PANAMAX 2026 expõe o avanço de uma arquitetura militar de interoperabilidade cibernética no hemisfério, enquanto Washington amplia sua capacidade de operar além das próprias fronteiras e coloca para o Brasil uma questão urgente de soberania e liberdade de ação.
Por Reynaldo Aragon
Mais de 80 especialistas de 11 países, Cyber Protection Teams, treinamento ofensivo e defensivo, proteção de infraestrutura crítica e integração multidomínio: documentos militares revelam como o cyber ganha centralidade na estratégia do SOUTHCOM. Em meio à mais grave tensão entre Brasília e Washington em décadas, a pergunta já não é apenas do que os Estados Unidos são capazes, mas até onde o Brasil pode integrar essa arquitetura sem transformar interoperabilidade em dependência estratégica.
O dia seguinte: a outra face do front aparece
Em 12 de agosto de 2026, Donald Trump assinou o memorando presidencial que abriu uma nova fronteira na projeção do poder cibernético norte-americano. O documento criou um programa para autorizar empresas privadas selecionadas a realizar, sob controle e supervisão federal, Cyber Surveillance Operations e Cyber Effects Operations contra organizações criminosas transnacionais estrangeiras habilitadas digitalmente. É o movimento que investiguei em “O novo front cibernético dos EUA contra Lula e o Brasil”: a incorporação da escala, da velocidade e da capacidade tecnológica do setor privado ao arsenal de instrumentos com que Washington pretende alcançar adversários além de suas fronteiras.
Um dia depois, em 13 de agosto, outro documento oficial revelou a face externa de uma transformação que ocorre simultaneamente. O U.S. Army informou que, durante o PANAMAX 2026, exercício patrocinado pelo U.S. Southern Command (SOUTHCOM), a 179th Cyber Protection Team (179th CPT), ou 179ª Equipe de Proteção Cibernética, da Missouri National Guard, e um Defensive Cyber Operations Element (DCOE), um elemento especializado em operações cibernéticas defensivas, trabalharam com mais de 80 profissionais de proteção cibernética de 11 países parceiros. Os militares norte-americanos compartilharam experiência em táticas ofensivas e defensivas, arbitraram problemas apresentados às equipes e empregaram um ambiente realista de defesa de redes no qual os participantes identificavam indicadores de ameaça e respondiam a eles. A justificativa explicitada pelo próprio Exército foi a defesa de infraestrutura crítica como interesse comum de segurança regional.
O contexto amplia o significado do dado. Realizado entre 3 e 13 de agosto, o PANAMAX reuniu 19 países, entre eles o Brasil, para aumentar interoperabilidade e capacidade coletiva em operações multinacionais e all-domain, integrando diferentes domínios militares em torno de um cenário centrado na segurança do Canal do Panamá e da região. O SOUTHCOM descreveu o exercício como instrumento para desenvolver procedimentos conjuntos e fortalecer comando e controle hemisféricos.
Seria um erro, contudo, transformar a proximidade das datas em prova de uma conexão operacional. Não encontramos documento público que coloque o memorando de Trump e o PANAMAX na mesma cadeia de comando, nem evidência de que os 11 países tenham sido treinados para executar ataques cibernéticos reais. A documentação sustenta uma conclusão diferente e mais importante: enquanto Washington amplia, por uma cadeia institucional, os instrumentos com que poderá produzir efeitos no ciberespaço estrangeiro, o SOUTHCOM aprofunda, por outra, a capacidade de forças parceiras treinarem, compartilharem procedimentos e operarem conjuntamente no domínio digital.
É essa segunda transformação que interessa agora. A questão já não é apenas até onde os Estados Unidos podem projetar poder cibernético, mas que arquitetura militar está sendo construída ao redor dessa capacidade nas Américas e qual será a posição do Brasil dentro dela. Num momento em que a relação entre Brasília e Washington atravessa conflitos concretos de interesses, interoperabilidade deixa de ser uma palavra reservada aos técnicos. Torna-se uma questão de poder, autonomia e soberania.
