Em entrevista a Sandra Helena, a jornalista Eliara Santana analisa a cobertura da mídia tradicional, a crise entre os Poderes, a disputa no Congresso e o fortalecimento político de Michelle Bolsonaro
A edição mais recente do Democracia no Ar trouxe uma das análises midiáticas mais densas do ano. A apresentação ficou a cargo da professora Sandra Helena, que recebeu a jornalista, pesquisadora e cronista Eliara Santana, convidada mensal do programa para examinar como a mídia brasileira cobre — ou deixa de cobrir — fatos centrais da vida pública.
A conversa, transmitida pela Rádio e TV Atitude Popular, girou em torno de três eixos: a cobertura da prisão de Jair Bolsonaro e de militares golpistas; o novo perfil editorial do Jornal Nacional após a entrada de César Tralli e a saída de William Bonner; e a disputa aberta entre governo e Congresso, que ganhou intensidade nas últimas semanas.
“A desconstrução de Bolsonaro era necessária para que o país não entrasse em caos”
Logo no início, Eliara retomou um ponto que vinha afirmando há meses: Bolsonaro não poderia ser preso enquanto ainda fosse um ator político sólido, com capacidade de mobilização e de destruição institucional.
Segundo ela, a prisão só seria possível depois que o próprio sistema jurídico-midiático exibisse em detalhes quem ele é, desmontando sua narrativa de força, moralidade e liderança.
“Bolsonaro só seria preso depois que fosse desconstruído. Se isso tivesse acontecido antes, o país teria entrado em caos.”
Eliara lembrou que a mídia tradicional, especialmente a TV, desempenhou papel essencial ao reforçar essa linha do tempo — exibindo relatórios, investigações e contradições. Por isso, quando a prisão finalmente ocorreu, o impacto social foi mínimo.
“Foram 130 pessoas tentando uma manifestação tímida. O resto da base bolsonarista ficou recolhida porque já sabia quem ele era.”
A ausência de espetáculo: um novo marco na relação entre Judiciário e mídia
Sandra ressaltou a sobriedade da cobertura da prisão, sem helicópteros, sem câmeras em porta de delegacia, sem espetáculo. Eliara explicou que isso não foi uma escolha editorial, mas uma determinação explícita do ministro Alexandre de Moraes, que proibiu exposição midiática dos presos.
Ela fez o contraponto com o tratamento recebido por Lula em 2018:
“Lula não teve o mesmo direito. A Lava Jato transformou a prisão dele em show, algo que reforça como a mídia brasileira ainda precisa rever seu comportamento diante do poder Judiciário.”
A mudança no Jornal Nacional: mais emoção, menos rigor analítico
Sandra questionou as diferenças percebidas na bancada do Jornal Nacional, agora comandada por César Tralli. Para Eliara, a mudança é visível:
“O tom está mais emotivo, mais personalista. Tralli comenta tudo, sempre com esse ar de acolhimento que mascara uma moralização seletiva.”
Se Bonner evitava dar opiniões explícitas, Tralli adota um estilo que “conversa” com o público — e isso, para Eliara, não necessariamente melhora o jornalismo.
A jornalista também alertou para a presença crescente do componente emocional na mídia brasileira:
“A emoção virou engajamento. E engajamento virou estratégia editorial.”
Super salários e estatais: o tema que a direita tenta transformar em mantra
Um dos pontos centrais da entrevista foi a cobertura insistente do Jornal Nacional sobre “rombos” em estatais e “super salários” de servidores públicos. Para Eliara, isso não é aleatório:
“Isso é amealhar terreno para duas agendas da direita: a reforma administrativa e o discurso do Estado ineficiente.”
Ela lembrou que a cobertura ignora nuances fundamentais — como o fato de que super salários são exceções, enquanto políticas de sucateamento são a regra.
Silêncio ensurdecedor sobre a operação na 13ª Vara de Curitiba
Eliara classificou como um dos maiores silêncios midiáticos do ano o fato de a imprensa praticamente ignorar a operação da Polícia Federal na 13ª Vara de Curitiba, onde Sergio Moro atuou durante a Lava Jato.
“A mídia não deu uma linha. Nem uma nota seca. Isso revela a parceria histórica entre Lava Jato e os grandes veículos.”
A operação buscava documentos, vídeos e delações que nunca foram enviados ao STF e pode revelar novos bastidores da atuação de Moro e Deltan Dallagnol.
Congresso em ebulição e a disputa de poder com o STF
Outra parte importante da entrevista tratou da reação inflamada do Congresso após a prisão de Bolsonaro e dos militares. Para Eliara, a extrema direita reorganiza sua estratégia mirando onde mais importa:
“O objetivo deles é fazer maioria no Senado. Não é vencer a Presidência. Querem poder para derrubar ministros do STF.”
Sandra acrescentou que essa disputa já aparece na cobertura dividida da imprensa: enquanto a Globo demonstra cautela institucional, a Record adota uma linha abertamente pró-Congresso e anti-governo, algo que Eliara também observa nas redes digitais.
Caso Banco Master: “isso não vai parar”
A entrevista também abordou a operação que prendeu o empresário Roberto Vorcaro e expôs relações suspeitas envolvendo o Banco Master, o BRB e políticos de alta relevância. Para Eliara:
“A reação de Toffoli, ao decretar sigilo e permitir a soltura, só mostra o tamanho do escândalo. Mas isso não vai parar. A investigação segue e é explosiva.”
Michelle Bolsonaro: “ela não desperdiça oportunidades”
No encerramento, as duas discutiram a briga pública entre Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-presidente, episódio que expôs a disputa interna na extrema direita. Eliara foi direta:
“Michelle é o principal ativo político do bolsonarismo. Ela costura alianças, cresce no PL Mulher e tem mais neurônios do que os filhos de Bolsonaro.”
Sandra reforçou que Michelle encarna uma narrativa religiosa que busca domesticar o avanço feminista, oferecendo às mulheres um “protagonismo controlado”: ativa na política, submissa no discurso, e vendida como modelo de moralidade.
Eliara concluiu com uma crítica dura ao silêncio das autoridades brasileiras:
“Não vimos nenhuma fala contundente do governo sobre a onda brutal de feminicídios. É inaceitável.”
Uma conversa necessária
A entrevista reforça que a batalha democrática no Brasil passa pela comunicação — e, sobretudo, pela capacidade de ler silêncios, omissões e enquadramentos.
Em um ano eleitoral, como alertou Sandra, esta disputa é decisiva.
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