Ângela Carrato e Sandra Helena analisam omissões, enquadramentos e interesses políticos presentes na cobertura jornalística nacional e internacional
A forma como os grandes veículos de comunicação selecionam palavras, omitem informações e estabelecem diferentes critérios para acontecimentos semelhantes foi o centro do debate entre a jornalista Ângela Carrato e a professora de filosofia Sandra Helena, convidadas do quadro A Notícia que Você Não Vê, do programa Democracia no Ar.
Exibido pela TV Atitude Popular e apresentado pela jornalista Sara Goes, o programa desta sexta-feira reuniu as duas convidadas para uma leitura crítica da cobertura jornalística sobre conflitos internacionais, a política brasileira e o ambiente eleitoral. A análise percorreu notícias sobre Irã, Venezuela e Rússia, além do tratamento dado pela imprensa à atuação de Flávio Bolsonaro e aos primeiros episódios de violência política na pré-campanha de 2026.
A discussão começou com uma análise de Sandra Helena sobre a cobertura televisiva das cerimônias fúnebres do líder iraniano Ali Khamenei. A professora chamou atenção para uma formulação jornalística que apresentou a morte do líder iraniano como consequência genérica do início de um conflito, sem explicar as circunstâncias em que ela ocorreu.
Para Sandra, a escolha das palavras altera profundamente a compreensão do público sobre o acontecimento. Ao dizer apenas que alguém “morreu” durante um conflito, a cobertura elimina da narrativa as responsabilidades políticas e militares envolvidas.
“Esse é um dos melhores exemplos dos últimos tempos de desinformação”, afirmou.
Segundo Sandra Helena, o problema não está necessariamente na apresentação de uma informação factualmente falsa, mas na retirada do contexto indispensável para compreender o episódio. Para a professora, a desinformação também pode ser produzida por aquilo que não é dito.
Ângela Carrato concordou com a análise e afirmou que o enquadramento adotado por parte da imprensa brasileira e internacional contribui para a construção de uma imagem negativa do Irã.
“A forma com que a mídia corporativa brasileira, e eu diria internacional, esconde o que acontece no Irã contribui para demonizar esse país”, declarou.
A jornalista destacou que a cobertura de conflitos internacionais frequentemente apresenta determinados países como ameaças permanentes, enquanto minimiza ou omite ações realizadas por Estados Unidos e Israel.
Para Ângela, a escolha vocabular possui papel central nesse processo. Países aliados ao Ocidente são apresentados como governos, enquanto adversários geopolíticos são frequentemente descritos como “regimes”. A diferença pode parecer pequena, mas, segundo as convidadas, influencia a percepção de quem acompanha o noticiário sem acesso a outras fontes.
O debate avançou para a cobertura do terremoto ocorrido na Venezuela. Ângela Carrato criticou a forma como veículos brasileiros trataram as dificuldades enfrentadas pelo país após a tragédia.
Segundo a jornalista, parte da cobertura procurou responsabilizar o governo venezuelano pelas dificuldades nos resgates e pela ausência de informações consolidadas sobre mortos e desaparecidos, sem considerar adequadamente o impacto da destruição da infraestrutura e a situação econômica do país.
“Aproveitam esse momento de absoluta fragilidade da Venezuela para reforçar a oposição”, avaliou.
Ângela citou uma reportagem que deu destaque a iniciativas de organizações ligadas à oposição venezuelana para registrar desaparecidos, enquanto, segundo ela, omitiu informações relevantes sobre o apoio internacional destinado à reconstrução.
A jornalista questionou particularmente a ausência de informações sobre a participação da China no esforço de recuperação venezuelano.
“É uma informação da maior importância e simplesmente omitem”, criticou.
Sandra Helena acrescentou que a cobertura de desastres naturais também pode ser utilizada para construir interpretações políticas. Ela mencionou uma entrevista televisiva com uma venezuelana em que, segundo sua avaliação, as perguntas insistiam em responsabilizar o governo pelas dificuldades enfrentadas após o terremoto.
A entrevistada, segundo Sandra, resistiu a esse direcionamento e afirmou que o governo estava fazendo o possível diante da situação.
Para a professora, o caso mostra como uma entrevista pode ser conduzida para tentar obter determinada resposta, mesmo quando o entrevistado não compartilha da interpretação sugerida pelo jornalista.
A cobertura da guerra entre Rússia e Ucrânia também entrou no debate. Ângela Carrato criticou reportagens que, em sua avaliação, apresentam ataques russos de maneira isolada, sem informar sobre acontecimentos anteriores que contribuíram para a escalada militar.
Segundo a jornalista, a cobertura internacional ajuda a construir medo e rejeição em relação a países considerados adversários dos Estados Unidos e de governos europeus.
“Eles criam essa imagem negativa, criam um medo e as pessoas passam a temer Rússia, Irã e Venezuela”, afirmou.
A discussão sobre política internacional serviu de introdução para a análise do comportamento da imprensa brasileira diante da atuação de Flávio Bolsonaro.
As convidadas discutiram uma carta enviada pelo senador a autoridades dos Estados Unidos no contexto das disputas comerciais entre os dois países. Segundo as participantes do programa, o conteúdo do documento deveria ter recebido uma cobertura jornalística muito mais intensa.
Sandra Helena afirmou que acontecimentos relacionados ao campo progressista costumam receber um tratamento muito diferente.
“Essa balança não equilibra, não é justa do ponto de vista da cobertura”, disse.
Para a professora, se uma iniciativa semelhante envolvesse integrantes do PT ou pessoas próximas ao governo federal, haveria ampla mobilização das redações, com reportagens, comentaristas e sucessivas entradas ao vivo.