PANAMAX: quando o cyber deixa de ser acessório
O PANAMAX não descobriu o ciberespaço em 2026. O cyber já integrava exercícios anteriores. A novidade está na densidade com que essa capacidade aparece documentada. Entre 3 e 13 de agosto, a Missouri National Guard empregou no Panamá a 179th Cyber Protection Team (179th CPT), a 179ª Equipe de Proteção Cibernética, e um Defensive Cyber Operations Element (DCOE), estrutura especializada em operações defensivas, num ambiente que reuniu mais de 80 profissionais de 11 países. Segundo o U.S. Army, os norte-americanos compartilharam experiência em táticas ofensivas e defensivas e criaram um cenário realista no qual as equipes precisavam identificar ameaças, defender redes e responder a incidentes. Cyber deixava de aparecer apenas como suporte técnico e passava a integrar explicitamente a preparação de uma força multinacional para operações complexas e multidomínio.
Há aqui uma distinção indispensável. A expressão oficial “offensive and defensive tactics” não autoriza concluir que Washington tenha treinado militares de 11 países para executar ataques cibernéticos reais. O contexto publicado pelo Exército é predominantemente defensivo: operadores norte-americanos ajudavam a construir e arbitrar problemas contra os quais as equipes deveriam reagir. Técnicas ofensivas podem ser empregadas para reproduzir o comportamento de um adversário, testar uma defesa e expor vulnerabilidades. O fato comprovado, portanto, não é a transferência de capacidade ofensiva aos parceiros. É a criação de um ambiente no qual forças de diferentes países treinam contra ameaças cibernéticas segundo procedimentos crescentemente compatíveis. Essa formulação é menos espetacular e estrategicamente mais relevante.
Outros documentos do exercício mostram que essa lógica ultrapassava a célula cyber. O Estado-Maior Conjunto argentino informou que, ainda na preparação do PANAMAX, militares argentinos e norte-americanos trabalharam na padronização dos procedimentos de comando e controle para os participantes, incluindo supervisão de operações especiais com sistemas cibernéticos e emprego de sistemas eletrônicos. Ao final do exercício, a mesma instituição afirmou que a interoperabilidade havia permitido estabelecer “padrões e linguagens comuns”, a partir de procedimentos descritos como de nível OTAN, em cenários que incluíam ameaças híbridas e cibernéticas e ações contra infraestruturas críticas e cadeias estratégicas de suprimento.
O Peru oferece outra peça documental. Seu Comando Conjunto registrou que o PANAMAX compreendia planejamento e execução em cenários marítimos, aéreos, terrestres e cibernéticos, com atividades voltadas à integração de procedimentos e padronização de Táticas, Técnicas e Procedimentos, as TTPs. A documentação norte-americana completa o quadro: a 4ª Frota descreveu cenários destinados a testar padronização tecnológica e procedimentos operacionais compartilhados, enquanto o SOUTHCOM definiu como objetivo do exercício fortalecer o comando e controle hemisférico e a capacidade de realizar operações multinacionais.
É aí que PANAMAX 2026 adquire significado estratégico. O próprio SOUTHCOM declara que exercícios como PANAMAX servem para ampliar interoperabilidade e prontidão e coloca, na mesma política regional de fortalecimento de parceiros, a colaboração estreita nos domínios cyber e espacial. Seu documento estratégico de 2026 é ainda mais explícito: essa cooperação deve fortalecer capacidades soberanas dos parceiros mediante sistemas norte-americanos seguros, superiores e interoperáveis, ao mesmo tempo em que demonstra, segundo as palavras do próprio comando, a superioridade do ecossistema de defesa dos Estados Unidos.
Portanto, o dado decisivo do PANAMAX não é que Washington esteja ensinando o hemisfério a atacar. Não há prova pública disso. O que existe é documentalmente mais sólido: Washington está ajudando forças nacionais distintas a compartilhar padrões, procedimentos, linguagens e formas de comando capazes de fazê-las operar juntas. É nesse ponto que uma palavra aparentemente técnica passa ao centro desta investigação. A questão agora é entender o que significa interoperabilidade quando a potência que ajuda a organizar a arquitetura possui capacidades tecnológicas, militares e informacionais muito superiores às dos demais participantes.
