Candidato a deputado estadual fala sobre periferias, combate à fome, segurança pública, internet livre, moradia para jovens e participação popular nas eleições de 2026
O comunicador Léo Suricate participou de mais uma edição do programa Eleições 2026 em Debate, realizado pela Atitude Popular e pelo Coletivo das Estatais e do Serviço Público do Ceará. Na conversa, ele apresentou propostas voltadas principalmente às periferias, discutiu sua experiência de 86 dias como deputado estadual em 2025 e defendeu uma atuação parlamentar conectada às demandas concretas das comunidades.
Criador da Suricate Seboso e da Vetinflix, Léo Suricate construiu sua trajetória na comunicação digital a partir das periferias de Fortaleza. Durante a entrevista, relatou que a campanha de 2026 tem alcançado municípios do interior do Ceará, com passagens por regiões como Cariri, Iguatu e Sobral. Segundo ele, a experiência ampliou o alcance de uma candidatura que, em 2022, esteve mais concentrada na capital.
A atuação nos conjuntos habitacionais aparece como um dos principais eixos de sua proposta. Léo afirmou que pretende levar para a Assembleia Legislativa demandas relacionadas ao transporte público, ao acesso à saúde, à educação, à cultura e ao orçamento destinado às periferias. Ele também destacou a experiência de seu breve período no Parlamento, quando apresentou requerimentos e articulou demandas de moradores junto ao governo estadual e a prefeituras.
“Mais do que esse trabalho legislativo, de fiscalização, teve esse trabalho de olhar pros lugares e dizer assim: aqui precisa de uma linha de ônibus, aqui precisa de um asfalto”, afirmou.
Segundo o candidato, durante os meses em que ocupou uma cadeira na Assembleia Legislativa, sua atuação esteve relacionada a demandas que conhecia também como morador de periferia e de conjunto habitacional. Ele citou a articulação para mudanças em linhas de ônibus, a cobrança pela conclusão de obras em escolas, a construção de uma unidade do Zona Viva em Sobral e a mediação de questões trabalhistas envolvendo ex-funcionários do Cuca.
Léo também mencionou sua participação em votações e debates legislativos durante o período em que exerceu o mandato, citando a proposta de emenda à Constituição relacionada à internet livre e segura, a indicação que resultou na legislação do Zona Viva e projetos relacionados à alimentação nas escolas e à ampliação de recursos públicos.
Para ele, a experiência demonstrou que o trabalho parlamentar não se resume à apresentação de leis. O deputado, segundo sua concepção, também deve fiscalizar o Executivo, cobrar providências e levar ao governo problemas identificados diretamente nos territórios.
“A gente viu que falta que sobre isso, lutas as coisas. Em três a gente conseguiu muita coisa porque como não tinha ninguém falando sobre isso, não tinha ninguém dentro do governo”, afirmou ao explicar sua atuação nos conjuntos habitacionais.
A experiência pessoal ocupa espaço central em sua visão sobre política. Léo relatou que nasceu e cresceu na Sapiranga, em Fortaleza, e que sua trajetória posterior esteve ligada a uma ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), em 2014. Para ele, a chegada a espaços institucionais não representa uma concessão, mas resultado de mobilização social.
“Porque fica parecendo que foi um presente. Não foi, foi luta”, disse.
Combate à fome e ampliação do Ceará sem Fome
Entre as propostas apresentadas durante a entrevista está a ampliação do programa Ceará Sem Fome. Léo relatou que a defesa das cozinhas solidárias já fazia parte de sua atuação política antes de sua candidatura e afirmou que essas experiências contribuíram para a formulação do programa estadual.
Ele citou a primeira cozinha solidária implantada no Ceará, localizada na comunidade Maria Tomásia, em Fortaleza, e destacou a importância da iniciativa para territórios periféricos.
Para o candidato, a política de segurança alimentar precisa ultrapassar o atendimento durante os dias úteis. Sua proposta é ampliar o Ceará Sem Fome para os fins de semana e incluir também o jantar, de modo a garantir duas refeições diárias às pessoas atendidas.
“Porque o povo come também no final de semana, não só de segunda a sexta”, afirmou.
Durante a entrevista, ele mencionou o número de 130 mil refeições entregues diariamente pelo programa, mas fez ressalvas sobre outro dado apresentado durante a conversa, relativo à quantidade de beneficiários que teriam conseguido ingressar no mercado formal de trabalho. O entrevistado afirmou que não gostaria de apresentar um número sem confirmação.
Léo relacionou a segurança alimentar à autonomia das famílias e destacou que muitas das refeições das cozinhas solidárias são destinadas a mulheres, mães e idosos. Na sua avaliação, a expansão do programa deve estar associada a políticas capazes de reduzir progressivamente a dependência dessas ações.
