contrário, destacou que a existência de interesses políticos e econômicos reais não transforma automaticamente qualquer hipótese em fato comprovado.
A discussão também apontou para um problema mais amplo: a desconfiança em instituições públicas, meios de comunicação e governos pode ser alimentada por acontecimentos em que versões oficiais se mostram incompletas, contraditórias ou desmentidas posteriormente. Isso exige investigação e transparência, mas não dispensa o exame rigoroso das provas.
O medo como instrumento político
A Guerra ao Terror também modificou a forma como o medo passou a ser utilizado na comunicação política e jornalística. Segundo Quinan, a cobertura dos ataques e das guerras seguintes criou um ambiente em que o terrorismo, a ameaça externa e a segurança nacional passaram a ocupar espaço permanente no debate público.
“O medo vende”, afirmou o pesquisador, ao discutir a relação entre comunicação e poder.
Ele citou a série americana 24 Horas, protagonizada pelo agente antiterrorista Jack Bauer, como exemplo de uma produção cultural que ajudou a popularizar a imagem de um mundo permanentemente ameaçado por ataques. Na televisão e no jornalismo, a lógica da emergência ganhou espaço, contribuindo para uma percepção de risco constante.
O pesquisador também mencionou a cobertura da CNN durante as guerras do Golfo e a expansão da Fox News, canal criado por Rupert Murdoch que se consolidou como referência da direita americana. Para Quinan, o crescimento da Fox News esteve ligado ao ambiente político e social produzido pela Guerra ao Terror, com forte presença de discursos nacionalistas, xenófobos e ultraconservadores.
A análise não atribui a uma única emissora a responsabilidade pela radicalização política americana. O ponto central é que o medo pode ser convertido em audiência, apoio político e legitimação de medidas de exceção.
A partir dessa perspectiva, o 11 de setembro não apenas provocou mudanças na política externa. Também alterou o ambiente comunicacional em que os conflitos passaram a ser interpretados.
Da crise de 2008 à ascensão de Trump
A conversa relacionou os efeitos da Guerra ao Terror à crise financeira de 2008 e à transformação da direita americana. Quinan destacou que o colapso econômico expôs contradições do modelo neoliberal e aprofundou a desconfiança em instituições tradicionais.
O pesquisador observou que a direita americana passou por uma reorganização ao longo dos anos 2000. Movimentos como o Tea Party, que ganhou força durante o governo Barack Obama, expressaram uma oposição que combinava rejeição ao governo democrata, críticas ao sistema político e discursos de caráter racista.
Quinan lembrou que o Tea Party esteve associado a teorias conspiratórias sobre a origem de Obama. Em determinado momento, o presidente precisou apresentar publicamente sua certidão de nascimento para responder à alegação de que não seria cidadão americano.
Reynaldo destacou a importância desse episódio para compreender o poder das redes sociais na política contemporânea. Segundo ele, foi um dos primeiros casos em que um presidente americano precisou responder diretamente a uma notícia falsa amplamente disseminada na internet.
Para Quinan, aquele processo contribuiu para a perda de autoridade das instituições tradicionais diante do crescimento de influenciadores, podcasters e grupos políticos que operam fora dos canais convencionais.
“O mundo alternativo é o que tem hoje, o mundo das fringes, o mundo do Trump, do pessoal dos podcasters, dos influencers e etc. Esse mundo bate de frente e ganha”, afirmou.
A ascensão de Donald Trump, na análise do pesquisador, não pode ser dissociada dessa transformação. O movimento MAGA, consolidado sob a liderança do republicano, reuniu setores nacionalistas, grupos conservadores e correntes da extrema direita.
Quinan relacionou esse processo ao enfraquecimento do establishment republicano e à rejeição de figuras tradicionais do partido, como Jeb Bush. O confronto entre Trump e Jeb Bush durante as primárias republicanas de 2016 foi citado como um momento simbólico da mudança.
Para o pesquisador, o trumpismo representa uma ruptura com a direita republicana mais institucional, embora mantenha elementos de continuidade com políticas anteriores.
A crise das instituições americanas
Ao discutir o cenário político dos Estados Unidos, Quinan afirmou que o país atravessa uma crise institucional que começou a se aprofundar após o 11 de setembro. A aprovação de medidas de vigilância, as guerras no exterior, a crise financeira de 2008 e a ascensão de movimentos políticos radicalizados teriam contribuído para a perda de confiança nas instituições.
O pesquisador também mencionou a disputa eleitoral de 2000, quando George W. Bush venceu Al Gore após uma recontagem de votos na Flórida. A presença de Jeb Bush, irmão do então candidato republicano, no governo estadual foi citada como parte de um episódio que gerou questionamentos sobre a credibilidade do processo eleitoral.