Interoperabilidade não é uma palavra neutra
Interoperabilidade parece uma palavra técnica, quase burocrática. No vocabulário militar, porém, descreve uma capacidade profundamente material: forças diferentes conseguirem operar juntas. Para isso, não basta conectar computadores. É preciso aproximar doutrinas, procedimentos, comunicações, sistemas de comando e controle, ferramentas, critérios de decisão e Táticas, Técnicas e Procedimentos, as TTPs. No ciberespaço, significa também construir condições para que operadores de países distintos reconheçam ameaças, compartilhem informações e coordenem respostas dentro de uma linguagem operacional compatível. É exatamente esse processo que os documentos do PANAMAX tornam visível.
O ponto decisivo é que interoperabilidade pode produzir ganhos reais para todos os participantes sem produzir poder equivalente entre eles. Uma ameaça cibernética atravessa fronteiras em segundos; compartilhar indicadores, procedimentos e conhecimento pode acelerar respostas, proteger infraestrutura crítica e ampliar capacidades nacionais. Mas os Estados que entram nessa cooperação não dispõem dos mesmos recursos. No centro da arquitetura norte-americana está o U.S. Cyber Command (USCYBERCOM), responsável por uma Cyber Mission Force de alcance global, por estruturas que planejam e executam operações em apoio aos comandos combatentes e por uma arquitetura tecnológica concebida para integrar ferramentas, dados e operações cibernéticas em escala. O orçamento oficial do comando descreve inclusive células de planejamento integradas aos demais comandos militares para garantir autoridades, sincronização e apoio tanto a operações defensivas quanto ofensivas.
Para o hemisfério, essa assimetria não é teórica. Em 2026, o comandante do USCYBERCOM, general Joshua Rudd, declarou ao Congresso que sua força está em “apoio direto” ao SOUTHCOM nas operações com parceiros, envolvendo proteção de forças, fortalecimento de sistemas militares, missões hunt forward e integração do cyber ao espectro mais amplo das capacidades militares. No mesmo documento, Rudd define a construção de capacidade entre parceiros em termos de interoperabilidade, divisão de encargos, redução das barreiras ao compartilhamento de informações e atividades combinadas. Portanto, PANAMAX não ocorre à margem da estrutura cibernética estratégica dos Estados Unidos: o comando responsável pelo poder cyber norte-americano sustenta formalmente o comando geográfico responsável pelas Américas. Isso não prova que USCYBERCOM tenha dirigido a célula cyber do exercício. Prova a relação institucional que importa para compreender o sistema.
É aqui que capacidade compartilhada e poder compartilhado precisam ser separados. Uma rede pode ser multinacional sem ser horizontal. Quem dispõe de maior capacidade para produzir inteligência, desenvolver ferramentas, estabelecer padrões, formar operadores e integrar dados possui também maior influência sobre as condições materiais em que a cooperação acontece. O próprio USCYBERCOM afirma que padrões comuns aceleram interoperabilidade, desenvolvimento de ferramentas e fluxos de dados entre o comando e seus parceiros de missão. E um projeto conjunto com a Defense Innovation Unit procura justamente padronizar equipamentos empregados por equipes de caça a ameaças para reduzir incompatibilidades entre operadores e forças aliadas.
Isso não torna interoperabilidade sinônimo de dependência. Dependência surge quando a interoperabilidade começa a reduzir alternativas. Se uma força passa a depender de determinada tecnologia, arquitetura, inteligência, fornecedor ou fluxo de dados para operar eficientemente, aumenta o custo material de agir fora desse sistema. Para o Brasil, portanto, a questão estratégica não é apenas quanto consegue fazer ao lado de Washington, mas quanta capacidade autônoma conserva para agir quando seus interesses não coincidirem.
