Maioria dos jovens que ascendem na política brasileira defende pautas conservadoras e que impõem retrocesso, como Nikolas e Pavanato. Ana Elisa quebra essa “tradição”
Por Eliara Santana*
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).
Com apenas 21 anos, Ana Elisa Santos, do PT, foi eleita a mais jovem deputada federal por Minas Gerais. E não apenas isso: foi a segunda mais votada no estado, obtendo a marca de 524 mil votos, ficando atrás apenas de Nikolas Ferreira, e é a mulher mais votada em Minas Gerais.
Nascida na cidade mineira de Divinópolis – a mesma da escritora Adélia Prado –, Ana Elisa é filha de mãe solo, negra e estudante de direito. Ela é influenciadora, produz conteúdo digital e tem mais de dois milhões de seguidores no Insta. Entre suas pautas está a defesa do fim da escala 6×1, tema sobre o qual fala com muita propriedade, e a defesa da juventude, questionando duramente as críticas de que a geração Z é desinteressada. Sua atuação político-digital reflete seu posicionamento firme: mesmo com tantos seguidores e ganhando o valor de 1.700 reais num estágio, Ana Elisa recusou propostas de publicidade criticando o “capitalismo exacerbado”.
Nos últimos tempos, talvez pelo combo igrejas neopentecostais + avanço do bolsonarismo, a maioria dos jovens que ascendem na política brasileira é de conservadores que têm pautas que impõem retrocesso, como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato. Ana Elisa quebra essa “tradição” e se impõe como uma representante de esquerda potente nessa nova configuração de um mundo político-midiático-digital.
Esse “novo mundo” é uma realidade na contemporaneidade e não há como voltar atrás, privilegiando somente formas antigas de comunicar. Também não é mais possível separar as instâncias – política se faz na e com a mídia, e a comunicação constitui o espaço político. Em entrevista ao G1 Centro-Oeste, Ana Elisa afirmou, logo após ser eleita: “Eu devo este resultado nas urnas ao meu esforço, à minha persistência. Mesmo com tantos impasses e com tantas pessoas que me prejudicaram no espectro político, eu continuei ativa. Persisti muito e devo isso à minha construção nas redes sociais”.
Essa fala da jovem deputada federal traz dois recortes contextuais de extrema relevância. Primeiro, ela mostra que já havia colocado em funcionamento o recado deixado aos jovens pelo presidente Lula, na entrevista ao podcast Flow, em 2 de outubro. Naquela ocasião, o presidente falou aos jovens que aqueles que estão insatisfeitos devem entrar na política e devem ser aquilo que eles querem ver. Ana Elisa está exatamente nesse movimento.
O outro recorte é em relação à construção de sua trajetória nas redes sociais. Mais do que nunca, é preciso estar nesse ambiente digital, é preciso comunicar nesse ambiente digital, é preciso se fazer entender nesse ambiente digital. Comunicar implica mostrar quem é aquele sujeito, o que defende, o que considera importante, que pautas defende.
E se fazer entender implica um uso muito específico da linguagem. Ela precisa ser clara, direta, rápida, acessível a todo mundo. Num contexto político-midiático açodado pela desinformação e pelos predadores de várias espécies, dominar essa linguagem é uma questão de pura sobrevivência. E isso não significa abandonar ou deixar de lado o rigor com os fatos ou o rigor teórico em relação a determinados temas. De forma alguma. Significa, de verdade, que é necessário estabelecer, com os interlocutores, um caminho de entendimento, um caminho de compreensão daquilo que se quer falar.
É fundamental falar de temas complexos de modo simples, natural, fácil – fim da escala 6 x 1, soberania, democracia, feminicídio, desinformação, fake news, gasto público, ajuste fiscal, corte de benefícios, todos esses temas precisam estabelecer uma ligação com a vida real das pessoas para fazerem sentido.
Em sua trajetória nas redes sociais, a jovem Ana Elisa produzia vídeos para falar, naturalmente, de assuntos difíceis, como política, direitos sociais, racismo, educação pública, feminismo e trabalho. E conquistou, desse modo, uma audiência expressiva nas redes sociais, o que é importantíssimo, uma vez que a extrema direita soube se apropriar desse novo mundo político-midiático. E para isso, não basta somente “marcar presença”, é preciso ocupar mesmo, construindo conteúdos acessíveis com uma linguagem claríssima para mostrar o que é feito e estabelecer os laços de confiança. Linguagem leve, alegre, fácil.
Como nos lembrou o filósofo e teórico da linguagem Mikhail Bakhtin nas discussões sobre dialogismo e polifonia, o discurso não existe de maneira isolada, ele adquire significado exatamente na interação social – que, na contemporaneidade, é mediada (pelas redes); a linguagem é viva, dinâmica e confronta os discursos rígidos, renovando-se.
Vamos olhar os cenários, ajustar a linguagem e ocupar essa “praça”. Devemos e podemos fazer isso.


