“A gente muda o mundo”, diz João Nicodemos ao unir poesia, música e luteria no Cariri

Poeta e luthier radicado no Crato fala sobre arte, cultura popular, rabeca e o olhar poético construído entre o Nordeste e o interior do Brasil

O poeta e luthier João Nicodemos Araújo afirmou, durante entrevista ao programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, que a arte precisa servir como instrumento de transformação humana e social. Em conversa com o apresentador Luiz Regadas, o artista falou sobre sua trajetória entre a poesia, a música e a construção artesanal de rabecas, relacionando cultura popular, educação e identidade nordestina.

Nascido no interior de São Paulo, filho de pai cearense e mãe mineira, João Nicodemos contou que encontrou no Ceará, especialmente na região do Cariri, o espaço onde consolidou sua identidade artística e cultural.

“Eu me adotei cearense quando vim para cá. Falei: ‘É meu lugar’”, declarou.

Segundo o artista, a poesia surgiu muito cedo, ainda na infância, ligada à maneira particular como observava o mundo.

“O que tem de principal na poesia é o olhar. É como a pessoa vê as coisas, como entende o mundo”, afirmou.

Nicodemos explicou que começou a perceber essa sensibilidade ainda criança, antes mesmo de escrever versos.

“Com oito anos eu já reparava que tinha coisas que só eu estava vendo”, contou.

Durante a entrevista, o poeta relatou que trabalha a poesia como necessidade existencial e não apenas como exercício artístico.

“Hoje eu não faço poesia porque gosto. Eu faço porque é uma necessidade. É minha maneira de me expressar”, disse.

Ao longo da conversa, João Nicodemos também apresentou sua produção de poemas visuais, linguagem que mistura palavras e imagens para construir sentidos poéticos. Um dos trabalhos exibidos trazia a frase “A felicidade se compõe de delicadas alegrias”, acompanhada pela imagem de uma chuva de pipocas.

“Hoje a propaganda usa muito isso, mas no poema visual a imagem e as palavras se unem para criar uma interpretação poética”, explicou.

Além da poesia, o artista se tornou referência regional na construção artesanal de rabecas. Ele explicou que produz cada instrumento de forma personalizada, observando características físicas e musicais de quem irá tocá-lo.

“Eu nunca fiz duas rabecas iguais. Cada instrumento sai com a cara do dono”, afirmou.

João Nicodemos contou ainda que utiliza madeiras reaproveitadas e materiais da própria região do Cariri, evitando derrubar árvores para fabricar os instrumentos.

“Tem rabeca feita com madeira de porta antiga. Antes era uma porta, agora é um instrumento”, disse.

Segundo ele, o trabalho artesanal mantém uma relação íntima com a poesia e com a percepção sensorial da natureza.

“Essa madeira tem cheiro. Quando eu toco, sinto o cheiro dela. A poesia está presente em tudo”, comentou.

O artista revelou que algumas de suas rabecas chegaram às mãos de nomes conhecidos da música brasileira, como Egberto Gismonti e Margareth Menezes.

Ao comentar a diferença entre rabeca e violino, Nicodemos afirmou que ambos pertencem à mesma família de instrumentos de corda, mas que a rabeca preserva uma dimensão popular e artesanal muito forte.

“O violino foi desenvolvido para um som mais refinado e mais forte. Já a rabeca você faz com o que tem à mão”, explicou.

Ele também relembrou o mestre Nelson da Rabeca, que fabricava instrumentos utilizando ferramentas simples, como facões e utensílios domésticos.

“Isso é profundamente poético. É transformar carência material em música”, afirmou.

Durante a entrevista, João Nicodemos criticou os modelos tradicionais de educação, que, segundo ele, priorizam a repetição e a formação de trabalhadores padronizados, em vez da criatividade e da sensibilidade humana.

“A educação está transformando pessoas em objetos, em repetidores de modelos. Não em gente que pensa, inventa e cria”, disse.

Ao defender a importância da cultura popular nordestina, o poeta destacou nomes como Luiz Gonzaga e Patativa do Assaré como pilares fundamentais da identidade brasileira.

“Como é que alguém pode querer ser poeta sem conhecer Patativa do Assaré?”, questionou.

No encerramento da entrevista, João Nicodemos afirmou que sua missão artística é provocar nas pessoas um olhar mais atento e mais humano sobre o mundo.

“Eu fico o tempo todo instigando as pessoas a observarem o mundo com olhar de poeta e olhar de criança”, declarou.

Em seguida, resumiu sua visão sobre arte e transformação social:

“Isso que a gente faz é revolução. É a gente mudar o mundo. E eu continuo acreditando que a gente pode mudar o mundo.”

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