Das simulações às redes reais
PANAMAX mostra como a interoperabilidade é construída. Mas a estratégia cibernética norte-americana vai além do treinamento. Existe um estágio mais profundo de cooperação no qual operadores dos Estados Unidos trabalham, com autorização do governo anfitrião, dentro de redes reais de outro Estado. São as chamadas Hunt Forward Operations, conduzidas pelo U.S. Cyber Command por meio da Cyber National Mission Force (CNMF) para localizar atividade maliciosa, vulnerabilidades e técnicas empregadas por adversários. O ponto jurídico é essencial: essas missões dependem de convite do país parceiro.
O mecanismo revela uma característica central da cooperação cibernética: ela produz conhecimento para os dois lados, mas em condições materiais diferentes. O Estado anfitrião recebe capacidade adicional de detecção e resposta. Os Estados Unidos, por sua vez, ganham acesso consentido a ambientes nos quais podem observar adversários em ação, identificar técnicas, coletar indicadores e transformar esse aprendizado em defesa própria. Em 2023, o então comandante do USCYBERCOM informou ao Congresso que, desde 2018, equipes da CNMF haviam realizado 40 deslocamentos para 21 países e trabalhado em 59 redes. Em 2026, o general Joshua Rudd atualizou o quadro: mais de cem deslocamentos para mais de 30 países, com mais de duas dezenas de missões hunt forward somente em 2025.
Essa capacidade já chegou à área do SOUTHCOM. Em junho de 2023, um oficial do Cyber Command revelou publicamente a realização da primeira Hunt Forward Operation na América Central ou do Sul. O país não foi identificado. A explicação dada, porém, é reveladora: aprender na rede de um parceiro permitia levar esse conhecimento de volta e fortalecer a segurança das redes norte-americanas.
O Paraguai mostra até onde a cooperação regional pode chegar, embora sua experiência não deva ser confundida com hunt forward. Em 2024, autoridades paraguaias e norte-americanas realizaram conjuntamente uma revisão de segurança das redes governamentais do país e identificaram nelas o grupo Flax Typhoon, associado por Washington à China. O dado é importante porque comprova que a cooperação do SOUTHCOM já alcançou sistemas estatais reais na América do Sul, e não apenas ambientes simulados de exercício.
É preciso manter as diferenças institucionais claras. PANAMAX não é Hunt Forward. Southern Defender não é Hunt Forward. A revisão paraguaia também não foi classificada publicamente dessa maneira. São instrumentos distintos. O que os documentos permitem enxergar é uma escala de profundidade da cooperação: treinamento conjunto, padronização de procedimentos, compartilhamento de informação e, quando há autorização formal, atuação de equipes especializadas em redes reais. O SOUTHCOM já opera em diferentes pontos dessa escala.
É aqui que a questão soberana muda de escala. No ciberespaço, cooperar também significa produzir conhecimento operacional. Conhecimento sobre o adversário, mas também sobre ferramentas, procedimentos, tempos de resposta, vulnerabilidades e arquitetura. Isso não transforma automaticamente cooperação consentida em espionagem. Significa apenas reconhecer uma realidade elementar: quanto maior a assimetria tecnológica entre os parceiros, mais importante se torna saber quem aprende o quê, quem conserva esse conhecimento e sob quais regras ele pode circular depois.
Para o Brasil, a pergunta correta não é se a cooperação pode melhorar nossas defesas. Pode. A pergunta é outra: quando militares estrangeiros treinam conosco, compartilham inteligência ou, em outros países, trabalham em redes reais, quais limites devem existir para proteger conhecimento sensível, autonomia operacional e capacidade de decisão brasileira? É essa fronteira entre cooperação e soberania que precisa ser definida antes que uma crise a imponha.
O Brasil já está dentro da arquitetura
Para o Brasil, essa discussão não pertence ao futuro. A cooperação cibernética militar com os Estados Unidos já existe, é institucionalizada e ganhou profundidade operacional. Desde 2019, as Forças Armadas brasileiras mantêm parceria com a New York National Guard por meio do State Partnership Program, programa de cooperação em segurança do Departamento de Defesa norte-americano executado em apoio aos objetivos dos comandos combatentes. Cyber e espaço foram definidos desde o início entre as áreas prioritárias da relação. Em 2022, a parceria Brasil–Nova York seria reconhecida pelo próprio National Guard Bureau como uma das parcerias do ano, depois de manter mais de vinte atividades anuais com prioridade para capacidades espaciais e cibernéticas.
