Especialistas defendem que publicidade de apostas seja proibida e afirmam que a expansão das bets já produz impactos na saúde mental, no endividamento das famílias e na proteção de crianças e adolescentes
A explosão das plataformas de apostas esportivas durante a Copa do Mundo recolocou no centro do debate um tema que já vinha preocupando pesquisadores e especialistas em saúde pública: o avanço das bets sobre o orçamento das famílias brasileiras. Enquanto o setor amplia sua presença por meio de campanhas publicitárias, patrocínios esportivos e ações de influenciadores digitais, cresce também a pressão para que o Congresso Nacional endureça as regras sobre propaganda dessas empresas.
O tema foi debatido no programa *Vozes pela Democracia, produzido pela Atitude Popular em parceria com o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC). Participaram da edição a jornalista e especialista em Gestão de Políticas Públicas *Ramênia Vieira e o psicólogo, mestre em Psicologia, doutor em Políticas Públicas e especialista em Relações Institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), Filipe Asth.
Segundo Ramênia Vieira, a discussão vai muito além da existência das apostas esportivas. Para ela, o principal problema está na forma como esse mercado foi estruturado e promovido.
“A discussão principal não é se a gente é favorável ou contrário às bets, mas que qualquer atividade econômica capaz de produzir impactos relevantes na saúde e no consumo precisa funcionar dentro de regras que protejam direitos.”
Ela lembra que os jogos de azar permaneceram proibidos no Brasil desde a década de 1940 e que, em 2018, a autorização para as apostas esportivas ocorreu sem que houvesse regulamentação efetiva do mercado. Esse período de vazio regulatório, entre 2018 e 2023, permitiu uma expansão acelerada das plataformas.
Para a pesquisadora, o fenômeno não pode ser compreendido apenas como uma atividade econômica.
“O problema não é só apostar. Existe uma indústria da comunicação funcionando por trás disso.”
Segundo ela, as empresas utilizam publicidade permanente, algoritmos, plataformas digitais, marketing de influência, impulsionamento e patrocínio esportivo para manter as apostas presentes no cotidiano dos brasileiros.
“A pessoa não vai atrás da publicidade de bets. Ela é encontrada pela publicidade.”
Na avaliação de Ramênia, essa presença constante transforma as apostas em algo aparentemente normal.
“A aposta deixou de ser um produto e passou a fazer parte da paisagem cotidiana.”
Ela afirma que a publicidade raramente vende o jogo em si.
“Ela vende sucesso, liberdade financeira, emoção, pertencimento, masculinidade, competência esportiva e diversão.”
Esse modelo de comunicação, explica, reduz a percepção de que se trata de uma atividade de risco, especialmente quando influenciadores digitais apresentam estratégias de ganhos, exibem apostas ao vivo e divulgam códigos promocionais.
Saúde pública e não apenas mercado
Filipe Asth afirma que o crescimento das apostas já produz consequências que ultrapassam o campo econômico e exigem uma resposta baseada na saúde pública.
“O estado está tendo que correr atrás depois de um tempo tão longo sem regulamentar o setor.”
Representando o IEPS, ele explicou que a instituição atua na secretaria executiva da Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental, responsável por acompanhar projetos relacionados ao tema.
Segundo Asth, a frente identificou mais de 230 projetos de lei em tramitação sobre apostas, sendo a regulação da publicidade um dos assuntos mais recorrentes.
Em dezembro de 2025, o IEPS apresentou um dossiê sobre os impactos das apostas online.
De acordo com o estudo citado pelo pesquisador, os custos sociais associados aos jogos chegaram a R$ 38 bilhões em 2025, sendo cerca de R$ 30 bilhões relacionados diretamente à saúde.
“O setor vinha sendo tratado apenas como uma atividade econômica, mas o impacto sobre a saúde já era gigantesco.”
Para ele, esse cenário exige uma mudança de perspectiva.
“A gente precisa deixar de tratar esse setor apenas como um mercado e passar a enxergá-lo como um problema de saúde pública.”
Avanços ainda considerados insuficientes
Asth reconhece que o governo federal adotou medidas importantes após a regulamentação das apostas, entre elas a criação de protocolos clínicos para atendimento de pessoas com transtorno do jogo, cursos de capacitação para profissionais da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), teleatendimento e plataformas de autoexclusão.
Mesmo assim, considera que essas iniciativas ainda não enfrentam a origem do problema.
“As medidas são fundamentais, mas precisam estar acompanhadas de uma ação mais geral, que é estancar a origem do problema.”
