Ex-deputado avalia cenário após convenções partidárias, defende programa de mudanças para Lula, fortalecimento da esquerda no Congresso e soberania nacional como tema central da disputa eleitoral
Da Redação
A eleição presidencial de 2026 não deve ser tratada apenas como uma nova disputa destinada a impedir o retorno da extrema direita ao governo federal. Para o ex-deputado federal e analista político José Genoino, a campanha do Presidente Lula precisa apresentar ao país um projeto de mudanças capaz de avançar sobre limitações encontradas no atual mandato e combinar a defesa da democracia com propostas para áreas como tributação, educação, segurança pública, soberania nacional e direitos sociais.
A avaliação foi feita nesta quinta-feira (6), durante entrevista ao programa Café com Democracia, da Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas. Ao analisar o cenário formado após as convenções partidárias, Genoino afirmou que considera a eleição deste ano uma das mais importantes desde a redemocratização e defendeu que a esquerda dispute o pleito com um programa voltado também para o futuro.
“2022 foi conter o fascismo e 2026 não pode ser só conter, tem que ser transformar o país”, afirmou.
Para Genoino, o quadro eleitoral expõe uma polarização entre a candidatura de Lula e diferentes correntes da direita e da extrema direita. A avaliação é do entrevistado, que classificou as candidaturas adversárias como expressões distintas de um mesmo campo político e criticou particularmente aquelas que defendem medidas favoráveis aos condenados pelos atos golpistas.
“Nós vamos ter uma disputa de dois caminhos”, afirmou.
Na visão do ex-deputado, a eleição deverá ser fortemente polarizada e exigirá da campanha de Lula mais do que a defesa do legado construído pelos governos petistas.
“De todas as eleições presidenciais da democratização para cá, eu acho que essa vai ser a mais estratégica, mais importante da história do país”, disse.
Lula precisa apresentar mudanças, diz Genoino
Genoino argumentou que a campanha não deveria simplesmente repetir os programas apresentados em 2022 ou se restringir à defesa das realizações do terceiro mandato de Lula.
Para ele, o caminho passa por reconhecer avanços, identificar limitações e apresentar propostas capazes de indicar o que um novo governo pretende fazer.
“Nós temos que resgatar o que foi feito de bom e apresentar mudanças para as limitações”, afirmou.
Entre os temas mencionados pelo ex-deputado estão a justiça tributária, com maior cobrança sobre as faixas de renda mais altas, a política permanente de valorização do salário mínimo e o aumento dos investimentos em educação.
Genoino também citou políticas de proteção às pessoas com mais de 60 anos, combate ao racismo, defesa das mulheres e garantia dos direitos dos povos indígenas.
“Vamos fazer uma campanha muito centrada no futuro, na esperança, no sonho. Os sonhos não envelhecem, os sonhos têm que ser resgatados”, declarou.
Soberania entra no centro da disputa
Um dos pontos que receberam maior destaque na entrevista foi a soberania nacional.
Genoino relacionou o tema às tensões recentes entre Brasil e Estados Unidos e sustentou que a campanha eleitoral deve discutir de maneira mais clara o controle sobre recursos estratégicos brasileiros.
“Há muito tempo esse tema não era discutido com a força e com a repercussão popular que está tendo”, disse.
Na avaliação do ex-deputado, soberania não deve permanecer apenas no plano diplomático. Ele defendeu uma política nacional voltada às terras raras e aos minerais críticos, além da revisão da política relativa ao petróleo e do estímulo ao desenvolvimento industrial.
Para Genoino, o Brasil precisa reduzir sua dependência de uma economia excessivamente apoiada na exportação de produtos primários e fortalecer setores considerados estratégicos.
O analista político também defendeu que segurança e defesa nacionais sejam incorporadas de forma mais consistente ao programa progressista.
“Nós temos muitas vulnerabilidades”, afirmou.
Segurança pública também deve ser pauta da esquerda
Ao tratar de segurança pública, Genoino sustentou que o tema não pode ser abandonado pela esquerda e deixado exclusivamente nas mãos de setores conservadores.