Na avaliação de Quinan, a crise americana não se resume à figura de Trump. Ela envolve a relação entre dinheiro, poder político, mídia e grandes empresas de tecnologia.
“É um país que não consegue respeitar o resultado de uma eleição”, afirmou, ao criticar a contestação de resultados eleitorais e o enfraquecimento de normas institucionais.
A análise também abordou o poder econômico das grandes corporações e o papel do lobby na política americana. Quinan observou que, embora a compra direta de votos seja ilegal, grandes doadores podem financiar campanhas, organizações e estruturas de comunicação para influenciar o eleitorado.
Reynaldo acrescentou que o lobby, legalizado nos Estados Unidos, permite que interesses privados exerçam influência sobre decisões públicas por meio de mecanismos institucionalizados.
ONU e a disputa por uma nova governança global
A Organização das Nações Unidas foi outro tema da conversa. Reynaldo defendeu a importância de preservar e disputar a instituição, mesmo diante de suas limitações e contradições.
Para o apresentador, a ONU nasceu com um propósito relevante após a Segunda Guerra Mundial e continua sendo um espaço importante de negociação internacional. Ele criticou a incapacidade da organização de impedir conflitos e proteger populações civis, citando a situação da Palestina e do Líbano.
Ao mesmo tempo, argumentou que a resposta não deve ser a destruição da instituição, mas a disputa política por sua transformação.
“O caminho que eu entendo é você não destrói uma instituição, você disputa essa instituição”, afirmou.
A discussão foi relacionada à ascensão de países do Sul Global e à construção de uma ordem internacional mais multipolar. Reynaldo mencionou a China, o Brasil e outros países como atores que defendem mudanças na governança global.
Quinan concordou com a importância de preservar espaços institucionais de diálogo entre países. Ele destacou que, apesar de suas limitações, a ONU representa uma referência de legitimidade para avaliar ações internacionais.
O pesquisador lembrou que a organização se opôs à invasão do Iraque em 2003, o que, segundo ele, demonstra a relevância de registrar a posição da instituição ao analisar conflitos.
“Eu sou a favor de um mundo institucional, assim, de um mundo que, com todo o viés dela, ela é uma instituição que promove algum diálogo e alguma legitimidade sobre ações internacionais”, declarou.
Brasil, soberania informacional e guerra híbrida
Na parte final do programa, a discussão se voltou ao Brasil e às disputas políticas contemporâneas. Reynaldo apresentou sua interpretação de que o país enfrenta uma guerra híbrida, caracterizada por operações de informação, pressão econômica e disputas institucionais.
Pesquisador de soberania informacional, ele afirmou que os conflitos atuais não se limitam ao campo militar. A disputa pelo controle da informação, a atuação de plataformas digitais e a influência sobre instituições passaram a ocupar espaço central nas relações de poder.
“Somos dois membros pesquisadores aqui do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputa, Soberania Informacional. Então assim, falar em soberania informacional é importante nesse momento”, afirmou.
Reynaldo relacionou essa perspectiva à situação política brasileira e ao governo do Presidente Lula. Segundo ele, o país enfrenta pressões externas e internas que podem ser compreendidas a partir da disputa por influência na América Latina.
Quinan ponderou que democratas e republicanos possuem diferenças reais, especialmente na política externa, mas que a atuação americana na região não pode ser analisada apenas a partir de um partido. Ele citou episódios históricos de intervenção dos Estados Unidos na América Latina e defendeu uma análise que considere a continuidade de interesses estratégicos.
“Eu sou contra esses reducionismos também, assim, claro, na mesa de bar nenhum presidente americano presta, OK? Mas eles não prestam de formas diferentes”, afirmou.
A discussão incluiu a relação entre o Brasil e os Estados Unidos durante os governos Obama, Trump e Biden. Quinan observou que as diferenças entre administrações não eliminam a existência de interesses permanentes na política externa americana.
Para o pesquisador, a capacidade de resistência do Brasil depende do fortalecimento de suas instituições e da preservação de mecanismos democráticos.
A eleição de 2026 e a defesa da institucionalidade
Ao abordar o cenário brasileiro, Rodrigo Quinan afirmou que o país precisa recuperar e preservar a confiança nas instituições. Ele citou a resposta brasileira aos ataques de 8 de janeiro de 2023 e comparou o tratamento dado aos responsáveis pela invasão das sedes dos Três Poderes com a situação dos envolvidos na invasão do Capitólio americano, em 2021.
Na avaliação do pesquisador, o Brasil demonstrou maior capacidade de responsabilização institucional em alguns episódios recentes, embora ainda enfrente problemas graves.
