A democratização da comunicação no centro do Novembro Negro

Movimentos negros defendem protagonismo, representatividade e disputa de narrativas no rádio, na TV e nas redes

O segundo programa do Especial Novembro Negro – mês da Consciência Negra – voltou sua atenção para um tema central dentro da luta antirracista: a democratização da comunicação. A edição do Vozes da Democracia, transmitida pela TV Atitude Popular e apresentada pelo radialista Sousa Júnior, recebeu dois convidados profundamente ligados à construção de mídias periféricas, negras e populares: Yane Mendes, comunicadora e cineasta periférica de Recife-PE, e Kim Lopes, coordenador nacional e estadual do Movimento Negro Unificado (MNU), radialista e assessor sindical.

Logo na abertura, o programa destacou que a comunicação é um dispositivo estruturante de poder. Numa sociedade marcada por quase 400 anos de escravidão, onde a discriminação racial permanece como marca viva, a disputa narrativa se torna tão importante quanto a disputa institucional. E é por isso que iniciativas de comunicação vindas das favelas, quilombos, periferias e movimentos negros não são apenas alternativas: são mecanismos de sobrevivência, resistência e construção de imaginário.

Ao longo da conversa, Kim Lopes trouxe um panorama histórico raro e necessário. Militante desde os anos 1980, ele lembrou que sua trajetória começou simultaneamente em dois campos que sempre caminharam juntos: o movimento negro e a comunicação popular. Fez parte das primeiras rádios alternativas do Ceará e presidiu entidades pioneiras da radiodifusão comunitária no estado. Para ele, democratizar a comunicação não é apenas ampliar vozes, mas garantir que a população negra – maioria do país – apareça como sujeito político, intelectual, artístico e social.

Um dos momentos mais fortes da entrevista foi quando Kim lembrou a pré-conferência de Durban sediada em Fortaleza, no início dos anos 2000. À época, a TV Globo revelou ter um catálogo com mais de 500 atores e atrizes negros disponíveis para dramaturgia. Ainda assim, diretores se recusavam a escalar pessoas negras para papéis de médicos, advogados ou empresários. “Eles só conseguem enxergar o homem negro como segurança ou motorista”, relatou, trazendo de volta a constatação de que a comunicação é também reprodutora de uma ordem racial que define lugares sociais.

O apresentador Sousa Júnior puxou outro fio importante: a comparação com emissoras de televisão que praticamente não exibem pessoas negras em suas novelas. Enquanto isso, nos Estados Unidos – onde a população negra corresponde a cerca de 13% – a representatividade é tão forte nas produções cinematográficas que cria a impressão de que são metade da população. Kim sublinhou o abismo: “Nós estamos mais de 50 anos atrasados em relação ao debate das ações afirmativas nos EUA.”

A educação foi outro eixo estruturante da conversa. Kim lembrou da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas, mas que segue largamente descumprida. Sem esse resgate histórico, disse ele, crianças negras crescem sem pertencimento, sem referências positivas e sem conhecer a profundidade da contribuição africana para a ciência, para a cultura e para a humanidade. Não é apenas um problema de currículo: é uma negação histórica que alimenta o racismo cotidiano.

Ao falar das políticas públicas, Sousa Júnior destacou a importância de ocupar a Rede Nacional de Comunicação Pública – composta por mais de 300 emissoras educativas e gerida pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Ele reforçou que rádios e TVs são concessões públicas e que suas programações devem atender ao interesse da população, incluindo conteúdos que eduquem para a igualdade racial e denunciem práticas discriminatórias. Kim concordou e chamou atenção para um ponto de autocrítica: mesmo dentro dos movimentos sociais, a pauta da comunicação ainda é subestimada, o que dificulta a expansão e o financiamento de projetos de mídia negra, periférica e comunitária.

No encerramento, ao agradecer o convite, Kim foi direto ao ponto: democratizar a comunicação é enfrentar privilégios, estruturas e interesses de poder. E, para isso, é preciso organização, pressão social e investimento estatal. A luta é longa e permanente — mas é também irrenunciável.


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