Ele defendeu medidas nacionais para enfrentar organizações criminosas, tráfico de drogas e tráfico de armas e mencionou a discussão em torno da criação de um Ministério da Segurança Pública.
“É necessário ter uma política de segurança pública que seja eficaz, que combata o crime organizado, o tráfico de droga, o tráfico de arma e dê segurança à população”, declarou.
Durante o programa, a questão foi relacionada particularmente ao Nordeste e ao Ceará. Genoino argumentou que políticas de segurança precisam combinar atuação do Estado e garantia de direitos, sem reproduzir propostas que considera autoritárias.
Lula deve escolher os debates de que participa
Questionado sobre a participação de Lula em debates durante a campanha, Genoino rejeitou tanto a ausência completa quanto a presença em todos os encontros promovidos ao longo do período eleitoral.
“Eu acho que o Lula tem que escolher aonde ele vai debater”, respondeu.
Para ele, algumas candidaturas podem utilizar os debates principalmente como instrumento de projeção nacional por meio de confrontos com Lula.
“Ele não pode ir em todos os debates, mas também não pode deixar de ir em alguns”, afirmou.
Na avaliação de Genoino, a decisão deve considerar a relevância política de cada encontro e evitar que a presença do Presidente Lula seja utilizada apenas para ampliar a visibilidade de adversários com menor exposição pública.
Classe média e antipetismo
Outro desafio identificado pelo ex-deputado é a disputa por setores da classe média que demonstram rejeição ao PT ou ainda não definiram voto.
Segundo Genoino, parte desse eleitorado pode ser alcançada com uma campanha que combine apresentação das realizações do governo e reconhecimento das dificuldades encontradas ao longo do mandato.
“A gente tem que disputar a classe média com um programa político e com a verdade e fazer o enfrentamento”, disse.
O ex-deputado afirmou que a campanha também deve explicar os obstáculos impostos pela atual composição do Congresso Nacional às propostas do governo.
Ele relacionou esse debate ao peso das emendas parlamentares no Orçamento e defendeu mudanças na relação entre Executivo e Legislativo.
Segundo Genoino, uma eventual resistência do Congresso à revisão do modelo poderia abrir espaço para a discussão de uma consulta popular sobre o tema.
“Campanha militante”
Apesar do peso crescente das redes sociais, Genoino argumentou que a eleição não poderá ocorrer apenas no ambiente digital.
“Eu acho que vai ser uma campanha internet, rua, corpo a corpo, lugar de concentração, carreatas”, afirmou.
Ele citou as campanhas presidenciais petistas de 1989 e 2006 como experiências de mobilização política das quais considera possível recuperar características em 2026.
“Nós temos que ter rede social, mas tem que ser uma campanha militante”, disse.
Para Genoino, pesquisas eleitorais devem ser analisadas com cautela e não podem substituir a organização política direta.
“A gente não pode ficar impressionado com pesquisa. Há um mercado de pesquisa no Brasil”, afirmou.
O ex-deputado também defendeu que o PT recoloque a democratização da comunicação entre os assuntos da campanha.
“Eu acho que o PT tem que retomar o discurso da democratização dos meios de comunicação”, declarou.
Segundo ele, o debate atualmente envolve tanto os meios tradicionais quanto as plataformas digitais e as grandes empresas de tecnologia.
Luizianne e Cid no Ceará
A formação da chapa ao Senado no Ceará também entrou na conversa.
Ao comentar a candidatura de Luizianne Lins ao Senado, Genoino afirmou ter recebido positivamente a definição.
“Eu comemoro essa notícia. Eu tenho respeito muito grande pela combatividade da deputada Luizianne, respeito ao seu compromisso com as causas populares”, declarou.
Genoino defendeu a ampliação da representação da esquerda no Senado como forma de impedir que a extrema direita alcance uma maioria capaz de alterar significativamente a correlação de forças no Congresso.
Como cada eleitor poderá escolher dois senadores em 2026, ele defendeu a estratégia de apresentação conjunta de Luizianne e Cid Gomes ao eleitorado cearense.