O intercâmbio entrou diretamente na Defesa Cibernética brasileira. Em agosto de 2022, especialistas da New York National Guard participaram, em Brasília, do Exercício Guardião Cibernético. Entre eles estava uma integrante da 173rd Cyber Protection Team, a 173ª Equipe de Proteção Cibernética. A missão declarada era conhecer as capacidades brasileiras e avaliar que tipos de treinamento cyber poderiam ser desenvolvidos conjuntamente. O documento norte-americano registra algo ainda mais significativo: os militares constataram semelhanças entre estruturas operacionais utilizadas pelas equipes norte-americanas e aquelas ensinadas pelo sistema brasileiro, enquanto o lado brasileiro manifestou interesse em conhecer melhor como a National Guard conduz operações cibernéticas.
Não foi um contato episódico. Em 2024, Brasil e New York National Guard realizaram 34 intercâmbios e eventos de treinamento, incluindo trocas sobre conceitos de política cibernética. O relatório anual da própria Guarda define o State Partnership Program como um instrumento de cooperação em segurança administrado pelo National Guard Bureau e executado pelos comandos combatentes regionais dos Estados Unidos. A cooperação bilateral, portanto, precisa ser compreendida também dentro da arquitetura regional de segurança norte-americana.
Em 2025, essa trajetória alcançou outro patamar. Durante o Southern Defender 25, operadores cibernéticos dos Estados Unidos trabalharam lado a lado com o Comando de Defesa Cibernética brasileiro, o ComDCiber, entre 26 de abril e 8 de maio. O SOUTHCOM registrou que foi a primeira vez que operações cibernéticas norte-americanas realizadas como parte de um exercício formal ocorreram em território brasileiro. O exercício conectou mais de 300 participantes de 20 países em 15 localidades e trabalhou defesa de infraestrutura, identificação de vulnerabilidades, compartilhamento de informações e resposta coordenada a ameaças.
Esse é o ponto que precisa ser compreendido sem exagero e sem ingenuidade. Nada nessa documentação demonstra ingerência norte-americana sobre sistemas brasileiros. Demonstra integração operacional crescente entre estruturas de Defesa Cibernética dos dois países. E o Brasil não aparece como receptor passivo: possui comando próprio, doutrina, pessoal especializado e capacidades que também interessam aos norte-americanos. A relação é cooperativa. A assimetria de poder entre os parceiros, contudo, continua existindo.
É nesse contexto que PANAMAX 2026 produz uma pergunta ainda sem resposta pública. O Brasil participou do exercício, isso está confirmado. Não conseguimos confirmar que militares brasileiros estivessem entre os profissionais dos 11 países que integraram especificamente seu componente cyber. Uma coisa não pode ser inferida da outra. A ausência de informação, porém, torna legítima uma pergunta ao Ministério da Defesa: o Brasil integrou ou não essa célula? Se integrou, com qual força, qual unidade, em quais atividades e sob quais protocolos de compartilhamento?
A questão ultrapassa PANAMAX. Quando uma relação militar alcança treinamento cibernético, doutrina, interoperabilidade, vulnerabilidades e defesa de infraestrutura crítica, transparência sobre seus limites passa a ser parte da própria soberania. O Estado precisa definir quais informações podem circular, quais ambientes podem ser acessados, quem autoriza cada nível de cooperação e quais capacidades precisam permanecer integralmente sob domínio nacional. Não porque os Estados Unidos devam ser tratados como inimigos, mas porque nenhum Estado soberano pode organizar sua defesa supondo que os interesses de hoje permanecerão idênticos amanhã.
O teste já chegou: quando os interesses deixam de coincidir
Toda arquitetura de interoperabilidade parece menos problemática enquanto os interesses de seus integrantes convergem. O verdadeiro teste começa quando eles deixam de convergir. Para o Brasil, essa hipótese deixou de ser abstrata. A cooperação militar e cibernética construída com Washington convive hoje com uma deterioração política, econômica e tecnológica da relação bilateral que expõe uma realidade elementar: parceria não elimina disputa de poder.
