Atitude Popular

“A história do Brasil não é uma história de períodos democráticos, é uma história de golpes”

Para o professor Nelson Campos, prisão de Bolsonaro é avanço civilizatório, mas não encerra o bolsonarismo nem a tradição golpista que atravessa a República

A prisão de Jair Bolsonaro não encerra um ciclo; expõe, antes de tudo, a persistência de uma cultura política marcada por golpes, impunidade e manipulação de massas. É assim que o professor Nelson Campos, mestre em Educação pela UFC, lê o momento atual.

Em entrevista ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas e veiculado pela TV Atitude Popular e pela Rádio Ceará FM 87.1, na estreia do programa na emissora, o educador analisou o significado da prisão do ex-presidente, o peso histórico da responsabilização de militares golpistas e os limites da ofensiva da extrema direita no Congresso.

“A história do Brasil não é uma história de períodos democráticos, é uma história de golpes”, resumiu o professor, ao contextualizar Bolsonaro como mais um capítulo de uma longa tradição de rupturas institucionais.

De militar inexpressivo a catalisador do ódio

Nelson Campos começou pela biografia política de Bolsonaro. Longe de enxergá-lo como um outsider que rompeu com o sistema, o professor lembrou que o ex-capitão sempre esteve integrado às franjas mais sombrias do aparelho de Estado.

Ele recordou o episódio ainda no Exército, quando Bolsonaro se envolveu em plano para explodir a adutora do Rio Guandu, no Rio de Janeiro – ato que definiu como “terrorista” – e que resultou em sua saída das Forças Armadas. A partir daí, veio a carreira política no Rio, sempre apoiada por setores armados à margem da lei.

“Bolsonaro sempre foi uma pessoa absolutamente inexpressiva, até como militar. Foi afastado porque quis explodir a adutora do Guandu. Depois virou vereador e deputado federal sempre com apoio das milícias”, afirmou.

Na Câmara dos Deputados, o professor destacou o histórico de irrelevância legislativa do então parlamentar:

“Durante 28 anos, apresentou apenas dois projetos de lei. Ele sempre esteve no baixo clero, não fez nada de relevante.”

O salto para a Presidência, em 2018, foi lido por Nelson como um choque de realidade sobre o país:

“Eu achava que aquela candidatura era só um censo demográfico para saber quantas pessoas estúpidas existiam no Brasil. Fiquei absolutamente surpreso com o resultado.”

Mais do que a figura de Bolsonaro, o que espanta o professor é a adesão acrítica de setores instruídos:

“O que me espanta é como pessoas que não são estúpidas apoiam um sujeito absolutamente estúpido. Isso é que me deixa pasmo.”

“Uma virtude moral só”

Ao longo do mandato, Nelson levou o debate para as salas de aula. Em cursos diferentes, repetia o mesmo desafio aos alunos: apontar uma qualidade ética em Bolsonaro.

“Eu perguntava: me apresentem uma só virtude moral desse indivíduo para justificar o apoio. A resposta nunca vinha. Falavam de Lula, da Venezuela, de tudo, menos dele.”

A única “virtude” mencionada por um aluno, segundo o professor, foi o fato de Bolsonaro ter “cabelo liso” – resposta que ele classificou como carregada de racismo, ao supor superioridade estética de um tipo físico sobre outro.

Para Nelson, o núcleo bolsonarista não é composto exatamente por eleitores conscientes, mas por um rebanho mobilizado por ressentimento e interesses imediatos:

“O Bolsonaro não tem defensores, tem seguidores. É um rebanho que o segue sem saber por quê, muitas vezes usado por políticos que lucram eleitoralmente com esse gado.”

Prisão não é perseguição, é consequência

Ao contrário da narrativa de perseguição política, defendida pelo ex-presidente e sua família, o professor é categórico ao afirmar que a prisão decorre de crimes concretos:

“Bolsonaro está preso não por perseguição, mas pelos crimes que cometeu. E foi julgado por alguns; ainda há outros que serão levados adiante.”

Isso, porém, não significa o fim automático do bolsonarismo. Nelson lembra que a extrema direita mantém capilaridade, financiamento e figuras fortes em estados estratégicos – especialmente onde há conexões entre governos locais, crime organizado e grandes esquemas financeiros.

Ele citou o caso do Banco Master, das ligações com governos estaduais como o do Rio de Janeiro e do Distrito Federal, e a atuação de figuras como Ciro Nogueira e Arthur Lira na blindagem de interesses econômicos e políticos.

“Quem está do lado desses bancos e esquemas? Ciro Nogueira, Arthur Lira. Nunca se roubou tanto como no orçamento secreto.”

“Pela primeira vez, militares estão presos”

Se a prisão de Bolsonaro não liquida o bolsonarismo, ela abre um precedente histórico: pela primeira vez, generais e oficiais de alta patente são responsabilizados por tentativa de golpe.

Nelson fez um extenso percurso pela história republicana para mostrar a recorrência da participação militar em rupturas institucionais – desde Deodoro da Fonseca, em 1889, até o golpe de 1964, passando por Getúlio Vargas em 1930 e 1937, a crise da renúncia de Jânio Quadros e a resistência à posse de João Goulart.