“Essa ideia de concentrar só num é uma faca de dois gumes”, avaliou.
Para Genoino, a disputa no Ceará deve apresentar os dois candidatos ao Senado junto à candidatura do governador Elmano de Freitas e à campanha presidencial de Lula.
“Essa campanha nós temos que fazer a campanha do time. O time do Lula”, afirmou.
Questionado por Luiz Regadas sobre antigas declarações de Cid Gomes durante a prisão de Lula, Genoino reconheceu divergências, mas sustentou que o senador permanece, em sua avaliação, no campo de uma aliança democrática e progressista.
“Eu acho que o Cid se equivocou com essas declarações, mas ele não mudou de lado”, disse.
Em seguida, diferenciou politicamente Cid de Ciro Gomes e afirmou que, em sua interpretação, Ciro fez um deslocamento em direção à extrema direita.
A avaliação representa a leitura política de Genoino sobre as posições dos dois irmãos.
São Paulo como desafio eleitoral
O cenário paulista também ocupou parte da entrevista.
Genoino avaliou positivamente o início da campanha de Fernando Haddad ao governo estadual e destacou a composição com Márcio França como candidato a vice e Simone Tebet e Marina Silva nas duas disputas para o Senado.
As candidaturas foram formalizadas no processo das convenções partidárias paulistas.
Para o ex-deputado, São Paulo representa um desafio histórico para a esquerda pela continuidade de governos estaduais de centro e direita ao longo das últimas décadas.
“Em São Paulo, a direita sempre ganhou as eleições. Nunca houve rotatividade no exercício do governo estadual com a esquerda”, afirmou.
Segundo Genoino, Haddad deverá confrontar principalmente a gestão de Tarcísio de Freitas em temas relacionados à privatização, educação, segurança pública e serviços públicos.
Ele também considera que o antipetismo terá peso significativo no estado.
“O petismo tem força em São Paulo, mas também tem muita rejeição. E nós temos que fazer esse enfrentamento”, declarou.
Congresso pode definir alcance de um novo governo
Na conclusão da entrevista, Genoino concentrou sua análise na eleição para Câmara dos Deputados e Senado.
Para ele, a governabilidade de um eventual novo mandato de Lula estará diretamente relacionada ao tamanho das bancadas progressistas eleitas em outubro.
“O Congresso muitas vezes foi o bastião conservador na história do Brasil”, afirmou.
O objetivo, segundo ele, deve ser ampliar a representação da esquerda e da centro-esquerda e evitar que adversários alcancem maiorias qualificadas capazes de aprovar mudanças constitucionais ou avançar sobre processos de impeachment.
“Eles querem transformar o Congresso Nacional numa plataforma política para o golpismo, seja na luta contra o presidente eleito, seja na luta contra o Poder Judiciário”, declarou.
Por isso, Genoino defendeu campanhas integradas para presidente, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais.
“Nós temos que fazer uma eleição casada, chapa casada”, afirmou.
Ele rejeitou uma campanha excessivamente individualizada e defendeu a apresentação ao eleitor de um conjunto de candidaturas ligado a um programa comum.
“Fazer uma campanha de time, um bloco de esquerda e centro-esquerda”, resumiu.
“A governabilidade é com um pé no diálogo e um pé no enfrentamento”
Genoino encerrou sua participação argumentando que um eventual novo governo Lula precisará combinar negociação institucional com pressão política e mobilização social.
“A governabilidade, Luiz, é com um pé no diálogo e um pé no enfrentamento”, afirmou.
Para ele, a relação com o Congresso não pode depender apenas de negociações parlamentares. A organização social deve participar da disputa sobre os rumos do governo e das reformas discutidas no país.
O ex-deputado condensou sua proposta para a campanha na defesa da soberania nacional, da democracia e dos direitos sociais.
Ao longo da entrevista, porém, uma formulação deixou mais claro o que Genoino considera estar em jogo na eleição presidencial: a disputa de 2026, em sua avaliação, não deveria servir somente para evitar o retorno da extrema direita.
“2022 foi conter o fascismo e 2026 não pode ser só conter, tem que ser transformar o país.”
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