Experiências de Fortaleza, São Paulo e Porto Alegre mostram como organizações comunitárias articulam trabalho, renda, cultura e serviços a partir das necessidades dos próprios territórios
As periferias não aparecem apenas como lugares onde faltam serviços públicos ou oportunidades econômicas. Em diferentes regiões do país, organizações comunitárias têm criado formas próprias de cooperação para enfrentar problemas cotidianos, gerar renda e ampliar o acesso a direitos. Essa perspectiva foi discutida no programa Bancos da Democracia, exibido pela Rádio e TV Atitude Popular em 28 de setembro, que reuniu experiências do Conjunto Palmeiras, em Fortaleza (CE), do extremo sul de São Paulo (SP) e de Porto Alegre (RS). A conversa teve como tema o trabalho em rede nas periferias e mostrou como iniciativas locais articulam pessoas, organizações, equipamentos públicos e empreendimentos de economia solidária.
Participaram do programa Alânia Cerqueira, gestora da Macambira Sociocultural, de São Paulo; Catiana Oliveira, da coordenação do Consórcio Palmeira, no Conjunto Palmeiras, em Fortaleza; e Beatriz Pereira, coordenadora do Instituto Camélia, de Porto Alegre. A apresentação foi de Sara Gois. O programa é uma realização do Banco Palmas e da Rede Brasileira de Bancos Comunitários de Desenvolvimento, com apoio do Ministério do Trabalho e Emprego.
A discussão partiu de uma compreensão comum entre as convidadas: o território não pode ser reduzido aos seus indicadores econômicos ou demográficos. Ele também é formado pelas relações construídas ao longo do tempo, pela memória das comunidades, pelos conhecimentos acumulados e pelas iniciativas que surgem diante de necessidades concretas.
O território como espaço de construção coletiva
Alânia Cerqueira apresentou sua trajetória a partir do extremo sul de São Paulo, especialmente da região da subprefeitura do M’Boi Mirim, que reúne os distritos do Jardim Ângela e do Jardim São Luís. Segundo ela, sua relação com o território começou muito antes da atuação profissional. Foi ali que cresceu, constituiu sua família e desenvolveu parte de sua identidade.
“Esse território me viu adolescente e eu me vi adolescente nesse território. Esse território me viu mulher. Esse território me viu empurrando barriga, me viu empurrando menino e hoje me vê pelos cantos batendo perna ainda com filho e com neto”, afirmou.
A experiência acumulada no território levou à criação da Macambira Sociocultural, iniciativa que atua na organização e articulação de grupos periféricos. Alânia contou que sua trajetória anterior na iniciativa privada, inclusive na área administrativa da construção civil, acabou sendo incorporada ao trabalho desenvolvido com coletivos culturais e sociais.
Um dos exemplos apresentados foi a Rede São Luís, formada por organizações, equipamentos, grupos e coletivos do Jardim São Luís. A partir de uma demanda de investimento privado no território, surgiu a necessidade de identificar iniciativas que já produziam renda, cultura e serviços, mas que muitas vezes trabalhavam de maneira isolada.
O levantamento permitiu identificar grupos de artesanato, cultura, poesia, música, maracatu e outras atividades. A proposta passou a ser organizar essas iniciativas coletivamente, sem retirar delas sua autonomia, mas criando condições para que pudessem desenvolver projetos e ações conjuntas.
Para Alânia, a experiência demonstrou que muitas vezes o que falta às periferias não é capacidade de produzir, mas conexão entre aquilo que já existe. “A galera tava se virando, vendendo seus produtos, seus serviços e tudo desconectadozinho”, relatou.
A organização em rede permitiu que os grupos reconhecessem desafios comuns e compartilhassem recursos, conhecimentos e oportunidades. A lógica também modificou a maneira como os próprios moradores passaram a enxergar a atividade econômica desenvolvida no território.
Em outro momento da entrevista, Alânia resumiu uma das questões centrais de sua atuação: “Nós não somos violentos, nós reagimos às ausências”. Para ela, territórios historicamente marcados por estigmas precisam ser compreendidos a partir das condições concretas em que vivem seus moradores, incluindo problemas de transporte, saneamento, acesso à cultura e aos serviços públicos.
