Atitude Popular

“Quando a gente abre essa caixa de Pandora, encontra a real face da ditadura”, diz Marcília Gama

Historiadora analisa perseguição às universidades durante o regime militar e revela novas investigações sobre censura, tortura e assassinatos políticos em Pernambuco

A professora Marcília Gama participou da edição do programa Café com Democracia, apresentada por Luiz Regadas no dia 13 de maio, para discutir o tema “As faces multiformes da ditadura militar: o alvo às universidades”. Durante a entrevista, a pesquisadora analisou os mecanismos de vigilância, repressão e censura implementados pelo regime militar brasileiro contra estudantes, professores e movimentos universitários, com destaque para os casos investigados em Recife e nas universidades pernambucanas.

Ao longo da conversa, Marcília detalhou como a ditadura estruturou uma ampla rede de controle político voltada especialmente aos espaços de produção intelectual. Segundo ela, universidades, sindicatos, centros acadêmicos e setores do jornalismo passaram a ser considerados focos permanentes de monitoramento pelos órgãos de repressão entre 1964 e 1985.

“Essa perseguição às universidades não é algo recente da história do Brasil”, afirmou. “Durante a ditadura militar houve uma rede nacional de informação e segurança voltada para vigiar, controlar e monitorar segmentos considerados pensantes da sociedade.”

A historiadora explicou que o trabalho atual das comissões da verdade e memória tem justamente o objetivo de revisitar documentos, arquivos e relatos orais para reconstruir uma história frequentemente escondida sob narrativas oficiais que minimizaram a violência do período.

Segundo Marcília, parte importante dessa revisão histórica passa pela abertura gradual dos arquivos da repressão. Ela citou o caso do ex-presidente Juscelino Kubitschek, cuja morte em 1976 voltou ao centro dos debates após novas interpretações documentais e investigações relacionadas aos arquivos da ditadura.

“A versão oficial sempre tratou aquilo como acidente de carro. Mas quando se abrem os arquivos e se confrontam informações, aparecem expedientes utilizados para maquiar crimes políticos”, declarou.

A professora também mencionou suspeitas históricas envolvendo a morte de Ulysses Guimarães e destacou como o regime militar utilizava versões oficiais para ocultar ações clandestinas de perseguição e eliminação de opositores.

Durante a entrevista, Marcília detalhou o funcionamento do Decreto-Lei 477, conhecido como “AI-5 das universidades”, instrumento que permitia expulsar estudantes acusados de atividades consideradas subversivas. Segundo ela, as universidades públicas brasileiras passaram por processos sistemáticos de “limpeza ideológica”, frequentemente com colaboração direta de setores internos das próprias instituições.

“Hoje as comissões da verdade estão encontrando documentos que mostram reitores entregando nomes de estudantes ao IV Exército”, revelou. “A política era de silenciamento.”

Ela relatou episódios de invasão violenta aos espaços estudantis por grupos paramilitares ligados à repressão, incluindo ações do Comando de Caça aos Comunistas contra diretórios acadêmicos em Pernambuco.

“Quebravam mimeógrafos, queimavam documentos, destruíam materiais de organização estudantil porque não queriam que as denúncias contra a ditadura circulassem.”

Ao analisar a memória social sobre o período militar, Marcília afirmou que ainda existe forte romantização da ditadura em parte da população brasileira. Segundo ela, o regime utilizou futebol, entretenimento e propaganda cultural para construir uma imagem positiva dos anos 1970 enquanto ocultava prisões, torturas e assassinatos.

“A Copa de 70 ficou no imaginário popular como símbolo de alegria nacional. Enquanto isso, por baixo do tapete, havia perseguição, tortura e censura.”

A pesquisadora destacou que apenas na Universidade Federal de Pernambuco as investigações preliminares das comissões da verdade já identificaram centenas de casos de perseguição política envolvendo professores, estudantes e técnicos administrativos.

Entre os episódios mencionados na entrevista, Marcília revelou detalhes das investigações sobre a morte do estudante de agronomia Odijas Carvalho de Souza, integrante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Segundo ela, documentos oficiais registravam a morte como consequência de embolia pulmonar, mas os arquivos e testemunhos analisados pelas comissões apontam sinais evidentes de tortura extrema.

“A documentação mostra múltiplas rupturas de órgãos internos provocadas pelas sessões de tortura. O relato é aterrorizante”, afirmou.

Marcília descreveu que Odijas teria sido submetido a interrogatórios ininterruptos no DOPS pernambucano até perder completamente as condições físicas de permanecer consciente. Segundo testemunhos recolhidos, ele foi arrastado até a cela enquanto deixava rastros de sangue pelo corredor.

A historiadora citou ainda o militante Mário Albuquerque Miranda, que também integrou o PCBR e sobreviveu às sessões de tortura, embora carregando sequelas profundas.

“O objetivo era eliminar politicamente e simbolicamente essas pessoas.”

Outro ponto enfatizado por Marcília foi o impacto da Lei da Anistia. Para ela, a forma como a anistia foi construída no Brasil criou uma equivalência injusta entre vítimas e agentes da repressão.

“Eles igualaram torturados e torturadores num perdão geral e irrestrito. Isso é cruel para as famílias que perderam filhos, irmãos, pais e companheiros.”

Ao comentar o papel das universidades atualmente, a professora defendeu que os centros acadêmicos e as instituições públicas de ensino têm responsabilidade histórica na preservação da memória democrática e no enfrentamento das narrativas revisionistas.

“O que nós fazemos é uma história a contrapelo”, afirmou. “É uma história que incomoda porque mexe nas estruturas e desmonta versões confortáveis sobre o passado.”

Marcília também criticou a circulação de discursos que associam universidades públicas automaticamente ao “comunismo”, classificando esse tipo de narrativa como herança direta da propaganda ideológica da ditadura militar.

“A população foi ensinada a acreditar que universidade era espaço de formação de comunistas. Isso ainda permanece vivo.”

No encerramento da entrevista, a pesquisadora afirmou que abrir os arquivos da ditadura significa expor uma realidade marcada por censura, repressão e assassinatos políticos sistemáticos.

“Quando a gente abre essa caixa de Pandora, encontra a real face da ditadura militar”, concluiu.

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