“A gente precisa colocar o que acredita na urna”

Shirley Almeida defende participação política dos cristãos nas eleições de 2026 e afirma que o voto deve considerar direitos sociais, democracia, soberania e proteção dos mais vulneráveis

A participação dos cristãos nas eleições de 2026 e os critérios que podem orientar o voto estiveram no centro da edição desta terça-feira (29) do programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular. Em entrevista ao apresentador Luiz Regadas, a educadora social Shirley Almeida, participante do movimento Igreja em Saída, discutiu a relação entre fé, democracia e participação política, defendendo que os valores professados pelos cristãos sejam considerados também na escolha dos representantes políticos. A entrevista foi realizada pelo Café com Democracia, com participação na produção do programa do professor doutor Rafael Silva.

Shirley partiu do próprio nome do programa para estabelecer a relação entre democracia e justiça social. Para ela, falar em democracia significa tratar do direito à participação e do acesso a direitos, enquanto a ideia de café remete às condições concretas de vida, como alimentação e justiça social. A partir dessa perspectiva, afirmou que sua compreensão do voto cristão está relacionada aos ensinamentos de Jesus e à defesa da vida em plenitude.

“Quando a gente tá falando de democracia, a gente tá falando sobre esse bem comum, sobre o direito à participação, sobre o acesso a essa participação”, afirmou.

Na avaliação da educadora social, a participação política dos cristãos não deve ser confundida com uma atuação partidária das igrejas. Ela defendeu uma compreensão mais ampla da política, relacionada ao acompanhamento das políticas públicas, ao controle social e à participação cotidiana na vida pública.

“Quando a gente tá trazendo isso, a gente não tá falando dessa política partidária. A gente tá falando dessa política do cotidiano mesmo”, disse Shirley.

A entrevistada também abordou o movimento Igreja em Saída, inspirado, segundo ela, no pensamento do Papa Francisco. A expressão remete à ideia de uma Igreja que deixa espaços de segurança para se aproximar das pessoas em situação de vulnerabilidade. Shirley citou uma formulação atribuída ao pontífice para explicar essa perspectiva: “Eu prefiro uma igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma igreja enferma pelo fechamento”.

Para Shirley, essa concepção coloca a presença junto às populações vulnerabilizadas como uma dimensão importante da atuação cristã. Nesse sentido, a participação política seria também uma forma de acompanhar a execução das políticas públicas e cobrar que os direitos previstos sejam efetivamente garantidos.

Pobreza e direitos sociais no debate eleitoral

Durante a entrevista, Luiz Regadas apresentou uma reflexão atribuída a Dom Hélder Câmara sobre a relação entre a defesa dos pobres e as acusações de comunismo. Shirley retomou outra formulação conhecida do religioso: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”.

A partir da citação, ela sustentou que a preocupação com pobreza, fome, desemprego, saúde, educação e proteção social não deveria ocupar um lugar secundário na decisão eleitoral de cristãos. Para a entrevistada, essas questões estão diretamente relacionadas ao que considera a centralidade do Evangelho.

“Essa é a centralidade do evangelho. É estar, caminhar e promover vida em abundância”, afirmou.

Shirley também relacionou a passagem bíblica em que Jesus cura um paralítico ao papel da Igreja diante das situações de vulnerabilidade. Segundo sua interpretação, a atuação cristã não deve se limitar à assistência, mas contribuir para que as pessoas reconheçam sua própria capacidade de participar da construção de suas vidas e de sua sociedade.

A entrevistada citou ainda uma exortação apostólica do Papa Leão XIV, apresentada durante o programa como referência para a reflexão sobre a presença dos cristãos no mundo. Segundo Shirley, o documento destaca a situação dos mais pobres e daqueles que, além de carecerem de bens, também enfrentam falta de voz e reconhecimento de sua dignidade.

A discussão levou novamente ao tema do voto. Para Shirley, a decisão eleitoral deve ser relacionada aos projetos de sociedade defendidos pelos candidatos e não apenas à identificação individual com determinadas figuras políticas.

Desinformação e responsabilidade do eleitor

Outro eixo da entrevista foi o impacto da desinformação sobre o processo eleitoral. Shirley chamou atenção para a circulação de conteúdos pelas redes sociais e aplicativos de mensagens e defendeu que o eleitor verifique a origem das informações antes de compartilhá-las ou utilizá-las como base para uma decisão política.

“A gente enquanto comprometidos com a verdade precisa sempre checar as informações, qual é a fonte?”, questionou.

Ela também recomendou que, diante da dúvida sobre a veracidade de determinado conteúdo, o usuário evite compartilhá-lo até conseguir verificar sua procedência.

“A gente sabe que agora com WhatsApp e as coisas só circulam e aí criam um volume. Você não sabe por onde começou. E é importante ir atrás. E se a dúvida, não compartilhe”, afirmou.

Durante o programa, foi exibido um vídeo produzido por bispos do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que reúne Amazonas e Roraima. Na mensagem, os religiosos defenderam a participação eleitoral, alertaram contra a compra de votos e pediram atenção à trajetória e às propostas dos candidatos.

O vídeo também advertiu contra o uso da religião para pedir votos e afirmou que as igrejas não devem funcionar como currais eleitorais. A mensagem abordou ainda a preservação da Amazônia, os direitos dos povos indígenas, ribeirinhos e tradicionais e a defesa da democracia.

Ao comentar o conteúdo, Shirley afirmou que a manifestação dos bispos está relacionada à compreensão de uma Igreja que participa dos debates sociais sem se apresentar como partido político.

“Nós, enquanto Igreja Católica, não temos partido. Temos uma causa, o Evangelho e os pobres”, sintetizou a mensagem exibida no programa.