A geração de renda, nesse sentido, não deve ser tratada como substituta das políticas públicas. “Você gera renda, ótimo, mas você precisa de saúde, você precisa de educação, você precisa de transporte, você precisa de cultura”, afirmou.
A preocupação aparece também na defesa de uma relação mais próxima entre equipamentos públicos, organizações sociais e moradores. Na avaliação apresentada durante o programa, uma economia local fortalecida não resolve sozinha as necessidades de uma população que continua dependendo de serviços públicos e de políticas sociais.
Conjunto Palmeiras e a experiência do Consórcio Palmeira
No Conjunto Palmeiras, em Fortaleza, a construção comunitária apresentada por Catiana Oliveira tem uma história de décadas. Ela lembrou que o bairro surgiu a partir da organização dos próprios moradores e que a comunidade passou de uma ocupação com cerca de 5 mil residências, representada em uma maquete exposta na Associação do Conjunto Palmeiras, para uma área que atualmente reúne cerca de 13 mil residências e aproximadamente 40 mil habitantes, segundo seu relato.
Catiana atua como assistente social do Banco Palmas e também na Associação do Conjunto Palmeiras. Sua experiência está ligada à organização comunitária e à articulação entre diferentes entidades existentes no bairro.
Ela destacou que a economia solidária faz parte da trajetória do Conjunto Palmeiras e que a organização construída ao longo dos anos permitiu criar instituições e iniciativas voltadas para diferentes necessidades. Entre elas estão o Banco Palmas, a associação comunitária, equipamentos de assistência social, iniciativas culturais e cooperativas.
A partir dessa articulação surgiu o Consórcio Palmeira, apresentado como uma forma de reunir diferentes organizações do território para compartilhar responsabilidades e encaminhar projetos.
“Uma gestão compartilhada, isso é muito maravilhoso, onde a gente pode dividir as tarefas e os trabalhos”, afirmou Catiana.
A lógica do Consórcio também está relacionada à defesa da contratação de trabalhadores do próprio território. Catiana explicou que a preferência pela mão de obra local é entendida como uma forma de fortalecer a economia da comunidade e ampliar a circulação de renda dentro do próprio bairro.
A articulação não se restringe às entidades comunitárias. O Consórcio também recebe demandas relacionadas a escolas, unidades de saúde, assistência social e outros serviços públicos. A partir dessas demandas, as organizações procuram estabelecer diálogo com o poder público.
Para Catiana, esse papel ganha importância diante da expansão urbana da região sul de Fortaleza, onde novos conjuntos habitacionais vêm sendo construídos. A chegada de novos moradores cria o desafio de apresentar a essas populações a história do território e as iniciativas já existentes.
A proposta, portanto, não é apenas receber novos moradores, mas incorporá-los às redes existentes e ampliar sua participação na vida comunitária.
Tecnologias sociais e geração de renda
O trabalho desenvolvido no Conjunto Palmeiras também envolve iniciativas relacionadas à produção de energia, alimentação, resíduos e geração de renda.
Catiana relatou que a comunidade está na construção de sua quarta usina solar. A proposta apresentada durante o programa envolve moradores como participantes da iniciativa e prevê mecanismos para que a energia produzida também contribua para movimentar o comércio local.
Outra frente mencionada foi a utilização de resíduos orgânicos em biodigestores. A ideia é aproveitar resíduos produzidos nas cozinhas solidárias para gerar gás que possa ser utilizado em atividades produtivas, incluindo uma padaria vinculada à formação de mulheres da comunidade.
As hortas também integram esse conjunto de iniciativas. Segundo Catiana, uma das estruturas combina a produção de energia solar com o cultivo de alimentos.
O trabalho com resíduos aparece ainda em ações de cuidado com espaços públicos, como a limpeza de canteiros realizada por moradores. São iniciativas que, de acordo com o relato, procuram transformar necessidades concretas em soluções desenvolvidas pela própria comunidade.
A experiência do Conjunto Palmeiras mostra, dessa maneira, uma rede que não está limitada ao crédito ou ao empreendedorismo. Ela envolve alimentação, energia, cultura, assistência social, formação profissional e organização comunitária.
