Ao relembrar o Ceará dos anos 1990, em que 99% dos docentes de alguns municípios só tinham a 4ª série, o professor Leunam Gomes defende a formação superior e a valorização da categoria como condição para desenvolver cidades inteiras
A escola de palha à sombra da mangueira, o quadro negro apoiado em tijolos, a sala improvisada em casas alugadas pela comunidade e um professor com apenas a 4ª série do antigo primário. Essa ainda era a realidade de boa parte dos municípios do interior do Ceará na virada dos anos 1990, quando a evasão escolar entre a 1ª e a 4ª série era tratada quase como um dado da natureza, e não como um problema político.
Foi desse passado recente e dos caminhos de mudança que falou o professor universitário aposentado, radialista e escritor Leunam Gomes, no programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas. Em longa conversa sobre formação docente e desenvolvimento regional, Leunam fez um balanço dos resultados colhidos desde os primeiros esforços de interiorização da formação de professores, em 1997, até a consolidação de políticas como o Fundef, depois Fundeb.
“Formação de professores é sempre um assunto importante e sempre atual”, resumiu o professor, ao lembrar que, mesmo com a expansão do ensino superior, a categoria precisa de atualização contínua.
Professores com 4ª série e evasão em massa
Antes de chegar à Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), Leunam foi secretário municipal de Educação em quatro cidades cearenses. A experiência no chão da escola, segundo ele, é a chave para entender por que a formação docente é, literalmente, questão de futuro para um município.
Ele recorda o caso de Croatá, no fim dos anos 1980:
“No município de Croatá, onde eu fui secretário em 89, 99% dos professores só tinham a quarta série.”
Em Poranga e Guaraciaba do Norte o cenário não era muito diferente: praticamente não havia docentes com nível médio e nenhum professor com curso superior. Em muitos municípios, a rede pública oferecia apenas até a 4ª série, porque não havia quem lecionasse do 5º ano em diante. Quem queria prosseguir os estudos precisava enfrentar longas distâncias, estradas de terra e transporte escasso – um luxo inacessível à maioria das famílias rurais.
Salários baixíssimos completavam o quadro. Como lembra Leunam:
“O professor ganhava o equivalente a 10% do salário mínimo.”
Nesse contexto, o trabalho docente se sustentava mais em “espírito de solidariedade” do que em qualquer política de carreira. A evasão era alta, e pouco incomodava os gestores locais. Ao assumir a Secretaria de Educação em Guaraciaba, ele decidiu encarar os números:
“Quando eu fui secretário, eu fiz seminários com a população para discutir por que, de cada 100 crianças que entravam na alfabetização, só 16 chegavam à quarta série.”
A lista de causas incluía pobreza, necessidade de trabalhar cedo, ausência de transporte, infraestrutura precária e, no centro de tudo, a baixa escolarização e a falta de formação pedagógica dos próprios professores.
Quando a educação deixa de ser gasto e vira projeto
O ponto de virada, na avaliação de Leunam, começa com duas mudanças articuladas: a criação do Fundef e a decisão política da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) de levar cursos de licenciatura para dentro dos pequenos municípios.
Do lado do financiamento, o Fundef passou a atrelar recursos à matrícula e a vincular parte do dinheiro à valorização docente:
“Sessenta por cento dos recursos do Fundef são para ser aplicados para o professor, para a remuneração e para a formação do professor, e os outros 40% para infraestrutura das escolas.”
Isso obrigou prefeituras a olhar com mais atenção para a frequência de alunos e para a permanência na escola: menos estudantes significava menos receita. Ao mesmo tempo, famílias passaram a sentir no bolso o impacto da evasão, já que a presença na rede escolar dialoga com programas sociais como o Bolsa Família.
A UVA vai ao interior: 142 municípios e uma mudança de cultura
É nesse cenário que a UVA, onde Leunam atuou na pró-reitoria de Extensão, elaborou um planejamento específico para formar professores sem exigir a ida para Sobral. Em vez de esperar que docentes se deslocassem para a sede da universidade, a instituição passou a ofertar cursos de pedagogia e licenciaturas nos próprios municípios.
“A UVA levou os cursos de graduação, sobretudo formação de professores, pedagogia para 142 municípios do Ceará”, destacou o professor.
