“A informação precisa chegar a todos os cantos do Brasil”

Associação de fibromiálgicos de Niterói transforma acolhimento, cultura e mobilização social em instrumentos de luta por direitos e visibilidade

A fibromialgia ainda é cercada por desinformação, preconceitos e dificuldades de acesso a tratamentos adequados. Para enfrentar esse cenário, a Associação dos Fibromiálgicos, Amigos e Parentes de Niterói (AFAPNIT) vem construindo uma rede de acolhimento, conscientização e defesa de direitos voltada às pessoas que convivem com a síndrome. O tema foi debatido no programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, que recebeu a professora Kaká Freitas para uma conversa sobre saúde, cultura e direito à cidade.

Durante a entrevista, Kaká relatou a origem da entidade, explicou os principais sintomas da fibromialgia e destacou a importância da informação como ferramenta de combate ao preconceito. Segundo ela, a AFAPNIT nasceu a partir da mobilização de pessoas que buscavam ampliar a visibilidade da síndrome e fortalecer a luta por políticas públicas voltadas ao atendimento dessa população.

Uma associação criada para dar visibilidade à fibromialgia

A AFAPNIT surgiu a partir da articulação de integrantes de um movimento estadual ligado à defesa dos direitos das pessoas com fibromialgia. O primeiro passo foi a aprovação da lei municipal que instituiu o Dia da Fibromialgia em Niterói, celebrado em 12 de maio.

A partir daí, o grupo decidiu ocupar espaços públicos para dialogar diretamente com a população.

Segundo Kaká Freitas, uma simples ação realizada em frente ao terminal rodoviário da cidade revelou a dimensão da demanda existente.

“A gente queria saber onde estavam os outros fibromiálgicos de Niterói.”

Em apenas dois dias de atividade, mais de cem pessoas procuraram o grupo relatando sintomas compatíveis com a síndrome. A experiência deu origem à estrutura que mais tarde se consolidaria como AFAPNIT.

O que é a fibromialgia

Ao longo da entrevista, a professora explicou que a fibromialgia é uma síndrome caracterizada por alterações no sistema nervoso central, capazes de modificar a forma como o organismo interpreta estímulos físicos e emocionais.

Entre os principais sintomas estão a dor crônica generalizada, o sono não reparador, a fadiga persistente e alterações de humor.

“A gente costuma dizer que é como uma enxaqueca em várias partes do corpo.”

Segundo ela, a dor não aparece em exames convencionais, o que frequentemente gera incompreensão por parte da sociedade e até mesmo de profissionais de saúde desatualizados sobre os avanços recentes das pesquisas científicas.

O peso do preconceito

Um dos aspectos mais enfatizados durante a conversa foi o impacto social da doença.

Kaká, que convive com a fibromialgia desde 2010, relatou que muitas pessoas ainda enfrentam descrédito dentro da própria família, no ambiente de trabalho e nos serviços de saúde.

“A gente está no limbo que a depressão viveu nos anos 90.”

Ela criticou a persistência da ideia de que a síndrome seria apenas um problema emocional ou psicológico, ressaltando que a Organização Mundial da Saúde reconhece a fibromialgia como uma condição primária.

O preconceito, segundo a professora, contribui para o isolamento social, o agravamento do sofrimento emocional e a exclusão do mercado de trabalho.

“As pessoas começam a achar que você está fazendo corpo mole.”

Tratamento exige abordagem multidisciplinar

Embora ainda não exista cura para a fibromialgia, diversos recursos terapêuticos podem reduzir sintomas e melhorar a qualidade de vida.

Kaká explicou que a atividade física é considerada um dos pilares do tratamento, ao lado do acompanhamento médico, psicológico, nutricional e fisioterapêutico.

Práticas integrativas como yoga, acupuntura e outras terapias complementares também têm apresentado resultados positivos.

Segundo ela, a maior dificuldade está justamente em garantir acesso a equipes multidisciplinares capazes de acompanhar os pacientes de forma contínua.

Por isso, a AFAPNIT defende a criação de centros especializados para atendimento de pessoas com dor crônica.

Cultura como ferramenta de cuidado

Um dos diferenciais do trabalho desenvolvido pela associação é a utilização da arte, da cultura e do esporte como instrumentos de acolhimento.

A entidade promove atividades culturais, oficinas, encontros, ações esportivas adaptadas e eventos voltados à integração social.

“A arte, assim como a atividade física, ajuda a pessoa a se sentir integrada.”

Entre as iniciativas citadas estão projetos de remo adaptado, apresentações artísticas, dança, atividades circenses e feiras temáticas que reúnem pessoas com fibromialgia, familiares e parceiros da sociedade civil.

Para Kaká, essas ações ajudam a combater o isolamento e fortalecem os vínculos comunitários.

Mobilização por direitos

Além do acolhimento, a associação atua na defesa de direitos previdenciários, assistência social e políticas públicas voltadas às pessoas com fibromialgia.

Ao final da entrevista, Kaká fez um apelo para que pacientes e familiares participem da luta coletiva.

“Não desista. Nossa luta está aí e a gente está junto.”

Ela também destacou que pessoas de qualquer região do país podem entrar em contato com a AFAPNIT, que integra uma rede nacional de organizações voltadas ao apoio de pessoas com fibromialgia e outras condições relacionadas à dor crônica.


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