Atitude Popular

“A mentira hoje ela tem Wi-Fi, ela tem algoritmo”

Em entrevista à TV Atitude Popular, o historiador Evaldo Lima relaciona o 1º de abril às antigas farsas de poder, relembra o Plano Cohen e a ditadura militar e alerta para os riscos das fake news na era da inteligência artificial

Em entrevista exibida pela TV Atitude Popular na quarta-feira, 1º de abril, o historiador Evaldo Lima analisou as origens do chamado Dia da Mentira e mostrou como a desinformação atravessa séculos, regimes e tecnologias. Partindo de uma reflexão histórica sobre o 1º de abril, o professor conectou episódios da Roma antiga, da Alemanha nazista, do Estado Novo brasileiro e da ditadura militar de 1964 ao atual ecossistema de manipulação digital, marcado por algoritmos, impulsionamento e inteligência artificial.

Ao longo da conversa, Evaldo Lima sustentou que a mentira política está longe de ser uma invenção contemporânea, embora hoje tenha adquirido uma potência inédita. “A mentira hoje ela tem Wi-Fi, ela tem algoritmo”, afirmou, ao resumir a velocidade e a capilaridade que a desinformação alcançou na era das redes sociais. Para o historiador, o que antes dependia de panfletos, jornais, boatos palacianos ou documentos forjados, agora se espalha em segundos, com aparência de verdade e grande capacidade de destruição reputacional, institucional e democrática.

No início da entrevista, o professor retomou a explicação mais difundida para a origem do 1º de abril. Segundo ele, a tradição remonta à França do século XVI, quando mudanças no calendário provocaram confusão em torno da data do ano-novo. Pessoas que resistiram ou demoraram a aderir ao novo marco temporal passaram a ser ridicularizadas, dando origem à figura dos “bobos de abril”. Evaldo também lembrou uma versão brasileira da história, associada à circulação, em Minas Gerais, de uma falsa notícia sobre a morte de Dom Pedro I, publicada por um jornal do século XIX.

Mas o eixo central da entrevista não foi a anedota, e sim o momento em que a mentira deixa de ser galhofa e passa a funcionar como arma de poder. “A mentira deixa de ser uma brincadeira e passa a ser uma arma quando deixa de ser inocente, quando passa a ter a intenção de manipular, de controlar, de legitimar o poder”, disse. A frase sintetiza a linha mestra de sua análise: fake news não são apenas informações falsas, mas dispositivos políticos usados para governar pelo medo, justificar violência ou consolidar hegemonias.

Para demonstrar que esse mecanismo é antigo, Evaldo citou a disputa pelo poder na Roma antiga. Segundo ele, Otávio Augusto construiu uma campanha de desmoralização contra Marco Antônio, retratando-o como um fantoche decadente de Cleópatra. A operação de propaganda teria sido decisiva para isolar o rival e abrir caminho para a consolidação do Império Romano. Na leitura do historiador, esse episódio pode ser entendido como uma das primeiras grandes campanhas de desinformação com objetivo explícito de reorganizar o poder político.

A conversa avançou também para o julgamento e a morte de Jesus, apresentados por Evaldo como exemplo de mentira instrumentalizada pelo poder imperial. Segundo o professor, a acusação de que ele representaria ameaça direta à ordem romana e se proclamaria “rei dos judeus” serviu como base política para sua condenação. O ponto, para o historiador, não está apenas na falsidade da acusação, mas no modo como a narrativa oficial transforma dissidência em perigo e cria legitimidade para a repressão.

Ao entrar na história do Brasil, Evaldo destacou o Plano Cohen como talvez a fake news mais célebre da política nacional. O documento, apresentado em 1937 como se revelasse um plano comunista para mergulhar o país no caos, serviu de pretexto para Getúlio Vargas cancelar eleições, fechar o Congresso e implantar a ditadura do Estado Novo. Na explicação do historiador, tratava-se de um texto forjado por setores ligados ao integralismo e instrumentalizado pelo poder como justificativa para o endurecimento autoritário.

“Esse falso plano Cohen prova duas coisas”, afirmou. “A primeira, fake news não é novidade.” Em seguida, completou com a ideia de que, quando uma mentira interessa ao poder, ela deixa de circular apenas como invenção e ganha “selo oficial”, adquirindo força institucional. É justamente essa combinação entre falsificação e aparato de Estado que torna certos episódios tão devastadores na história.