Segundo ele, a experiência mudou não apenas o nível de escolaridade dos docentes, mas o próprio ambiente econômico e cultural das cidades:
surgiram pousadas para receber professores e alunos de outros locais;
ampliou-se o uso de serviços como fotocópias e pequenos comércios ligados à vida estudantil;
formaram-se as primeiras gerações com diploma superior em muitas famílias.
Leunam conta o caso de uma cidade do interior em que participou da colação de grau de cinco estudantes indígenas – possivelmente, os primeiros indígenas formados naquela região – e de municípios em que quase todas as famílias passaram a ter, ao menos, uma pessoa com ensino superior:
“Uma pessoa com curso superior faz uma diferença grande na família. Exerce influência para que outros estudem.”
Em Guaraciaba do Norte, onde a evasão era altíssima nos anos 1990, ele vê hoje um salto qualitativo:
“Guaraciaba do Norte é hoje um dos municípios mais desenvolvidos da região, porque praticamente toda família tem alguém com curso superior.”
O impacto aparece também em indicadores econômicos. Leunam relata o relato de uma comerciante que transferiu sua loja de Crateús para Guaraciaba após estudar dados de população e Produto Interno Bruto (PIB):
“Ela observou que Crateús é o dobro da população de Guaraciaba e Guaraciaba é o dobro do PIB de Crateús.”
Para o professor, esse resultado tem relação direta com a presença de universidade e de profissionais qualificados que optaram por permanecer na cidade, inovar nos negócios e movimentar a economia local.
Interiorização, povos indígenas e novas universidades
A experiência de interiorização da UVA extrapolou o Ceará. Leunam lembra que a universidade levou cursos a estados como Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Maranhão, Pará, Goiás e até o Amapá, sempre com foco na formação de professores.
Foi numa dessas viagens que ele presidiu a colação de grau em uma cidade do interior do Pará, onde, segundo relata, estavam se formando os primeiros docentes indígenas daquela região. Esse tipo de experiência, afirma, reforça o sentido estratégico de políticas anunciadas pelo governo federal, como a criação de uma universidade indígena e de uma universidade do esporte.
“Uma universidade, ela muda a história de qualquer pessoa. Imagine se nós não tivéssemos curso superior, onde é que nós estávamos?”, questiona.
Ditadura, perseguição e o valor político da educação
Ao falar da importância de reconhecer o papel do professor, Leunam recorda que, em outros momentos da história brasileira, educadores foram tratados como ameaça. Ele próprio foi perseguido durante a ditadura militar por desenvolver projetos de alfabetização de adultos, inspirados em Paulo Freire.
“Que crime é esse? Fazer pensar, refletir e descobrir o que eles estavam fazendo?”, provoca.
Ele lembra que Freire chegou a elaborar um plano nacional de alfabetização de adultos, após a experiência em Angicos (RN), interrompido pelo golpe de 1964. Ao comparar aquele período com o presente, Leunam destaca a diferença que faz ter, à frente do país, um presidente que, embora de origem humilde e com escolaridade formal limitada, compreende o papel estratégico da educação:
“O Lula, com pouco tempo de leitura da palavra, fez pela educação o que nenhum presidente da República fez, mais de 18 universidades”, afirma, apontando o preconceito de classe e de origem contra um líder “pobre e nordestino que deu certo”.
Professor valorizado, país em disputa
Na parte final da entrevista, atento à visita do presidente Lula ao Ceará para entrega de carteiras de trabalho e computadores a docentes, Leunam retoma um ponto central: não há projeto de país sem valorizar quem ensina.
Ele critica a histórica negligência de governantes com a educação básica, lembra que a ditadura perseguiu professores e ressalta que, ainda hoje, uma parte do Congresso atua para enfraquecer políticas públicas, negociar cargos e bloquear avanços:
Para ele, “o nosso futuro depende das pessoas que a gente eleger”, e a educação precisa estar no centro desse debate.
Da alfabetização de adultos nos anos de chumbo à interiorização universitária e à formação continuada, a trajetória do professor Leunam Gomes sintetiza uma convicção simples, mas poderosa: nenhum município se desenvolve sem escola forte e professor apoiado. E, quando a universidade chega ao interior, não muda apenas biografias individuais – reorganiza a própria economia e a vida política das cidades.
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