Essa tensão alcançou o próprio ecossistema digital brasileiro. Em 2026, o U.S. Trade Representative (USTR) concluiu a investigação aberta contra práticas brasileiras relacionadas, entre outros temas, a comércio digital e serviços de pagamento eletrônico. O Pix, infraestrutura pública desenvolvida pelo Banco Central, entrou no contencioso norte-americano porque Washington considerou que determinadas políticas brasileiras favoreciam o sistema nacional em detrimento de empresas concorrentes dos Estados Unidos. A disputa culminou em julho na adoção de tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros. Não se trata de guerra cibernética, e seria irresponsável apresentá-la assim. O que o episódio demonstra é suficiente: infraestrutura tecnológica brasileira já pode tornar-se objeto de pressão quando interesses nacionais e empresariais norte-americanos são contrariados.
A China torna essa divergência ainda mais estrutural. O SOUTHCOM declara oficialmente que sua estratégia busca impedir que China, Rússia e Irã obtenham influência ou controle sobre infraestrutura considerada estratégica no hemisfério. Seu documento de postura de 2026 associa investimentos chineses em portos, telecomunicações, instalações espaciais e outras infraestruturas críticas a riscos de inteligência, vulnerabilidade cibernética e eventual uso militar; sua estratégia regional prevê inclusive apoiar países parceiros na redução da dependência de relações econômicas e de segurança consideradas adversárias por Washington.
É nesse ponto que surge uma contradição impossível de ignorar. Para os Estados Unidos, a expansão chinesa nas Américas é uma questão de competição estratégica. Para o Brasil, a China é um parceiro econômico central e integra uma política externa que procura preservar margem de manobra entre diferentes centros de poder. O adversário estratégico de Washington não é automaticamente o adversário estratégico de Brasília. Nenhum padrão tecnológico, fluxo de inteligência ou mecanismo de interoperabilidade pode substituir a prerrogativa brasileira de definir autonomamente quem representa ameaça aos seus interesses.
O próprio SOUTHCOM ajuda a compreender a dimensão dessa disputa. Sua estratégia atual combina fortalecimento de comando e controle hemisférico, exercícios como PANAMAX, cooperação estreita em cyber e espaço e expansão das parcerias militares com o objetivo declarado de preservar os interesses norte-americanos e tornar os Estados Unidos o “partner of choice”, o parceiro preferencial, na região. O problema, portanto, não está em Washington perseguir seus interesses. Potências fazem exatamente isso. O problema seria o Brasil organizar capacidades estratégicas supondo que os interesses norte-americanos e brasileiros serão permanentemente coincidentes.
É essa mudança de contexto que transforma PANAMAX e a cooperação cyber bilateral em questões de Estado. A pergunta não é se os Estados Unidos pretendem empregar contra o Brasil as estruturas construídas em conjunto; não há evidência que autorize essa afirmação. A pergunta é mais concreta: o que acontece com tecnologias, procedimentos, fluxos de informação e relações de confiança acumulados durante anos de cooperação quando Brasília e Washington passam a divergir sobre infraestrutura, parceiros, interesses e ameaças?
A resposta precisa existir antes da crise. Interoperabilidade só é compatível com soberania quando permanece reversível. Se o Brasil conserva tecnologia, inteligência, conhecimento e capacidade operacional suficientes para mudar de fornecedor, negar acesso, proteger seus sistemas e seguir uma decisão estratégica diferente sem comprometer sua defesa, a cooperação amplia poder. Se deixa de conservar essas alternativas, ela começa a produzir dependência.