Segundo ele, uma plataforma de autoexclusão já contabiliza cerca de 700 mil pedidos de bloqueio voluntário.
Ainda assim, dados do Levantamento Nacional sobre Álcool e Drogas (LENAD), citados durante a entrevista, apontam que aproximadamente 1,4 milhão de brasileiros já apresentam critérios compatíveis com transtorno do jogo e cerca de 10 milhões demonstram comportamento considerado de risco.
“A gente vai colher agora as consequências da campanha agressiva de publicidade das apostas durante a Copa.”
Proibição da publicidade
Na avaliação de Filipe Asth, restringir a propaganda tornou-se prioridade.
“A gente precisa dar um primeiro passo que é fundamental: a proibição de propaganda.”
Segundo ele, projetos apresentados na Câmara dos Deputados e no Senado propõem proibir publicidade, patrocínio e campanhas promocionais das plataformas de apostas, além de reforçar mecanismos de proteção à saúde e responsabilização das empresas.
Ao encerrar sua participação, resumiu a posição defendida pelos especialistas.
“Regular esse produto e o ambiente comercial que produz esse risco é tão necessário quanto cuidar de quem já adoeceu.”
Experiência internacional
Ramênia Vieira lembrou que diversos países já adotaram medidas mais rigorosas.
Ela citou que a Itália restringiu fortemente a publicidade das apostas, a Espanha também endureceu as regras e a Inglaterra retirou as marcas de apostas da parte frontal dos uniformes dos clubes da principal liga de futebol.
Segundo ela, essas decisões refletem uma compreensão diferente sobre o problema.
“Vários países passaram a entender a publicidade de apostas como um tema de saúde pública e proteção do consumidor.”
Para a jornalista, o debate brasileiro precisa deixar de se concentrar apenas na arrecadação econômica.
“A discussão envolve saúde pública, proteção dos consumidores, direitos das crianças e adolescentes e, sobretudo, o direito à comunicação.”
Ela conclui defendendo um ambiente digital mais responsável.
“Nós precisamos de regras que garantam transparência e responsabilidade na publicidade e coloquem a proteção das pessoas acima dos interesses comerciais.”
Referências
Vozes pela Democracia. Produção: Atitude Popular e Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC). 2026.
Lei nº 14.790/2023. Regulamentação das apostas de quota fixa no Brasil.
“A gente precisa restringir ao máximo essa regulamentação”
Especialistas defendem que publicidade de apostas seja proibida e afirmam que a expansão das bets já produz impactos na saúde mental, no endividamento das famílias e na proteção de crianças e adolescentes
A explosão das plataformas de apostas esportivas durante a Copa do Mundo recolocou no centro do debate um tema que já vinha preocupando pesquisadores e especialistas em saúde pública: o avanço das bets sobre o orçamento das famílias brasileiras. Enquanto o setor amplia sua presença por meio de campanhas publicitárias, patrocínios esportivos e ações de influenciadores digitais, cresce também a pressão para que o Congresso Nacional endureça as regras sobre propaganda dessas empresas.
O tema foi debatido no programa *Vozes pela Democracia, produzido pela Atitude Popular em parceria com o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC). Participaram da edição a jornalista e especialista em Gestão de Políticas Públicas *Ramênia Vieira e o psicólogo, mestre em Psicologia, doutor em Políticas Públicas e especialista em Relações Institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), Filipe Asth.
Segundo Ramênia Vieira, a discussão vai muito além da existência das apostas esportivas. Para ela, o principal problema está na forma como esse mercado foi estruturado e promovido.
“A discussão principal não é se a gente é favorável ou contrário às bets, mas que qualquer atividade econômica capaz de produzir impactos relevantes na saúde e no consumo precisa funcionar dentro de regras que protejam direitos.”
Ela lembra que os jogos de azar permaneceram proibidos no Brasil desde a década de 1940 e que, em 2018, a autorização para as apostas esportivas ocorreu sem que houvesse regulamentação efetiva do mercado. Esse período de vazio regulatório, entre 2018 e 2023, permitiu uma expansão acelerada das plataformas.
Para a pesquisadora, o fenômeno não pode ser compreendido apenas como uma atividade econômica.
“O problema não é só apostar. Existe uma indústria da comunicação funcionando por trás disso.”
Segundo ela, as empresas utilizam publicidade permanente, algoritmos, plataformas digitais, marketing de influência, impulsionamento e patrocínio esportivo para manter as apostas presentes no cotidiano dos brasileiros.
“A pessoa não vai atrás da publicidade de bets. Ela é encontrada pela publicidade.”
Na avaliação de Ramênia, essa presença constante transforma as apostas em algo aparentemente normal.
