Marcelo Marcengo avalia “operação contra Lula 2026”, critica a distorção midiática do caso Banco Master e defende comunicação simples para furar bolhas nas redes
Depois de duas semanas sem o encontro habitual, o Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, voltou a discutir os sinais antecipados do embate de 2026: a disputa por narrativas, a judicialização como instrumento de desgaste político e o uso crescente de tecnologias — especialmente IA — na militância digital. O programa reuniu a apresentadora Sara Goes, o convidado Marcelo Marcengo (advogado e comunicador) e comentários de Sandra Helena, em uma conversa que conectou Carnaval, mídia corporativa e o risco de um “remake” da Lava Jato em novo figurino.
O ponto de partida do debate foi a leitura de que há uma “operação contra Lula 2026” em curso, com engrenagens múltiplas: campanhas de desinformação, enquadramentos jornalísticos que deslocam o foco do fato para a conveniência política e a tentativa de reaproveitar fórmulas já testadas no país. A conversa, no entanto, não ficou na denúncia abstrata: Marcengo insistiu na necessidade de traduzir o que está acontecendo em linguagem acessível, capaz de circular fora das bolhas.
A crítica ao enquadramento “pró-Estados Unidos” e a pergunta da Globo a Lula
Entre os exemplos citados no programa, Marcengo comentou a cobertura televisiva da viagem internacional de Lula e uma pergunta feita por um repórter em entrevista coletiva. Na leitura dele, há um movimento de enquadramento que ultrapassa o antipetismo e se aproxima de uma adesão automática à agenda de Washington. “A Rede Globo, nesse momento, ela não é nem só antiLula, ela é pró Trump… pró Estados Unidos valendo”, afirmou, ao comentar uma sequência de reportagens e o uso recorrente do termo “regime” para países rivais dos EUA.
A questão, para Marcengo, não é apenas o viés político — é também o empobrecimento da apuração e da linguagem. Ele criticou o modo como certas perguntas são formuladas e como a ambiguidade vira armadilha para fabricar manchete. Ao comentar a cena da coletiva, classificou: “Foi uma pergunta muito sem vergonha… um misto de cara de pau, má vontade e um misto de burrice também”. Para ele, o problema é estrutural: profissionais “compram um discurso” e repetem sem checar o sentido, numa engrenagem que já chega pronta ao público.
“Tem gente demais falando coisas demais sobre as coisas que não sabem”
Marcelo Marcengo trouxe para o centro do debate uma crise mais ampla: a do jornalismo como mediação qualificada do real. Ele relatou experiência longa em televisão e disse ter visto rotinas em que a ignorância não é exceção, mas método. “Tem gente demais falando coisas demais sobre as coisas que não sabem”, criticou, defendendo que a pressão da internet — onde “explode em poucos minutos” — deveria obrigar maior rigor.
Nesse ponto, ele ampliou o diagnóstico para além da direita: o vocabulário pronto atravessa campos políticos. Marcengo observou que até pessoas bem-intencionadas reproduzem termos como “regime” por hábito, sem perceber que isso normaliza uma moldura ideológica. “As pessoas perdem a capacidade de questionar”, disse, e propôs um teste de coerência: se se fala “regime” para uns, por que não falar também “regime do Donald Trump”?
Banco Master e o risco de um “remake” da Lava Jato
O programa também discutiu a tentativa de reencenar, com novos personagens, a lógica de desgaste político que marcou a Lava Jato. Marcengo apontou que certos casos são reorganizados para parecerem escândalos do Executivo, mesmo quando o núcleo do problema está em outra esfera — e que isso serve para produzir um roteiro moral, com heróis e vilões pré-escolhidos.
No caso do Banco Master, ele afirmou que há um esforço para deslocar o foco para o Planalto e para o Judiciário, enquanto elementos centrais do caso ficam fora do enquadramento. “A imprensa… distorcendo o caso do Banco Master, transformando… num caso do Palácio do Planalto”, disse. Para ele, esse tipo de rearranjo é parte do terreno que pavimenta 2026: a acusação vira clima, e o clima vira campanha.
A estratégia da extrema direita e o “problema do espalhamento” da comunicação
Ao tratar de comunicação política, Marcengo concordou que o governo produz peças eficazes, mas chamou atenção para a distribuição: campanha boa, sem capilaridade, permanece dentro do circuito dos já convencidos. “O problema não tá na campanha, o problema tá no espalhamento da campanha”, avaliou. Ele citou o TikTok como exemplo de ambiente onde a mensagem governista quase não entra, enquanto a extrema direita “fura a bolha” com discursos curtos, repetitivos e emocionalmente calibrados.
Na visão do convidado, a esquerda paga um preço por sofisticar demais a fala pública — e por abandonar o corpo a corpo das ideias. A formulação mais forte veio quando ele afirmou: “A esquerda virou esquerda de gabinete”. Segundo Marcengo, antes, mesmo sem internet, havia presença cotidiana em sindicatos, bairros e ruas, com mensagens simples e insistentes. Hoje, ele vê excesso de pautas simultâneas e disputas internas por “like”, enquanto o adversário elege “duas, três coisinhas” e martela até fixar.
“Eu quero falar pra tiazinha que lava roupa para sobreviver”
Marcelo Marcengo insistiu que o desafio de 2026 não será vencido com jargão. Ele disse que seu objetivo, ao tratar de temas jurídicos, é traduzir “juridiquês” para quem não tem obrigação de dominar o assunto. “Eu não quero falar para meia dúzia de gente. Eu quero falar pra tiazinha que lava roupa para sobreviver. Eu quero que ela entenda”, afirmou. E relatou que, ao explicar termos financeiros do caso Banco Master de forma didática, recebeu comentários de gente dizendo: “agora entendi”.
O argumento, para ele, é direto: se a extrema direita venceu com simplificação agressiva, a resposta não pode ser um texto inacessível circulando apenas entre iniciados. É preciso escolher pautas de alto impacto e apelo transversal — ele citou a jornada 6×1 como exemplo de tema que mobiliza inclusive bolsonaristas — e investir em repetição, clareza e presença em plataformas populares.
O vocabulário como campo de disputa: “sistema”, “narrativa” e a batalha semântica
Outro trecho do debate tratou da disputa por palavras. Marcengo defendeu que a esquerda não deve abandonar termos só porque foram apropriados pela extrema direita. Para ele, a manipulação funciona porque distorce “um pedaço de verdade”: existe “sistema”, existe concentração de poder, existem interesses econômicos que travam mudanças. “Você pega uma verdade e distorce uns pedacinhos”, explicou, defendendo que o caminho é disputar o significado: dizer quem compõe o “sistema”, como opera, que votações o expressam, que interesses o financiam.
A conclusão dele foi pragmática: comunicar é também minuciar o cotidiano do poder para gente comum, sem pedantismo e sem medo de disputar termos. “Temos que usar” certas palavras, argumentou, citando que até “narrativa” é indispensável para explicar o jogo simbólico que já começou.
Ao fim, o programa reforçou que 2026 não será apenas uma eleição: será um plebiscito travado em telas, memes, recortes e enquadramentos — e que a vantagem do adversário não é só dinheiro ou estrutura, mas disciplina comunicacional. Para Marcengo, a resposta passa por reaprender o básico: linguagem simples, distribuição inteligente e uma militância capaz de disputar o senso comum todos os dias.
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