A outra face do front
É aqui que as duas investigações se encontram. O artigo anterior mostrou uma transformação precisa: com o memorando de 12 de agosto, Washington abriu caminho para incorporar empresas privadas selecionadas a operações de vigilância e de produção de efeitos cibernéticos contra organizações estrangeiras, sob direção e supervisão federal. O próprio documento apresenta a escala, a velocidade e a capacidade tecnológica do setor privado como uma vantagem ofensiva dos Estados Unidos. O que PANAMAX revela não é a continuação operacional desse programa, mas outra transformação que avança ao mesmo tempo: a expansão da capacidade norte-americana de articular poder cibernético com parceiros no hemisfério.
A distinção é fundamental. Não encontramos evidência de que o memorando, PANAMAX e SOUTHCOM componham uma única cadeia operacional. O programa criado por Trump possui autoridades, coordenação e finalidades próprias. PANAMAX pertence à estrutura militar do SOUTHCOM. Transformar simultaneidade em causalidade produziria uma denúncia maior que a prova. Mas ignorar a simultaneidade produziria o erro inverso: impediria enxergar uma mudança mais ampla na forma como os Estados Unidos acumulam capacidade no domínio digital.
As peças documentadas são suficientes. O U.S. Cyber Command dispõe de forças especializadas e capacidade global de operação; em 2026, seu comandante declarou que o USCYBERCOM presta apoio direto ao SOUTHCOM, inclusive com hunt forward, fortalecimento de sistemas militares e integração do cyber às demais capacidades de combate. O SOUTHCOM, por sua vez, aprofunda interoperabilidade com parceiros por meio de exercícios, treinamento, comando e controle, compartilhamento de informações e cooperação em cyber e espaço. PANAMAX mostra militares de diferentes países treinando segundo padrões e procedimentos compatíveis. Southern Defender levou forças cyber norte-americanas ao Brasil. E operações consentidas em outros países demonstram que essa cooperação pode, em determinadas circunstâncias, chegar a redes governamentais reais.
A terceira peça é o setor privado. O novo memorando cria outra via institucional pela qual empresas poderão executar operações cibernéticas autorizadas pelo governo norte-americano. Estado, militares, inteligência, empresas e parceiros estrangeiros não formam, pelas evidências disponíveis, um único comando. Formam algo mais complexo: diferentes camadas de capacidade que podem ampliar, cada uma sob autoridades próprias, o alcance do poder cibernético dos Estados Unidos. É essa distinção que permite compreender a transformação sem recorrer à hipótese de uma arquitetura secreta que os documentos não demonstram.
A questão central, portanto, não é descobrir um centro oculto que conecte tudo. É observar a acumulação material de poder. No ciberespaço, poder não se mede apenas por armas ou pelo número de operadores. Mede-se por capacidade de produzir inteligência, estabelecer padrões, acessar dados, desenvolver ferramentas, formar parceiros, integrar sistemas e transformar conhecimento sobre redes e adversários em vantagem operacional. Quanto mais dessas capacidades um Estado concentra e consegue articular, maior sua margem para condicionar o ambiente no qual os demais tomam decisões.
Essa é a outra face do front. Enquanto Washington amplia os instrumentos para agir no ciberespaço estrangeiro, amplia também sua capacidade de organizar cooperação cibernética ao redor de si nas Américas. Uma dimensão não prova a direção operacional da outra. Juntas, porém, revelam um processo maior: a expansão do poder cibernético norte-americano para além das fronteiras nacionais, tanto pela projeção direta de capacidade quanto pela construção de interoperabilidade com parceiros.
Para o Brasil, essa constatação basta para exigir uma política de Estado. Washington não precisa ser considerado inimigo para ser analisado como aquilo que é: uma grande potência que organiza tecnologia, capital, inteligência, alianças e força militar em função de seus próprios interesses. O desafio brasileiro não é romper essa relação. É garantir que nenhuma arquitetura construída em cooperação retire do país a capacidade futura de escolher outro caminho.
O limite chama-se liberdade de ação
O Brasil não precisa escolher entre cooperação e soberania. Precisa garantir que a primeira jamais reduza a segunda. A própria Estratégia Nacional de Defesa oferece o critério: o país deve possuir capacidade para atuar com liberdade de ação no espaço cibernético e buscar independência tecnológica nas áreas estratégicas da Defesa. A diretriz é decisiva porque desloca o debate do terreno das intenções para o das capacidades. Não importa apenas quem é aliado hoje. Importa saber o que o Brasil continuará capaz de fazer amanhã se os interesses mudarem.