“A aposta deixou de ser um produto e passou a fazer parte da paisagem cotidiana.”
Ela afirma que a publicidade raramente vende o jogo em si.
“Ela vende sucesso, liberdade financeira, emoção, pertencimento, masculinidade, competência esportiva e diversão.”
Esse modelo de comunicação, explica, reduz a percepção de que se trata de uma atividade de risco, especialmente quando influenciadores digitais apresentam estratégias de ganhos, exibem apostas ao vivo e divulgam códigos promocionais.
Saúde pública e não apenas mercado
Filipe Asth afirma que o crescimento das apostas já produz consequências que ultrapassam o campo econômico e exigem uma resposta baseada na saúde pública.
“O estado está tendo que correr atrás depois de um tempo tão longo sem regulamentar o setor.”
Representando o IEPS, ele explicou que a instituição atua na secretaria executiva da Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental, responsável por acompanhar projetos relacionados ao tema.
Segundo Asth, a frente identificou mais de 230 projetos de lei em tramitação sobre apostas, sendo a regulação da publicidade um dos assuntos mais recorrentes.
Em dezembro de 2025, o IEPS apresentou um dossiê sobre os impactos das apostas online.
De acordo com o estudo citado pelo pesquisador, os custos sociais associados aos jogos chegaram a R$ 38 bilhões em 2025, sendo cerca de R$ 30 bilhões relacionados diretamente à saúde.
“O setor vinha sendo tratado apenas como uma atividade econômica, mas o impacto sobre a saúde já era gigantesco.”
Para ele, esse cenário exige uma mudança de perspectiva.
“A gente precisa deixar de tratar esse setor apenas como um mercado e passar a enxergá-lo como um problema de saúde pública.”
Avanços ainda considerados insuficientes
Asth reconhece que o governo federal adotou medidas importantes após a regulamentação das apostas, entre elas a criação de protocolos clínicos para atendimento de pessoas com transtorno do jogo, cursos de capacitação para profissionais da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), teleatendimento e plataformas de autoexclusão.
Mesmo assim, considera que essas iniciativas ainda não enfrentam a origem do problema.
“As medidas são fundamentais, mas precisam estar acompanhadas de uma ação mais geral, que é estancar a origem do problema.”
Segundo ele, uma plataforma de autoexclusão já contabiliza cerca de 700 mil pedidos de bloqueio voluntário.
Ainda assim, dados do Levantamento Nacional sobre Álcool e Drogas (LENAD), citados durante a entrevista, apontam que aproximadamente 1,4 milhão de brasileiros já apresentam critérios compatíveis com transtorno do jogo e cerca de 10 milhões demonstram comportamento considerado de risco.
“A gente vai colher agora as consequências da campanha agressiva de publicidade das apostas durante a Copa.”
Proibição da publicidade
Na avaliação de Filipe Asth, restringir a propaganda tornou-se prioridade.
“A gente precisa dar um primeiro passo que é fundamental: a proibição de propaganda.”
Segundo ele, projetos apresentados na Câmara dos Deputados e no Senado propõem proibir publicidade, patrocínio e campanhas promocionais das plataformas de apostas, além de reforçar mecanismos de proteção à saúde e responsabilização das empresas.
Ao encerrar sua participação, resumiu a posição defendida pelos especialistas.
“Regular esse produto e o ambiente comercial que produz esse risco é tão necessário quanto cuidar de quem já adoeceu.”
Experiência internacional
Ramênia Vieira lembrou que diversos países já adotaram medidas mais rigorosas.
Ela citou que a Itália restringiu fortemente a publicidade das apostas, a Espanha também endureceu as regras e a Inglaterra retirou as marcas de apostas da parte frontal dos uniformes dos clubes da principal liga de futebol.
Segundo ela, essas decisões refletem uma compreensão diferente sobre o problema.
“Vários países passaram a entender a publicidade de apostas como um tema de saúde pública e proteção do consumidor.”
Para a jornalista, o debate brasileiro precisa deixar de se concentrar apenas na arrecadação econômica.
“A discussão envolve saúde pública, proteção dos consumidores, direitos das crianças e adolescentes e, sobretudo, o direito à comunicação.”
Ela conclui defendendo um ambiente digital mais responsável.
“Nós precisamos de regras que garantam transparência e responsabilidade na publicidade e coloquem a proteção das pessoas acima dos interesses comerciais.”
Referências
Vozes pela Democracia. Produção: Atitude Popular e Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC). 2026.
Lei nº 14.790/2023. Regulamentação das apostas de quota fixa no Brasil.
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