Novo programa da TV Código Aberto analisa soberania tecnológica, ofensiva dos Estados Unidos na América Latina e os desafios políticos do Brasil diante das eleições de 2026
Da Redação
“A nossa democracia está bastante sofrida, bastante machucada, mas não está morta.” A avaliação do jornalista Luís Mauro Filho sintetizou uma das principais preocupações apresentadas na estreia do Código do Poder: a capacidade do Brasil de preservar sua autonomia política, econômica e tecnológica em um cenário internacional marcado pelo poder das grandes plataformas digitais, pela pressão dos Estados Unidos sobre a América Latina e pela disputa estratégica com a China.
Exibido pela TV Código Aberto, o novo programa reuniu Luís Mauro Filho, jornalista da TV 247, o analista e editor Rey Aragon e o apresentador Heitor Aragon. A primeira edição propôs uma leitura conjunta das disputas que podem influenciar o futuro brasileiro, relacionando a atuação das empresas de tecnologia, os algoritmos nas eleições de 2026, o controle do orçamento público, o avanço norte-americano sobre países latino-americanos e a corrida industrial entre Estados Unidos e China.
O programa será apresentado aos domingos, às 21 horas, com a proposta de oferecer uma discussão mais aprofundada sobre temas políticos e tecnológicos. A estreia também foi retransmitida pela Rádio TV Atitude Popular, TV Travessia, Pensando Brasil Mundo e TV Satélite de Ideias.
Lançamento da candidatura de Lula abre o debate
Ao iniciar sua participação, Luís Mauro Filho comentou o lançamento da candidatura do Presidente Lula à reeleição, realizado na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. Para o jornalista, a escolha do local estabeleceu uma relação entre as mobilizações operárias do final dos anos 1970 e o momento político vivido pelo Brasil em 2026.
“Parece haver, no simbolismo desse evento de lançamento, uma ligação histórica entre os fatos, entre as situações vividas há 40, 50 anos e o que a gente vive hoje”, afirmou. Segundo Luís Mauro, o percurso político iniciado no movimento sindical ajuda a compreender a consolidação democrática brasileira e a participação do Partido dos Trabalhadores nesse processo.
A Vila Euclides ocupa um lugar central na trajetória política de Lula por ter recebido algumas das maiores assembleias das greves do ABC paulista. Ao retornar ao local para iniciar outra campanha presidencial, Lula buscou recuperar a memória de sua formação sindical e reafirmar a mobilização social como componente da disputa eleitoral.
Rey Aragon considerou que a escolha também indicava uma resposta ao momento político. Em sua análise, a defesa da democracia não dependerá apenas das instituições formais, mas da capacidade de organização da sociedade e da presença política nas ruas.
Infraestrutura digital amplia riscos para a soberania
Um dos principais assuntos da estreia foi a dependência brasileira de tecnologias produzidas e controladas por empresas estrangeiras. O debate partiu de um memorando assinado pelo governo Donald Trump que, conforme apresentado no programa, amplia a atuação de órgãos estatais e empresas privadas norte-americanas em operações cibernéticas contra ameaças externas.
Rey Aragon advertiu que conceitos como terrorismo e narcoterrorismo podem ser aplicados de forma abrangente, sem limites jurídicos claramente definidos. Em um país dependente de sistemas estrangeiros de armazenamento, comunicação e processamento de dados, uma decisão política tomada em Washington pode produzir efeitos sobre bancos, empresas públicas e serviços essenciais brasileiros.
O analista citou possíveis ataques a sistemas elétricos, bancos de dados e estruturas operacionais de empresas como Petrobras e Banco do Brasil. Também mencionou a concentração de serviços de nuvem nas mãos de companhias norte-americanas, situação que expõe o Brasil a sanções, interrupções e ações de desestabilização.
Para Luís Mauro Filho, a discussão está relacionada ao conceito de tecnofeudalismo, desenvolvido pelo economista Yanis Varoufakis para explicar o domínio exercido pelas grandes plataformas sobre dados, mercados e relações sociais. O jornalista ponderou, no entanto, que a ideia de morte do capitalismo pode ser teoricamente reducionista.
“O poder das plataformas, dos algoritmos, dos dados e das rendas monopolistas não necessariamente significa tecnofeudalismo. Pode significar um capitalismo ainda mais concentrado, rentista e monopolista”, avaliou.
Brasil foi transformado em laboratório digital
Luís Mauro também chamou atenção para a formação de uma dependência que não começou com o atual avanço da inteligência artificial. Segundo ele, o Brasil está exposto há décadas a plataformas digitais estrangeiras e aos modelos comerciais que utilizam dados pessoais para orientar consumo, comportamento e decisões políticas.
“Olhando com um pouco mais de retrospecto, já dá para ver como o Brasil foi colonizado, de um ponto de vista digital, há décadas”, declarou. Na avaliação do jornalista, a presença intensa de brasileiros nas redes sociais não deve ser explicada apenas por uma suposta preferência cultural pelas plataformas.
“Já somos colonizados, somos feitos de laboratório para esse tipo de coisa há muito tempo. Existe inclusive o discurso de que o brasileiro tem facilidade com rede social ou gosta mais de rede social do que o restante do mundo. Eu acho que é porque a gente é mais exposto aqui”, disse.
Essa exposição se torna mais preocupante durante uma eleição presidencial. Plataformas controlam os critérios de distribuição de conteúdo, mantêm sistemas pouco transparentes de recomendação e oferecem recursos de segmentação capazes de direcionar mensagens diferentes a grupos específicos. A inteligência artificial amplia a escala dessa operação ao facilitar a produção de imagens, vídeos e textos falsos.
O debate mostrou que a intervenção política não ocorre apenas por meio de publicações visíveis nas redes. Ela também pode ser exercida sobre a infraestrutura que armazena informações, processa pagamentos, garante comunicações e mantém serviços públicos em funcionamento.
