“A ditadura instalou um Estado criminoso no Brasil”

Historiadora analisa revelação sobre camponeses queimados em fornalhas na Paraíba e afirma que violência no campo foi parte de uma política sistemática de repressão durante a ditadura

As recentes revelações sobre a queima de camponeses em fornalhas de usinas de açúcar na Paraíba reacenderam um dos capítulos mais brutais e menos conhecidos da ditadura militar brasileira. O tema foi debatido no programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, que recebeu a professora Marcília Gama, doutora em História e especialista em Arquivologia, para discutir a perseguição aos trabalhadores rurais e às Ligas Camponesas durante o regime instaurado em 1964.

Ao comentar a ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal sobre o caso, Marcília afirmou que a violência praticada contra camponeses não foi um episódio isolado, mas parte de uma ampla estrutura repressiva articulada entre forças de segurança, setores das Forças Armadas e grupos econômicos ligados ao latifúndio. Segundo ela, a história oficial ainda está longe de revelar toda a dimensão dos crimes cometidos naquele período.

O silêncio sobre os crimes da ditadura

Para a historiadora, a principal razão para que episódios tão graves tenham permanecido desconhecidos por décadas está relacionada ao que definiu como uma política permanente de apagamento da memória.

“Vivemos uma história do silenciamento da memória.”

Marcília argumenta que a ditadura construiu uma extensa rede de vigilância, produção de informações falsas, censura e ocultação de provas. Essa estrutura envolvia órgãos como o Serviço Nacional de Informações (SNI), os centros de inteligência das Forças Armadas, a Polícia Federal e as polícias estaduais.

Segundo ela, os documentos preservados nos arquivos públicos demonstram que a repressão foi planejada e executada em escala nacional.

“Ela instalou um Estado criminoso no Brasil.”

A aliança entre militares, polícia e usineiros

Durante a entrevista, a professora destacou que a perseguição às Ligas Camponesas ocorreu em um contexto de resistência das elites agrárias à ampliação dos direitos trabalhistas no campo.

O Estatuto do Trabalhador Rural, aprovado em 1963, passou a garantir aos trabalhadores do campo direitos já assegurados aos trabalhadores urbanos desde a criação da Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943.

Para os grandes proprietários rurais, essa mudança representava uma ameaça ao modelo tradicional de exploração da mão de obra.

“Essas oligarquias rurais não queriam perder para as Ligas Camponesas.”

A Liga Camponesa de Sapé, na Paraíba, tornou-se uma das principais referências da organização dos trabalhadores rurais no Nordeste e passou a ser alvo prioritário da repressão.

Corpos queimados e desaparecimentos

Marcília afirmou que a utilização de fornalhas de usinas para destruir corpos fazia parte de uma estratégia deliberada para eliminar vestígios dos assassinatos políticos.

Segundo ela, a prática não ocorreu apenas na Paraíba e aparece em diferentes relatos e documentos produzidos ao longo dos anos.

“Esses corpos foram apagados da história nas fornalhas.”

A historiadora lembrou ainda que muitos trabalhadores rurais sequer possuíam documentação civil, o que facilitava seu desaparecimento sem qualquer registro oficial.

Em diversos casos, segundo os relatos reunidos por pesquisadores e órgãos de memória, vítimas eram enterradas como indigentes, lançadas em açudes, represas ou locais de difícil acesso.

O caso Miró e a violência contra lideranças rurais

Entre os exemplos citados durante a entrevista está o caso de Miró, jovem líder sindical ligado às lutas dos trabalhadores rurais em Pernambuco.

De acordo com a documentação analisada pela pesquisadora, ele foi brutalmente espancado antes de uma audiência trabalhista em que reivindicaria direitos para um grupo de cortadores de cana.

Abandonado em um matagal, permaneceu gravemente ferido até ser encontrado dias depois.

Mesmo após passar um mês internado, retornou à Justiça do Trabalho para retomar o processo.

“Ele não esqueceu a luta.”

O caso acabou se transformando em símbolo da resistência dos trabalhadores rurais diante da violência patrocinada por setores ligados ao poder econômico local.

Reparação ainda insuficiente

Questionada sobre o reconhecimento das vítimas e a reparação às famílias perseguidas pela ditadura, Marcília foi categórica ao afirmar que a maioria dos atingidos jamais recebeu qualquer reconhecimento do Estado.

Segundo ela, apenas uma pequena parcela dos perseguidos políticos teve acesso aos mecanismos de reparação criados após a redemocratização.

No caso dos trabalhadores rurais, a situação seria ainda mais grave devido à ausência de registros civis e à invisibilidade social dessas populações.

“A grande maioria não.”

Para a pesquisadora, os números oficialmente conhecidos representam apenas uma fração do que realmente ocorreu.

O papel do Ministério Público Federal

A professora avaliou como fundamental a iniciativa do Ministério Público Federal de investigar os casos envolvendo a queima de camponeses na Paraíba.

Segundo ela, ações desse tipo ajudam a romper décadas de silêncio e permitem que a sociedade conheça aspectos ocultos da história brasileira.

“Só é possível essa apuração no regime democrático.”

Marcília também destacou a importância dos arquivos públicos, das pesquisas acadêmicas e das comissões de memória para a reconstrução dos fatos.

Reforma agrária e memória histórica

Ao encerrar a entrevista, a historiadora relacionou a violência contra as Ligas Camponesas à permanência da concentração fundiária no Brasil.

Segundo ela, a questão agrária continua sendo um dos principais desafios históricos do país.

“O Brasil é o único país que não fez reforma agrária.”

Para Marcília Gama, compreender a perseguição sofrida pelos trabalhadores rurais durante a ditadura é essencial para entender as desigualdades que ainda marcam o campo brasileiro e para impedir que violações semelhantes sejam esquecidas ou relativizadas.


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