“Isso é muito mais importante do que um cara igual Bolsonaro que tipo, ó, tem uma reunião essa terça, na outra terça ele não vai, aí na outra ele briga com o cara”, declarou, ao defender a importância de previsibilidade e profissionalismo na condução do Estado.
Quinan argumentou que a seriedade institucional não deve ser confundida com uma posição ideológica específica. Para ele, a capacidade de cumprir compromissos, respeitar decisões e garantir a continuidade administrativa é fundamental para a estabilidade de qualquer país.
“O mais importante para mim não é que Lula é de esquerda e Flávio ou sei lá quem vai vir e é de direita, mas que Lula é o cara que você marca uma reunião com ele, ele vai lá, tem uma reunião e aí você vai lá, terça-feira que vem a gente faz a outra”, afirmou.
A declaração foi apresentada como uma defesa da previsibilidade política e administrativa, especialmente em um contexto de disputas internacionais e pressões sobre a soberania brasileira.
O desafio da informação no mundo digital
A conversa também tratou da relação entre tecnologia, política e poder. Reynaldo destacou que as plataformas digitais se tornaram espaços centrais de disputa política e que o controle da informação passou a ser uma dimensão estratégica das relações internacionais.
O pesquisador relacionou esse processo à expansão das big techs, empresas que concentram grande parte da infraestrutura digital e dos dados utilizados na sociedade contemporânea.
A análise apresentada é que a concentração de dados e o poder dos algoritmos podem influenciar comportamentos, opiniões e processos eleitorais. Nesse contexto, a soberania informacional se torna uma questão política e econômica.
Quinan observou que o crescimento das plataformas digitais alterou a relação entre instituições tradicionais e novos atores políticos. A influência de redes sociais, podcasters e criadores de conteúdo passou a desafiar os meios convencionais de comunicação e a modificar a forma como informações circulam.
O programa também discutiu a necessidade de compreender essas transformações sem reduzir todos os acontecimentos a teorias conspiratórias. A disputa por informação, segundo os participantes, deve ser analisada a partir de evidências, interesses identificáveis e mecanismos concretos de poder.
O 11 de setembro de 1973 e a memória latino-americana
Ao encerrar o programa, Reynaldo lembrou outra data de grande importância histórica: 11 de setembro de 1973, quando o golpe militar no Chile derrubou o presidente Salvador Allende e instaurou a ditadura de Augusto Pinochet.
O apresentador destacou a participação dos Estados Unidos no processo que levou ao golpe e afirmou que a data possui relevância para a América Latina.
A lembrança foi apresentada como uma forma de ampliar a compreensão do 11 de setembro para além dos ataques de 2001. Para Reynaldo, a história das intervenções americanas no continente é fundamental para analisar as relações de poder e os conflitos políticos atuais.
Quinan concordou que o 11 de setembro de 2001 deve ser compreendido a partir de suas repercussões globais. A discussão ressaltou que os efeitos daquele acontecimento ultrapassaram as fronteiras americanas e atingiram diretamente países do Oriente Médio, da Ásia e da América Latina.
Um século marcado pela disputa de poder
Ao longo do programa, Reynaldo Aragon e Rodrigo Quinan apresentaram uma interpretação do 11 de setembro como marco de uma transformação profunda na política internacional. A Guerra ao Terror, a expansão da vigilância estatal, a crise financeira de 2008 e a ascensão da extrema direita foram discutidas como processos que contribuíram para a atual crise de legitimidade das instituições americanas.
A conversa também apontou para a importância da multipolaridade e da disputa por uma nova governança global. Nesse cenário, o Brasil aparece como um país que precisa fortalecer sua soberania informacional e preservar sua capacidade de decisão diante das pressões externas.
A análise de Quinan sobre o futuro dos Estados Unidos foi marcada por cautela. Ele reconheceu que as instituições americanas enfrentam problemas graves, mas evitou fazer previsões definitivas sobre as próximas eleições e os rumos da política do país.
Para o pesquisador, a capacidade de resistência democrática depende da recuperação da confiança nas instituições e da preservação de procedimentos capazes de garantir estabilidade política.
O episódio do Código do Poder encerrou com a defesa de uma análise crítica sobre os acontecimentos que marcaram o início do século XXI. A discussão mostrou que compreender o 11 de setembro exige examinar não apenas o ataque em si, mas também as guerras, políticas de segurança, transformações econômicas e disputas de informação que se seguiram.
A principal questão apresentada ao longo da conversa foi como as sociedades podem preservar sua autonomia política e institucional em um mundo no qual o poder militar, econômico e informacional se concentra em poucos atores.
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