Porto Alegre: alimentação, mulheres e reconstrução
Em Porto Alegre, Beatriz Pereira apresentou uma experiência marcada pela atuação junto às mulheres negras e pelas consequências da inundação que atingiu o Rio Grande do Sul.
A sede do Instituto Camélia está localizada na Ilha da Pintada, no bairro Arquipélago de Porto Alegre, uma das áreas atingidas pela inundação. Beatriz contou que as atividades da instituição precisaram ser interrompidas durante o período mais crítico, mas que a retomada foi orientada pela importância do trabalho realizado junto às comunidades periféricas.
A atuação do Instituto inclui a Rede Quitanda de Mulheres Negras, iniciativa que articula produção de alimentos, agricultura familiar e geração de renda.
A proposta é aproximar mulheres do campo e mulheres das periferias urbanas, estabelecendo uma rede de circulação de alimentos produzidos pela agricultura familiar. O objetivo apresentado por Beatriz é ampliar o acesso a alimentos saudáveis em regiões onde produtos desse tipo podem chegar ao consumidor por preços elevados.
As quitandas funcionam também como espaços de comercialização do trabalho produzido por outras mulheres da comunidade. Além dos alimentos, podem receber produtos e serviços desenvolvidos localmente, ampliando as possibilidades de renda.
“Porque qual é a preocupação nossa, no nosso caso, que alimento está indo pra mesa da nossa população, principalmente a população periférica”, questionou Beatriz durante a entrevista.
A iniciativa busca alcançar especialmente mulheres que enfrentam dificuldades para conciliar trabalho e cuidados familiares. A ausência de creches e outras estruturas de apoio pode limitar as possibilidades de geração de renda, mesmo quando existem cursos e oportunidades de formação.
Para Beatriz, a formação precisa estar acompanhada de condições materiais para que o conhecimento adquirido possa se transformar em atividade econômica.
“Bom, e o que que eu faço agora? Então, o Instituto Camélia vem nessa pegada, faço, mas coloca-se todo o recurso possível para que essa mulher consiga andar”, explicou.
A atuação junto às mulheres também é apresentada como uma forma de ampliar a rede comunitária. Uma quitanda pode se transformar em ponto de circulação de produtos, conhecimentos e serviços produzidos pelas próprias moradoras.
Quando a política pública encontra a realidade do território
Um dos pontos de convergência entre as experiências apresentadas foi a necessidade de aproximar políticas públicas das condições concretas encontradas nas comunidades.
Durante o programa, Sara Gois destacou que políticas formuladas de maneira geral podem encontrar dificuldades quando precisam lidar com situações individuais. Como exemplo, relatou o caso de uma mãe de duas crianças autistas que perdeu o acesso a uma terapia porque não conseguia realizar diariamente o deslocamento necessário para chegar ao atendimento.
A situação foi utilizada para discutir como políticas públicas podem desconsiderar obstáculos relacionados à mobilidade, à rotina familiar e às características específicas de cada pessoa.
“O problema é que o sistema nos trata como caixinhas e nós não somos caixinhas”, afirmou Alânia.
Para as participantes, a organização territorial pode contribuir para identificar essas diferenças e aproximar os serviços das pessoas que precisam deles. O território funciona, nesse sentido, como espaço de mediação entre políticas públicas e necessidades concretas.
A discussão também questionou uma compreensão restrita de empreendedorismo. As experiências apresentadas mostram que a geração de renda pode estar vinculada a redes de solidariedade, cultura, alimentação, infraestrutura comunitária e utilização compartilhada de equipamentos.
Conhecimento também é recurso
Outro aspecto destacado por Alânia foi a existência de recursos que não aparecem necessariamente como dinheiro. Ela chamou atenção para os conhecimentos acumulados pelos moradores, os espaços disponíveis nos bairros e os equipamentos que podem ser compartilhados.
A Macambira, por exemplo, não possui uma sede própria, mas utiliza espaços existentes no território para realizar atividades. Praças, casas de cultura e outros equipamentos podem servir às iniciativas comunitárias.