Cooperação com a China exige projeto de longo prazo
A China apareceu no programa como uma alternativa estratégica para o Brasil reduzir sua dependência tecnológica, mas também como um parceiro que atua de acordo com seus próprios interesses. Luís Mauro questionou quais caminhos poderiam viabilizar uma aproximação segura, com transferência de tecnologia e desenvolvimento da indústria brasileira.
Rey Aragon defendeu que o primeiro desafio é garantir continuidade política suficiente para a execução de projetos nacionais. Uma cooperação tecnológica de longo prazo, segundo ele, poderia ser prejudicada por mudanças abruptas de governo ou pela possibilidade de tecnologias sensíveis chegarem às mãos de grupos alinhados aos Estados Unidos.
O crescimento chinês foi relacionado à exigência de transferência de conhecimento em acordos com empresas estrangeiras. Luís Mauro observou que multinacionais interessadas em produzir no território chinês precisaram compartilhar determinados processos tecnológicos, o que ajudou a China a desenvolver sua própria capacidade industrial.
“É natural que a China tenha uma indústria forte 40 anos depois de um processo desse, absolutamente capitalista. Ela captura o capitalismo pelo próprio capitalismo”, afirmou.
O jornalista também citou a entrada da China na Organização Mundial do Comércio e as decisões adotadas pelos governos norte-americanos a partir da década de 1990. A transferência de fábricas para o território chinês reduziu custos para empresas ocidentais, mas contribuiu para o enfraquecimento de cadeias industriais nos Estados Unidos e na Europa.
Planejamento energético oferece vantagem à China
O debate abordou ainda as reservas de petróleo acumuladas pela China e a transformação de sua matriz energética. Para Rey Aragon, Pequim não apenas aumentou sua capacidade de interferir no mercado internacional de petróleo, mas reduziu gradualmente a dependência do combustível fóssil ao investir em veículos elétricos e outras fontes de energia.
Essa política demonstra o resultado de decisões mantidas durante décadas. Luís Mauro reconheceu que o modelo político chinês permite concentrar esforços em objetivos nacionais com uma continuidade difícil de reproduzir em países sujeitos a impasses institucionais permanentes.
“A solução para um país adquirir soberania em termos econômicos eles conseguem demonstrar com muito mais eficiência do que qualquer Estado ocidental”, afirmou o jornalista.
No Brasil, projetos industriais e tecnológicos precisam atravessar mudanças de governo, disputas partidárias e pressões do setor privado. A ausência de continuidade limita a capacidade de enfrentar mercados consolidados e dificulta investimentos cujo retorno depende de muitos anos.
Avanço norte-americano cerca o Brasil
A situação da América Latina ocupou outra parte da discussão. Os participantes analisaram o alinhamento de governos regionais com Donald Trump, a realização de exercícios militares com forças norte-americanas e o uso de acordos tecnológicos como instrumento de influência.
O programa citou o aprofundamento das relações dos Estados Unidos com Argentina, Paraguai e Colômbia. Segundo Rey Aragon, essa movimentação pode restringir as opções brasileiras, especialmente em um contexto de aumento do comércio com a China e de disputa por minerais, petróleo, infraestrutura e rotas comerciais.
Luís Mauro avaliou que os projetos de extrema direita na região enfrentam contradições internas. Governos que atacam grandes parceiros comerciais podem prejudicar setores empresariais dos próprios países, produzindo tensões entre a retórica política e os interesses econômicos.
Ao analisar as Forças Armadas brasileiras, o jornalista considerou que parte de seus integrantes mantém maior proximidade ideológica com a extrema direita do que com um projeto autônomo de defesa nacional. Essa posição ajuda a explicar a participação em exercícios comandados por países cujos interesses podem entrar em conflito com os do Brasil.
“A soberania que uma sociedade pode ter passa muito por sua capacidade de se defender, inclusive no sentido de guerras econômicas”, declarou.
Dominação também ocorre pela cultura
Na parte final do programa, a análise passou da infraestrutura tecnológica para a influência cultural. Luís Mauro afirmou que a dependência brasileira não se limita a equipamentos, sistemas digitais ou cadeias industriais. Ela se manifesta na maneira como a sociedade passa a avaliar sua própria produção artística e sua capacidade política.
Para o jornalista, o domínio cultural pode retirar de uma nação a confiança necessária para construir soluções próprias. A difusão constante de referências estrangeiras cria a percepção de que a produção nacional é inferior e deve ser substituída por produtos vindos dos centros econômicos.
Luís Mauro citou o cinema como exemplo. Enquanto produções estrangeiras ocupam grande parte das salas e dos serviços de streaming, políticas de proteção ao cinema brasileiro enfrentam resistência. A mesma assimetria aparece no consumo de música e nas imagens distribuídas pelas plataformas.
“É impressionante como a gente se sensibiliza e se mobiliza pela pauta cultural internacional e como não se mobiliza para ter uma porcentagem de salas de cinema para filmes nacionais”, observou.
Apesar das dificuldades, o jornalista encerrou sua análise defendendo que uma vitória do campo democrático em 2026 pode abrir um período de maior estabilidade institucional. Para ele, essa continuidade permitiria ao Brasil enfrentar com mais segurança as pressões externas e reconstruir a confiança em sua democracia.
“Eu acho que ela se fortalece quando a gente tem uma retomada. Espero que a gente consiga ter uma vitória do campo democrático neste ano e que isso estruture a década seguinte para a democracia brasileira continuar florescendo”, afirmou Luís Mauro.
Referências
Sobre fotografia, de Susan Sontag
Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo, de Yanis Varoufakis
A luta contra o fascismo, de Jorge Folena
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