A ditadura militar instaurada em 1964 ocupou parte importante da entrevista. Evaldo foi categórico ao afirmar que uma das maiores mentiras ainda em circulação no Brasil é a ideia de que o regime militar teria sido uma “época dourada”. Para ele, essa nostalgia se alimenta de desconhecimento histórico, apagamento das violações de direitos humanos e fabricação de uma memória seletiva sobre segurança, economia e moralidade pública.

Segundo o historiador, o regime deixou ao país não prosperidade, mas destruição institucional, endividamento externo, concentração de renda, censura e violência política. Ele lembrou o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, cuja morte foi encoberta pela ditadura com a falsa versão de suicídio. Ao mencionar esse caso, Evaldo tratou a imagem forjada pelo regime como um dos exemplos mais brutais de mentira de Estado, em que a manipulação não tenta apenas esconder um crime, mas reescrever o próprio fato diante da sociedade.

Na avaliação do professor, os militares também tentaram manipular a própria memória do golpe, deslocando a ênfase do 1º de abril para a noite de 31 de março, numa tentativa de afastar a associação com o Dia da Mentira. Mais do que uma disputa de calendário, a observação revela, segundo ele, a preocupação do autoritarismo com a moldagem da narrativa histórica. “Chamaram de revolução, mas foi um golpe”, resumiu.

Ao tratar do cenário internacional, Evaldo citou o incêndio do Reichstag, em 1933, como um dos episódios mais graves de instrumentalização da mentira política. Para ele, a acusação lançada por Hitler contra os comunistas, após o incêndio do Parlamento alemão, serviu para perseguir opositores e consolidar a ditadura nazista. Também mencionou a invasão do Iraque em 2003, justificada pelos Estados Unidos com base na alegação falsa de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa. Nesses casos, argumentou, a fake news não apenas influencia eleições ou reputações, mas pode iniciar guerras e redesenhar o mundo.

O historiador também abordou episódios brasileiros mais recentes, incluindo mentiras disseminadas em disputas eleitorais, falsas denúncias amplificadas por grandes veículos e campanhas de destruição de reputação. Ao comentar casos como o da Escola Base e outras acusações que levaram anos para ser desmentidas, Evaldo insistiu num ponto essencial: a mentira costuma chegar primeiro, enquanto a verdade anda mais devagar, exige checagem, contexto e responsabilidade.

“A mentira entra com o pé na porta, enquanto que a verdade ela pede licença”, afirmou. A formulação, uma das mais fortes da entrevista, ajuda a compreender por que a desinformação encontra ambiente tão fértil em sociedades atravessadas por ansiedade, polarização e hiperconectividade. Quanto mais espetaculosa a alegação, maior tende a ser seu poder de adesão imediata.

Nos momentos finais da conversa, o professor voltou-se para o presente e para os riscos concretos de 2026, ano de eleição presidencial. Demonstrando preocupação com o avanço de ferramentas de manipulação audiovisual, ele alertou para o uso de deepfakes e outras técnicas baseadas em inteligência artificial, capazes de fabricar falas, vídeos e situações com aparência de autenticidade. Para Evaldo, esse cenário torna ainda mais urgente a responsabilização das plataformas digitais.

“É preciso regular, moderar, dar transparência aos algoritmos”, defendeu. O historiador citou ainda o papel de agências de checagem, da educação crítica e do hábito de desconfiar de notícias espetaculosas. Em sua visão, o combate à desinformação não pode ser tratado apenas como questão tecnológica, porque envolve formação cidadã, leitura histórica e compromisso ético com a verdade.

“Combater fake news não é só uma tarefa tecnológica ou política, é um exercício diário de cidadania”, afirmou. Daí, segundo ele, a necessidade de perguntas básicas diante de qualquer conteúdo viral: quem disse isso, com qual interesse, com base em que fonte e a quem essa narrativa favorece. Em vez de compartilhar por impulso, o historiador propõe uma disciplina pública da dúvida, especialmente num tempo em que mentira e entretenimento se misturam com frequência inquietante.

A entrevista de Evaldo Lima recoloca, assim, o 1º de abril em outro patamar. Longe da brincadeira inofensiva, a data serve como ocasião para lembrar que a mentira organizada sempre teve função política. Da Roma antiga ao WhatsApp, do Plano Cohen aos deepfakes, o que está em jogo não é apenas a falsidade em si, mas sua capacidade de capturar afetos, mobilizar medos e sustentar projetos de poder. Ao recuperar essa longa duração histórica, o professor transforma o debate sobre fake news em algo maior que a denúncia do momento: uma reflexão sobre memória, democracia e responsabilidade coletiva diante da verdade.

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