Política como participação cotidiana

Shirley também recuperou conceitos presentes em documentos do Papa Francisco para defender que a política não pode ser separada das relações econômicas e sociais. Ela citou a encíclica Fratelli Tutti e a noção de que a política pode estar vinculada à busca pelo bem comum.

Na entrevista, a educadora social relacionou essa concepção às chamadas pastorais sociais e às iniciativas de participação comunitária. Para ela, o acompanhamento das políticas públicas deve continuar depois das eleições, por meio do controle social.

“O voto não é tudo”, afirmou, retomando uma das ideias apresentadas no vídeo dos bispos. “Acompanhar quem foi eleito é nossa responsabilidade.”

A discussão também passou pela soberania nacional. Shirley afirmou que considera a soberania e a democracia valores dos quais não se deve abrir mão e associou essa posição à necessidade de avaliar os projetos defendidos pelos candidatos aos diferentes cargos em disputa.

Ela destacou ainda que a escolha para o Legislativo merece atenção específica, já que deputados e senadores participam diretamente da elaboração e aprovação de leis que afetam a vida cotidiana.

“Isso a gente tem que ter muita clareza. Então, olhar os nossos votos a deputado federal, a deputado estadual, ao governo, para que todos eles tenham sintonia com esses valores”, disse.

A participação das mulheres

O programa também discutiu o voto feminino. Ao ser questionada sobre ataques dirigidos às mulheres no debate político, Shirley rejeitou a ideia de que as eleitoras não tenham capacidade de avaliar suas escolhas.

Para ela, as decisões tomadas pelo Legislativo têm efeitos particularmente importantes sobre a vida das mulheres, especialmente daquelas que assumem responsabilidades de cuidado dentro das famílias e vivem em regiões com menor acesso a políticas públicas.

“A importância do voto feminino é dizer: ‘Ei, eu existo, eu mereço ter direitos’”, afirmou.

Shirley chamou atenção ainda para a situação das mulheres que vivem nas periferias e enfrentam jornadas extensas de trabalho e responsabilidades familiares. Nesse contexto, relacionou o debate eleitoral à proposta de redução da jornada de trabalho e ao fim da escala 6×1.

Segundo ela, discutir tempo de trabalho também significa discutir as condições necessárias para que as pessoas possam participar da vida comunitária e política.

“A gente quer tempo livre, a gente quer vida em dignidade, a gente quer cuidar enquanto mulher, mas também ser cuidada”, afirmou.

A entrevistada defendeu que a representação política das mulheres seja considerada na escolha dos candidatos e candidatas e que os projetos apresentados sejam avaliados a partir de seus impactos sobre a população feminina.

Igreja em Saída e participação comunitária

No decorrer da conversa, Shirley apresentou o movimento Igreja em Saída como um espaço de participação comunitária e de reflexão sobre questões sociais. Segundo ela, o grupo se reúne no terceiro domingo de cada mês, em uma missa realizada no Parque Rio Branco, em Fortaleza.

Ela convidou pessoas interessadas em participar das atividades e ressaltou a importância da atuação coletiva para a construção de iniciativas voltadas ao bem comum.

Shirley também mencionou as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, documento da CNBB utilizado como referência para a atuação pastoral. Ao comentar o texto, destacou a ideia de que as alegrias e sofrimentos da sociedade devem ser considerados parte das preocupações dos cristãos, especialmente diante da situação dos pobres e das pessoas que enfrentam diferentes formas de vulnerabilidade.

Nesse contexto, a entrevistada defendeu a necessidade de ampliar a participação social e aproximar diferentes grupos em torno da defesa de direitos.

“A gente precisa convidar, convocar […] a quem ainda tá indeciso no voto, a decidir, a não anular, a não se omitir diante desse momento histórico”, afirmou.

Para Shirley, a participação eleitoral não deve terminar no momento em que a urna é fechada. Ela defendeu que o eleitor acompanhe posteriormente o trabalho dos representantes escolhidos e utilize mecanismos de participação e controle social.

“A Igreja não fique em palavra”

Nas considerações finais, Shirley recorreu a uma oração atribuída a Dom Hélder Câmara, apresentada por ela como uma síntese de sua compreensão sobre a atuação cristã na sociedade. O texto aborda desigualdade, fome, guerra, concentração de riqueza e defesa da paz.

A entrevistada destacou especialmente a necessidade de que a atuação da Igreja não se limite ao discurso e às celebrações, mas esteja ligada a ações concretas diante das injustiças sociais.

“É importante, Mariama, que a igreja de teu filho não fique em palavra, não fique em aplauso”, afirmou, ao citar o texto.

A fala final também incorporou a defesa da diversidade religiosa e do respeito entre diferentes tradições. Shirley afirmou que a convivência democrática deve contemplar católicos, evangélicos, seguidores de religiões de matriz africana, pessoas de outras tradições religiosas e também quem não professa uma religião.

A entrevista terminou com a defesa de uma participação política vinculada à vida cotidiana, ao acompanhamento das políticas públicas e à avaliação dos projetos apresentados nas eleições. Ao longo da conversa, Shirley sustentou que a fé cristã pode orientar a participação cidadã sem que isso implique transformar igrejas em estruturas partidárias.

O debate foi realizado no Café com Democracia, programa apresentado por Luiz Regadas na Rádio e TV Atitude Popular, com transmissão de segunda a sexta-feira.

Referências citadas no programa

Durante a entrevista, foram mencionados documentos e autores ligados à tradição cristã e à reflexão social, entre eles Papa Francisco, Papa Leão XIV, Dom Hélder Câmara e Dom Pedro Casaldáliga. Também foram citados documentos como Fratelli Tutti, do Papa Francisco, e Laudato Si’, além das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, da CNBB.

https://www.youtube.com/watch?v=LP_0TUyBjA8

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