Atitude Popular

“A esperança não pode ser substituída pelo medo”, diz Osmar de Sá Ponte Jr. ao analisar pré-candidatura de Ciro ao governo do Ceará

Sociólogo e presidente do PSB Fortaleza afirma que movimentação de Ciro Gomes reorganiza o tabuleiro político cearense e reacende debate sobre violência, democracia e projeto de sociedade

Durante entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, o professor Osmar de Sá Ponte Junior analisou os impactos políticos da movimentação de Ciro Gomes, que passou a ser apontado como pré-candidato ao Governo do Estado do Ceará nas eleições de 2026. A edição foi apresentada por Sara Goes e discutiu os desdobramentos da possível volta de Ciro à disputa estadual após décadas concentrando sua trajetória em projetos nacionais.

Ao longo da conversa, Osmar argumentou que a decisão de Ciro altera profundamente o cenário político local, deslocando a polarização tradicional entre bolsonarismo e campo governista para uma disputa mais centrada na figura do ex-ministro. Segundo ele, a candidatura também reabre tensões dentro da centro-esquerda cearense e obriga partidos aliados do governador Elmano de Freitas a recalcular estratégias eleitorais.

Um dos pontos destacados por Osmar foi a escolha do Conjunto Ceará como local do anúncio político de Ciro. Para o sociólogo, o gesto tem forte carga simbólica e tenta reconectar o ex-governador à memória de seu período de maior hegemonia política no estado.

“O futuro tá lá atrás”, resumiu o professor ao interpretar a tentativa de Ciro de reconstruir sua narrativa política a partir de territórios historicamente associados à sua ascensão eleitoral. Segundo ele, o Conjunto Ceará sempre foi uma das regiões onde Ciro obteve votações expressivas desde os anos 1990, especialmente nas disputas para Prefeitura de Fortaleza e Governo do Estado.

Osmar descreveu Ciro como um político de forte capacidade narrativa, marcado por carisma, intensidade discursiva e grande habilidade de leitura do tempo político. Ao mesmo tempo, apontou contradições recentes na trajetória do pedetista, sobretudo após o rompimento com o grupo político liderado por Camilo Santana e Cid Gomes.

“O Ciro sempre se moveu muito pela convicção. Ele acredita profundamente nas próprias premissas e age a partir delas”, afirmou. “Mas política também exige capacidade de construir alianças e dialogar com outras forças.”

A entrevista dedicou parte significativa do debate à centralidade do tema da segurança pública na estratégia política de Ciro Gomes. Osmar reconheceu que a violência urbana se tornou um dos principais motores emocionais da política contemporânea, mas alertou para os riscos de simplificação do problema.

Segundo ele, a criminalidade e o avanço das facções geram medo real na população e produzem terreno fértil para discursos de apelo autoritário. Ainda assim, diferenciou a retórica de Ciro daquela praticada pelo bolsonarismo.

“O discurso do Ciro não é fascista”, afirmou. “O fascismo trabalha para destruir o Estado e alimentar permanentemente o caos. Já o Ciro tenta apresentar uma ideia de reorganização estatal, embora use uma linguagem muito simplificada para dialogar com esse sentimento de insegurança.”

O professor também observou que áreas como educação e saúde dificultam ataques mais diretos ao atual governo cearense, justamente porque o Ceará consolidou indicadores reconhecidos nacionalmente nessas áreas ao longo das últimas décadas.

“O Ceará virou referência nacional em educação pública. Na saúde, houve interiorização dos serviços e criação de uma rede hospitalar que antes não existia. O próprio Ciro ajudou a construir parte desse processo”, destacou.

Outro eixo importante da entrevista foi a análise do avanço de discursos autoritários no Brasil e no mundo. Em um dos momentos mais densos da conversa, Osmar relacionou o crescimento do fascismo contemporâneo ao medo social, à desesperança e ao enfraquecimento dos vínculos democráticos.

“O grande medo hoje não é só o da violência. É a falta de esperança”, afirmou. “Quando as pessoas deixam de acreditar no futuro, passam a aceitar respostas simplistas, intolerantes e violentas.”

O sociólogo comparou esse processo ao crescimento histórico do fascismo europeu e alertou para a normalização de discursos de exclusão e ódio. Segundo ele, o papel das lideranças políticas deveria ser o de reconstruir confiança coletiva e ampliar o diálogo social, e não aprofundar divisões.

“A sociedade democrática tolera diferenças. O fascismo precisa destruir o diferente”, declarou.

Ao abordar os impactos partidários da eventual candidatura de Ciro, Osmar afirmou que o PSB deve manter apoio à reeleição de Elmano de Freitas, mas ressaltou que o partido possui projeto político próprio e pretende ampliar sua presença institucional no Ceará.

Ele também comentou especulações sobre uma possível candidatura de Camilo Santana ao Governo do Estado caso Ciro confirme entrada na disputa. Segundo Osmar, qualquer decisão sobre nomes cabe prioritariamente ao PT e deve ser construída em diálogo com os partidos da base governista.

Durante a entrevista, o professor fez elogios à ex-governadora Izolda Cela e afirmou que sua retirada da disputa estadual em 2022 produziu consequências políticas que ainda reverberam no Ceará. Para ele, Izolda representava uma possibilidade de continuidade administrativa sem ruptura interna na aliança governista.

Mesmo reconhecendo a força eleitoral e o recall político de Ciro Gomes, Osmar avaliou que o cenário ainda permanece aberto e sujeito a mudanças profundas até o período oficial das convenções.

“Quando começar a campanha de verdade, tudo pode mudar. Eu ainda não tenho certeza se o próprio Ciro permanecerá candidato até o final”, afirmou.

A entrevista terminou com uma defesa enfática da política como instrumento de construção coletiva e enfrentamento democrático das crises sociais.

“O debate político não pode ser movido apenas pelo ódio. A sociedade precisa voltar a acreditar que é possível construir esperança”, concluiu.

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