Liberdade de ação significa possuir alternativas materiais. Cooperar com Washington sem depender de Washington; compartilhar inteligência preservando controle sobre a própria; utilizar padrões interoperáveis sem tornar irreversível a dependência tecnológica; conhecer exatamente quais informações sobre redes e vulnerabilidades circulam entre parceiros; manter capacidade nacional para negar acesso, substituir fornecedores, modificar procedimentos e operar autonomamente. Soberania não é isolamento. É poder dizer sim porque se conserva a capacidade de dizer não.
PANAMAX 2026, por isso, deveria provocar perguntas concretas em Brasília. O Ministério da Defesa e o Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber) precisam esclarecer se militares brasileiros integraram o componente cyber dos 11 países e, caso tenham integrado, quais atividades realizaram e quais protocolos disciplinaram o intercâmbio de informações. Mais amplamente, o Estado brasileiro precisa estabelecer salvaguardas para qualquer cooperação que envolva conhecimento sobre infraestrutura crítica, vulnerabilidades, telemetria, redes governamentais ou capacidades militares. Quem pode acessar? O que pode ser compartilhado? Quem conserva os dados? Por quanto tempo? Sob qual autoridade? Que informação permanece exclusivamente brasileira?
Esse debate não pertence apenas aos quartéis. O Itamaraty precisa incorporar cyber às questões centrais da soberania e da política externa. O Congresso precisa fiscalizar os limites jurídicos das formas mais profundas de cooperação. Universidades, centros de pesquisa e indústria nacional precisam reduzir dependências em tecnologias críticas. E o jornalismo precisa aprender a observar exercícios como PANAMAX não como cerimônias entre bandeiras, mas como espaços onde doutrinas, padrões, tecnologias, inteligência e relações de poder são materialmente organizados. O próprio Estado brasileiro já reconhece soberania, resiliência de infraestruturas críticas, liberdade de ação e independência tecnológica como objetivos estratégicos. O desafio é transformar essas diretrizes em limites verificáveis para cada parceria.
Há uma razão para que isso seja feito agora. O primeiro artigo desta investigação mostrou que os Estados Unidos estão ampliando os instrumentos disponíveis para produzir efeitos cibernéticos além de suas fronteiras. Este revelou a outra face: simultaneamente, o aparato militar norte-americano aprofunda no hemisfério relações de interoperabilidade, treinamento e cooperação cyber, apoiado por uma estrutura global incomparavelmente maior que a de seus parceiros regionais. Para o cálculo estratégico brasileiro, basta reconhecer a concentração de capacidades que já pode ser documentada.
Para um país do Sul Global, autonomia não se conquista por retórica de equidistância entre grandes potências. Constrói-se materialmente, com capacidade tecnológica própria e relações internacionais diversificadas o suficiente para impedir que qualquer dependência se converta em poder de veto sobre decisões nacionais. Cooperar pode aumentar capacidade. Depender reduz escolhas. Saber distinguir uma coisa da outra é tarefa de Estado.
A deterioração das relações entre Brasília e Washington torna essa questão urgente. O adversário dos Estados Unidos não é necessariamente o adversário do Brasil, e suas prioridades geopolíticas não podem definir automaticamente as brasileiras. Uma arquitetura construída durante a convergência continuará existindo durante a divergência. Por isso, o Brasil precisa estabelecer agora quais capacidades jamais podem depender de uma potência estrangeira, quais informações devem permanecer sob controle nacional e quais decisões serão exclusivamente brasileiras. O teste definitivo da soberania não ocorrerá quando os interesses coincidirem, mas quando divergirem: nesse momento, o Brasil continuará possuindo capacidade tecnológica, militar e política para escolher sozinho?
Porque soberania digital, no fim, é precisamente isso: poder cooperar com todos sem entregar a nenhum deles o poder de decidir por nós.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>






