Atitude Popular

“A esquerda precisa atingir o eleitor de centro para crescer”

Em entrevista ao Democracia no Ar, Roberto Cardoso defende que o campo progressista fale para além da própria bolha, enfrente o projeto ultraliberal de Flávio Bolsonaro e trate o endividamento das famílias como tema central de 2026

Em entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, o comunicador Roberto Cardoso, do canal Pensando Alto, afirmou que a esquerda brasileira precisa abandonar a tentação de falar apenas para si mesma e construir uma linguagem capaz de alcançar o eleitorado de centro e setores conservadores da sociedade. A conversa, conduzida na edição dedicada ao tema “Brasil soberano e Congresso amigo do povo”, partiu do cenário eleitoral de 2026, mas avançou sobre trabalho, consumo, dívidas, apostas online e os limites impostos por um Congresso majoritariamente conservador.

Ao longo da entrevista, Roberto insistiu em um ponto que considera decisivo para o futuro do governo Lula e das forças progressistas: a disputa eleitoral não pode ser pensada apenas em torno da Presidência da República, mas sobretudo em torno da composição do Legislativo. Para ele, sem ampliar a bancada comprometida com direitos sociais e soberania nacional, qualquer projeto popular seguirá submetido ao bloqueio permanente do centrão, do agronegócio e da extrema direita organizada.

“A esquerda precisa atingir o eleitor de centro para crescer”, resumiu. Na avaliação do comunicador, esse aprendizado já foi incorporado por Lula há décadas, mas ainda encontra forte resistência em parcelas do campo progressista. “Se a gente quiser eleger 300 deputados, dá para eleger. Só que tem que fazer o que o Lula faz. O Lula perdeu três eleições falando só pra esquerda”, afirmou. Em seguida, reforçou que a ampliação da base eleitoral exige mudança de linguagem, de repertório e de postura. “A gente precisa conversar com pessoas de fora da esquerda para conseguir mais votos e eleger mais deputados.”

A crítica de Roberto não se dirige ao conteúdo histórico das lutas da esquerda, mas à maneira como ele é comunicado. Para ele, parte do progressismo transforma a política em um circuito interno, repleto de códigos reconhecíveis apenas por quem já está convencido. Em vez de disputar o senso comum, acaba se encerrando em uma bolha autorreferente. Segundo ele, isso ajuda a explicar por que Lula consegue vitórias nacionais mesmo quando seu campo fracassa em boa parte das disputas legislativas e municipais.

“O Lula busca muito voto fora da esquerda. Por isso a esquerda, sendo minoria, vence a eleição”, afirmou. Na leitura do entrevistado, o presidente compreendeu antes de muitos aliados que vencer disputa política não é apenas reafirmar convicções, mas traduzir projeto. “A esquerda precisa se acostumar a falar não só pra própria esquerda, porque a esquerda a gente já tem.”

A entrevista também dedicou largo espaço ao modo como setores progressistas, por arrogância ou impaciência, acabam hostilizando justamente parcelas do povo que deveriam disputar. Roberto criticou a tendência de ridicularizar o trabalhador conservador, o pequeno empreendedor precarizado ou o eleitor que sonha ascender socialmente. Para ele, isso não atinge a extrema direita no comando, mas o cidadão comum que vive sob humilhação cotidiana e procura uma saída.

“Muita gente que não é de esquerda vota no Lula porque é grata ao Lula por tudo que ele já fez”, observou. Por isso, disse ele, tratar com desdém o imaginário do trabalho, do mérito e do esforço individual não ajuda a construir maioria social. Ajuda, isso sim, a empurrar esse eleitor para figuras como Pablo Marçal, Nikolas Ferreira e o filho de Jair Bolsonaro.

Ao comentar a relação de trabalhadores com a CLT e com a ideia de empreender, Roberto procurou deslocar o debate do moralismo para a experiência concreta da exploração. Segundo ele, muitas pessoas não rejeitam direitos trabalhistas porque se tornaram “inimigas” da classe trabalhadora, mas porque associam o emprego formal a jornadas extenuantes, desrespeito, salários baixos e medo constante do desemprego. “O empresário brasileiro, ele tem mente escravocrata”, afirmou, ao argumentar que a precariedade do mercado empurra o trabalhador a desejar qualquer possibilidade de autonomia, por mais arriscada que ela seja.

Na mesma linha, ele sustentou que o discurso progressista sobre o fim da escala 6 por 1, embora necessário, precisa ser formulado de modo a dialogar com a realidade concreta das pessoas, sem soar como desprezo pelo valor simbólico do trabalho. A seu ver, há diferença entre defender descanso, dignidade e tempo livre e falar ao trabalhador como se ele devesse sentir vergonha de aspirar esforço, disciplina ou melhora de vida. “Esse pessoal vota desde que você converse com ele, desde que você ouça”, disse, ao defender uma esquerda menos performática e mais atenta à escuta popular.

Um dos momentos mais fortes da entrevista veio quando Roberto tratou diretamente do nome que considera provável polo da extrema direita em 2026: Flávio Bolsonaro. Na visão do comunicador, insistir apenas em denúncias de corrupção, rachadinha ou enriquecimento ilícito tem pouco efeito sobre o eleitorado bolsonarista mais fiel, que já naturalizou esse tipo de acusação ou responde automaticamente com ataques a Lula. Para ele, a disputa mais eficiente é programática e material.