“Pense: quantos militares foram punidos em 64? Nenhum. Golpe atrás de golpe, e impunidade atrás de impunidade.”

Ao comentar o caso do general Augusto Heleno, que agora se diz portador de Alzheimer desde 2018 para tentar obter prisão domiciliar, o professor ironizou:

“Se ele diz que está doente desde 2018, isso inclui todo o período do governo Bolsonaro. Ele já estava doente, mas doente de estupidez.”

Para Nelson, o fato de oficiais envolvidos em conspiração golpista estarem presos não resolve tudo, mas rompe um tabu:

“É a primeira vez na história que militares estão presos por tentativa de golpe. Isso tem um peso simbólico enorme. A mensagem é: não é mais tão simples rasgar a Constituição.”

Corrupção, rachadinhas e o “negócio do Jair”

O professor também lembrou os casos de enriquecimento da família Bolsonaro, com base em informações já divulgadas pela imprensa, como a compra de dezenas de imóveis em dinheiro vivo e o esquema de “rachadinhas”.

“Rachadinha é uma palavra usada para suavizar o que é, de fato, peculato, crime. O cidadão comprou mansão de mais de 6 milhões sem explicar de onde veio o dinheiro. A família movimentou 42 milhões em um ano.”

Para ele, identificar corrupção não é tarefa impossível:

“Quer saber quem é corrupto? Compare o salário com o patrimônio. Pergunte de onde veio a diferença.”

Nelson criticou a tentativa de setores do Congresso de aprovar anistia ampla ou atenuar penas para envolvidos nos atos golpistas:

“Eles vão tentar anistia, dosimetria favorável, qualquer manobra. O objetivo central desses políticos de extrema direita é proteger Bolsonaro, porque se ele cai, caem com ele os que foram eleitos usando seu nome.”

O Congresso, o toma-lá-dá-cá e o governo Lula

Ao longo da entrevista, Luiz Regadas trouxe para a conversa a atuação de nomes como Davi Alcolumbre e Hugo Motta, que pressionam por cargos estratégicos – como Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Cade e CVM – em troca de apoio em votações importantes.

Nelson reconheceu que o governo Lula opera em ambiente hostil, mas destacou que, apesar da chantagem política, houve avanços concretos:

ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda até 5 mil reais, o que, segundo o presidente, equivale na prática a um “14º salário” para quem ganha menos
criação da Universidade Indígena e da Universidade do Esporte
retomada da valorização do professor e da educação pública, com eventos como a entrega de carteiras de trabalho a docentes no Centro de Convenções do Ceará

“O governo Lula é um governo que procura favorecer a grande maioria da população, os trabalhadores, os mais pobres. Mas há uma elite que não quer pagar impostos e usa o Congresso para defender seus privilégios”, avaliou.

Ao mesmo tempo, ele criticou duramente o comportamento da bancada do agronegócio e de parlamentares que derrubaram vetos presidenciais sobre legislação ambiental:

“Derubaram mais de 50 vetos em defesa do meio ambiente. Estão pouco ligando para a preservação da Amazônia, para a contaminação de rios, para o futuro do país.”

Desemprego em queda e disputa de narrativas

Já no fim do programa, Regadas trouxe o dado divulgado pelo IBGE: taxa de desemprego em 5,4%, a menor em 13 anos. Nelson lembrou que, mesmo diante de indicadores positivos, persiste uma máquina de desinformação tentando colar no governo atual a imagem de caos econômico.

“Diziam que, se o ‘comunismo’ voltasse ao poder, o Brasil viraria uma Venezuela, que as igrejas seriam fechadas. É mentira. É fake news o tempo inteiro.”

O professor comparou o desempenho econômico brasileiro com o de outros países do G20 e mencionou que, enquanto o Brasil cresce, os Estados Unidos têm queda em certos indicadores, pressionados por tarifas adotadas pelo governo Trump, que atingem também o consumidor norte-americano.

Em outro momento, conectou o avanço da extrema direita global aos casos de corrupção e autoritarismo em líderes como o primeiro-ministro de Israel, que admitiu envolvimento em escândalos de suborno, e ao próprio Trump, descrito por ele como “ególatra, racista, homofóbico e misógino”.

Schopenhauer, estupidez e o desafio democrático

Para concluir, Nelson recorreu ao filósofo alemão Arthur Schopenhauer para falar sobre a mentalidade que sustenta o bolsonarismo e outras formas de extremismo.

“A estupidez humana é uma coisa impressionante. Quanto mais estúpida é uma pessoa, mais convencida está de que tem razão e que todos os outros estão errados.”

A prisão de Bolsonaro, a responsabilização de militares e o avanço de políticas sociais e econômicas sob o governo Lula, na leitura do professor, apontam para um possível ponto de inflexão na história brasileira. Mas a batalha, insiste, está longe de acabar.

O bolsonarismo, como expressão organizada de uma extrema direita que se alimenta de golpes, fake news, ressentimento e interesses econômicos poderosos, não se encerra com a queda de seu líder. O que está em jogo é se o país será capaz – ou não – de quebrar o ciclo descrito por ele já no início da entrevista:

“A história do Brasil não é uma história de períodos democráticos, é uma história de golpes. A pergunta é: vamos repetir o roteiro ou aprender, pela primeira vez, com o que está acontecendo agora?”

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