A mesma lógica apareceu quando Alânia relatou o encontro com uma empreendedora que havia comprado uma máquina de corte a laser para ampliar sua produção, mas ainda não dominava completamente a tecnologia. A partir da rede construída no território, surgiu a possibilidade de encontrar um espaço público equipado com uma máquina semelhante, onde ela poderia se capacitar e, posteriormente, compartilhar esse conhecimento com outras pessoas.
Para Alânia, é esse tipo de conexão que transforma uma rede em uma ferramenta concreta de desenvolvimento local.
“O recurso humano é extremamente importante e farto no nosso território. O recurso estrutural, nós temos praças, nós temos equipamentos”, afirmou.
A experiência também mostra que um equipamento público pode ser utilizado de maneira mais ampla quando organizações comunitárias conhecem sua existência e estabelecem relações com quem administra esses espaços.
Da sobrevivência à permanência no território
A conversa entre as três convidadas ultrapassou a dimensão econômica ao discutir o direito de permanecer e viver nos próprios territórios.
Alânia lembrou que muitos jovens que cresceram no extremo sul de São Paulo deixaram a região em busca de oportunidades em áreas mais centrais. Ela própria permaneceu e passou a atuar profissionalmente na comunidade onde cresceu.
Sua preocupação, segundo relatou, é fazer com que as novas gerações encontrem razões para permanecer, não por falta de alternativas, mas porque possam reconhecer valor no lugar onde vivem.
A geração de renda aparece, então, associada à permanência e à construção de vínculos comunitários. Feiras, bibliotecas, praças, hortas, centros culturais e organizações sociais fazem parte de uma rede que permite aos moradores usufruírem do próprio território.
“Eu quero que o meu neto curta esse território que eu curti, que jogue bola, que jogue taco, que conheça as feiras solidárias de economia, que conheça essas instituições, que circule nas bibliotecas, que circule nas praças”, afirmou Alânia.
A fala sintetiza uma questão que esteve presente durante toda a entrevista: desenvolver economicamente uma periferia não significa apenas aumentar a renda de seus moradores. Significa também criar condições para que essas pessoas tenham acesso aos serviços, equipamentos e espaços que formam a vida cotidiana de uma cidade.
Redes que conectam experiências diferentes
Apesar das diferenças entre Fortaleza, São Paulo e Porto Alegre, as três experiências apresentadas possuem um ponto de aproximação: as soluções são construídas a partir das relações existentes nos territórios.
No Conjunto Palmeiras, a organização comunitária articula entidades de diferentes áreas e desenvolve iniciativas relacionadas a crédito, energia, alimentação, cultura e serviços. Em São Paulo, a Macambira atua na conexão entre grupos produtivos, equipamentos públicos e iniciativas culturais. Em Porto Alegre, o Instituto Camélia trabalha com mulheres, agricultura familiar, alimentação e geração de renda.
As experiências também mostram diferentes formas de relação com o poder público. Enquanto Catiana destacou iniciativas construídas pela própria comunidade mesmo sem financiamento governamental, Beatriz defendeu a participação das organizações periféricas em editais e programas públicos, entendendo que acessar recursos públicos também faz parte da disputa por direitos.
O que aparece em comum é a tentativa de evitar que a comunidade seja tratada apenas como beneficiária de políticas. As participantes descrevem moradores como sujeitos capazes de organizar projetos, produzir renda, compartilhar conhecimento e formular respostas para problemas locais.
Ao final do programa, Sara Gois anunciou um período de recesso do Bancos da Democracia em razão do calendário eleitoral, com retorno previsto para 19 de outubro. A edição deixou como principal contribuição a apresentação de experiências que mostram como redes comunitárias podem transformar relações econômicas e sociais a partir das necessidades identificadas dentro dos próprios territórios.
Mais do que apresentar modelos prontos, as convidadas mostraram processos em construção. São iniciativas que partem de problemas concretos e procuram respostas por meio da cooperação, da organização comunitária e da circulação de conhecimentos. Em diferentes regiões do país, a economia solidária aparece nessas experiências não apenas como uma forma de geração de renda, mas como parte de uma disputa sobre quem participa das decisões, quem acessa os recursos existentes e como cada comunidade constrói suas próprias possibilidades de desenvolvimento.
Assista ao programa
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