“O Flávio quer que você trabalhe 12 horas por dia”, afirmou. Em seguida, ampliou o argumento: “O Flávio quer que você trabalhe 60 horas por semana. O Flávio quer mudar a sua aposentadoria. Ele quer outra reforma trabalhista.” Para Roberto, esse é o terreno real da disputa. Mais do que insistir em escândalos conhecidos, o campo progressista precisa mostrar, de maneira simples e direta, o que significaria para a vida concreta do povo a volta de um projeto ultraliberal comandado pela família Bolsonaro.

Esse diagnóstico se conectou à discussão sobre soberania nacional, tema apresentado como eixo estratégico da disputa de 2026. Ao longo do programa, a avaliação compartilhada foi a de que a eleição não será apenas uma competição entre nomes, mas entre projetos de país: de um lado, uma proposta de defesa da autonomia brasileira, dos direitos sociais e da capacidade do Estado de induzir desenvolvimento; de outro, a reedição subordinada de um país disponível ao capital financeiro, à tutela estrangeira e ao desmonte das proteções sociais.

Mas foi quando o assunto se deslocou para o cotidiano das famílias que a entrevista ganhou densidade ainda maior. Roberto sustentou que o governo Lula precisa enfrentar com clareza uma contradição central do presente: ainda que indicadores macroeconômicos melhorem, a sensação de alívio não chega plenamente ao bolso do trabalhador, porque o orçamento familiar está capturado por novas engrenagens de endividamento. Entre elas, ele destacou o crédito fácil, o consumo digital impulsivo e, sobretudo, as plataformas de apostas.

“As bets são a maior fonte de endividamento hoje do brasileiro”, afirmou. Segundo Roberto, o impacto das apostas online é devastador porque se alimenta da combinação entre desespero econômico, promessa de ganho fácil e publicidade massiva. O trabalhador que não consegue transformar R$ 50 em lazer ou respiro vê no jogo a ilusão de multiplicar o pouco que tem. Quando perde, segue preso na mesma angústia, agora agravada.

Na entrevista, ele chamou atenção para o fato de as casas de aposta já não serem apenas um fenômeno comercial periférico, mas uma engrenagem com capacidade de financiamento político e presença ostensiva no esporte e na comunicação. “Esse dinheiro de bet” disse, “está patrocinando” setores importantes da direita brasileira. O alerta é claro: a drenagem da renda popular por meio do jogo não é apenas um problema moral ou de saúde pública, mas um problema político, porque reorganiza poder econômico e financia projetos antipopulares.

Roberto também comentou a fala recente de Lula sobre endividamento, consumo e a falsa sensação de que pequenas compras digitais não pesam no orçamento. Para o comunicador, o presidente tocou num ponto sensível da vida brasileira contemporânea, ainda que tenha sido ridicularizado por adversários e até por setores da esquerda. O problema, segundo ele, não é apenas o valor do salário, mas a forma como o capitalismo digital produz angústia permanente, desejo ininterrupto e facilidade de gasto. Compra-se pelo celular, parcela-se sem perceber, soma-se no fim do mês, e a frustração acaba recaindo sobre o governo.

Ao comentar o funcionamento do sistema bancário, Roberto foi ainda mais direto. Disse que, para grande parte das instituições financeiras, o pequeno e médio correntista interessa mais endividado do que capitalizado. “O banco prefere você endividado”, afirmou, explicando que a expansão agressiva do crédito não decorre de generosidade, mas de estratégia de captura. A lógica, segundo ele, é simples: uma população estrangulada por juros, parcelamentos e limites fáceis gera mais lucro do que uma população com dinheiro guardado e autonomia financeira.

A entrevista ainda reservou espaço para uma crítica dura à chamada “esquerda radical” que, em sua visão, dedica mais energia a atacar Lula do que a enfrentar a direita realmente existente. Roberto argumentou que parte desse campo opera, na prática, uma disputa por espaço simbólico dentro do próprio campo progressista, transformando o antipetismo em método e tentando se apresentar como guardião de uma pureza política incompatível com os constrangimentos reais de governar um país como o Brasil.

“Cuidado com os influenciadores que vocês seguem, que a maioria só sabe bater no Lula e faz um papel de ajudar a direita”, disse. Para ele, governar exige enfrentar o Congresso que o povo elegeu, dialogar com forças adversas e administrar correlações de força que não se alteram por desejo ou retórica. Nessa chave, chamar Lula de neoliberal ou vendido ao mercado ignoraria justamente o peso das amarras institucionais e a dimensão social de sua preocupação permanente com os mais pobres.

Ao final da conversa, Luiz Regadas pediu a Roberto uma resposta objetiva sobre a estratégia eleitoral mais eficaz para 2026. O comunicador foi taxativo ao dizer que insistir apenas nas “capivaras” de Flávio Bolsonaro provavelmente não produzirá grandes deslocamentos entre bolsonaristas convictos. “O bolsonarista não liga para fatos”, afirmou. Por isso, defendeu que a batalha central seja travada no terreno das condições de vida, do trabalho, da aposentadoria, da fome e do futuro do país.

A entrevista no Democracia no Ar deixou, assim, um recado nítido para o campo progressista: ganhar 2026 não será apenas repetir a polarização moral já conhecida, mas reconstruir pontes com setores populares desorganizados, endividados, humilhados e politicamente ambivalentes. Para Roberto Cardoso, um projeto de soberania nacional só ganhará corpo se vier acompanhado de linguagem acessível, escuta social e capacidade de mostrar, sem jargão e sem arrogância, quem está de fato do lado do povo e quem trabalha para aprofundar sua exploração.

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