Sandra também criticou a redução do jornalismo investigativo nos grandes veículos. Segundo ela, muitas informações relevantes sobre investigações e relações financeiras de políticos chegam ao público por veículos independentes ou não alinhados aos interesses predominantes na comunicação empresarial.
“Eles têm dinheiro, têm recursos, têm como encontrar fontes. Eles não investigam”, afirmou.
Na avaliação da professora, a ausência de investigação não decorre de falta de estrutura. Grandes empresas de comunicação possuem equipes, recursos técnicos e capacidade financeira para realizar apurações aprofundadas.
Ângela Carrato foi ainda mais crítica ao analisar o comportamento das empresas de comunicação diante da disputa eleitoral.
“A mídia corporativa brasileira não faz jornalismo. Na verdade, ela é torcida, ela é parte, ela é militante a favor de candidatos conservadores e ultrarreacionários”, afirmou.
Segundo a jornalista, a cobertura política brasileira continua marcada por critérios diferentes de acordo com o campo político ao qual pertence a pessoa investigada ou questionada.
Ângela comparou o tratamento dado à família Bolsonaro com o tratamento dispensado aos familiares do Presidente Lula. Para ela, suspeitas relacionadas ao segundo grupo recebem espaço prolongado, enquanto fatos negativos envolvendo integrantes da extrema direita são minimizados ou rapidamente retirados da agenda.
A jornalista também relacionou o debate ao papel da imprensa na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Para Ângela, a trajetória política do então candidato era conhecida, mas a cobertura contribuiu para apresentá-lo como uma figura antissistema.
“Todos nós jornalistas e as pessoas mais bem informadas sabíamos quem era Bolsonaro. No entanto, a mídia escondeu isso da população e o transformou numa figura antissistema”, declarou.
Na avaliação da jornalista, uma tentativa semelhante estaria ocorrendo em relação a Flávio Bolsonaro, apresentado como um nome mais jovem e moderado apesar de sua trajetória política e de suas relações com o bolsonarismo.
Ângela também defendeu que a eleição presidencial seja analisada a partir da disputa sobre a soberania nacional. Para ela, os debates envolvendo Pix, sanções econômicas e relações comerciais com os Estados Unidos não são temas separados da campanha eleitoral.
“A disputa vai ser entre Lula e Trump, entre Lula e o imperialismo. Essa é a pauta. E é isso que essa mídia está escondendo”, afirmou.
Outro tema abordado no programa foi o crescimento da violência política durante a pré-campanha eleitoral.
Sandra Helena citou confrontos ocorridos em uma atividade política com Fernando Haddad em São Paulo e alertou para a possibilidade de episódios semelhantes se tornarem mais frequentes à medida que a campanha avance.
A professora recordou o assassinato de Marcelo Arruda, morto durante a comemoração de seu aniversário em Foz do Iguaçu, em 2022, e ressaltou a responsabilidade da imprensa no tratamento dado à violência política.
“A mídia é muito responsável em normalizar ou fazer com que a sociedade repudie e recuse esse tipo de prática”, disse.
Para Sandra, a televisão aberta merece atenção particular porque continua presente na rotina de milhões de trabalhadores que não acompanham canais de notícias durante todo o dia nem possuem tempo para procurar diferentes fontes de informação.
Ela defendeu uma observação cuidadosa sobre como os telejornais apresentarão os casos de violência política durante a campanha eleitoral de 2026.
Ângela Carrato afirmou que ações destinadas a provocar tumultos em eventos políticos já são utilizadas por grupos de extrema direita em países europeus e começam a aparecer com maior frequência no Brasil.
Segundo ela, essas ações procuram produzir imagens para circulação nas redes sociais, gerar confronto e conquistar visibilidade.
“Eles não têm proposta, não têm projeto. Então provocam violência para aparecer”, afirmou.
A jornalista relatou um episódio ocorrido na Universidade Federal de Minas Gerais, onde um político de extrema direita tentou realizar uma atividade sem autorização institucional e acabou confrontado por estudantes.
Para Ângela, situações dessa natureza podem se multiplicar durante a campanha, associando violência presencial, produção de vídeos e circulação de conteúdo nas plataformas digitais.
O programa também discutiu a necessidade de preservar a memória sobre a pandemia de Covid-19. Sandra Helena destacou o lançamento do documentário Anatomia do Caos e defendeu que a produção seja assistida e debatida publicamente.
“É obrigação, dever cívico, assistir a esse filme, comentar, chamar os amigos e assistir novamente, porque se trata de vida”, afirmou.
Ângela Carrato relacionou a discussão à responsabilidade política pela condução da pandemia no Brasil e criticou a pouca presença do tema no noticiário atual.
Para as duas convidadas, a disputa eleitoral de 2026 não será determinada apenas pelo conteúdo das campanhas formais. A maneira como jornais, emissoras de televisão e plataformas digitais escolhem quais fatos destacar, quais omitir e como nomear acontecimentos terá influência direta na formação da opinião pública.
O quadro A Notícia que Você Não Vê busca justamente analisar esse processo. A proposta não é apenas apontar informações ausentes, mas observar como a escolha de palavras, fontes, imagens e contextos pode modificar o significado de uma notícia.
Ao longo do debate, Ângela Carrato e Sandra Helena defenderam que o público compare diferentes fontes e observe com atenção não apenas aquilo que aparece nas manchetes, mas também os fatos e contextos que permanecem fora delas.
Referências
Anatomia do Caos
Documentário citado por Sandra Helena durante o programa. Direção e ano não informados na transmissão.
Assista ao programa completo:
📺 Programa Democracia no Ar
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 10h às 11h
📺 Ao vivo em: TV Atitude Popular no YouTube
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 85 996622120
✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
Canal Atitude Popular no WhatsApp