Segurança pública além da repressão
Outro eixo importante da entrevista foi a segurança pública. Léo defendeu uma abordagem que combine atuação policial com políticas sociais nos territórios mais afetados pela violência.
Sua proposta é criar um fundo estadual de reparação das periferias abastecido com recursos apreendidos de organizações criminosas. Ele explicou que atualmente valores e bens confiscados em operações contra o crime organizado são destinados a fundos específicos. Sua ideia seria direcionar parte desses recursos para políticas públicas nos territórios que concentram violência e presença de organizações criminosas.
“Eu acho que a gente precisa ter recurso que vá apontar política pública que não seja só ostensiva, que seja de proteção social, que seja de geração de emprego e renda, que seja voltado para ter aparelhos públicos nesses territórios”, afirmou.
Léo mencionou como referência o orçamento destinado à segurança pública no Ceará e valores de bens e recursos apreendidos em operações contra o crime organizado. A proposta apresentada durante a entrevista é utilizar parte desses recursos para financiar ações sociais, educacionais e de geração de renda nas comunidades mais afetadas.
Para ele, o enfrentamento à violência precisa considerar as condições que deixam jovens vulneráveis ao recrutamento por organizações criminosas. O candidato defendeu a expansão de escolas em tempo integral, programas de transferência de renda, alimentação, esporte e formação profissional.
A discussão também passou pelo debate sobre redução da maioridade penal. Léo criticou propostas que, segundo ele, concentram a resposta à violência no encarceramento, sem enfrentar as condições sociais que antecedem o envolvimento de jovens com o crime.
Ele defendeu que escolas públicas ofereçam alternativas de formação e permanência para adolescentes e jovens, argumentando que o tempo integral pode ampliar o acesso a atividades culturais, esportivas e profissionais.
Cinema, comunicação e internet como políticas públicas
Uma das propostas apresentadas por Léo Suricate durante a entrevista é a criação de escolas de cinema nas periferias. Ele citou uma experiência desenvolvida no Residencial José Euclides, em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), com recursos do Ministério da Educação e do Ministério da Cultura.
Segundo o entrevistado, o projeto permite que jovens tenham acesso a câmeras, microfones, computadores e outros equipamentos utilizados na produção audiovisual.
A proposta é levar esse modelo para escolas públicas de tempo integral, utilizando espaços já existentes, como laboratórios de informática e auditórios. A intenção, segundo Léo, é ampliar as possibilidades de formação para jovens interessados em comunicação digital, audiovisual e produção de conteúdo.
“Essa juventude que vê isso não tem como se profissionalizar”, afirmou, ao defender que a política pública acompanhe mudanças no mercado de comunicação e nas formas de produção cultural.
Ele também apresentou a internet como uma questão de acesso a direitos e de desenvolvimento econômico. Durante a entrevista, lembrou que o Ceará possui uma posição estratégica na chegada de cabos submarinos e defendeu que a expansão da infraestrutura digital seja acompanhada de políticas de acesso para famílias de baixa renda.
Sua proposta é ampliar a internet de qualidade para os 184 municípios do Ceará e criar mecanismos para que famílias sem condições financeiras possam ter acesso ao serviço.
“Por que que a fibra ótica não pode chegar na nossa residência?”, questionou.
Na avaliação de Léo, a posição do Ceará na infraestrutura internacional de conectividade também exige um debate sobre os investimentos em centros de processamento de dados. Ele defendeu que o estado não seja apenas fornecedor de infraestrutura, mas desenvolva políticas para que a população possa se beneficiar economicamente dessa nova atividade.
Uma proposta de moradia para a juventude
Outra proposta apresentada durante a entrevista é um programa que Léo chamou de “Minha Casa, Minha Vida, Juventude”. A ideia é criar uma política de moradia voltada a jovens que enfrentam dificuldades para adquirir o primeiro imóvel e que, segundo ele, não necessariamente se enquadram nos critérios da faixa de menor renda do programa habitacional federal.
O candidato relacionou a proposta especialmente aos estudantes que deixam cidades do interior para estudar em Fortaleza ou na Região Metropolitana e encontram dificuldades para pagar moradia e transporte.
A proposta, segundo ele, teria como referência o Minha Casa, Minha Vida, mas com foco em unidades menores e acessíveis para jovens, permitindo que continuem os estudos e tenham condições de permanecer na cidade onde estudam.
Periferias precisam de equipamentos públicos
A experiência nos conjuntos habitacionais também levou Léo a defender uma mudança na forma como esses empreendimentos são planejados. Para ele, novos conjuntos habitacionais deveriam ser entregues já acompanhados de equipamentos públicos necessários para atender a população.
“Quando for construído um conjunto habitacional, já tem que vir junto escola, posto de saúde, tem que vir CRAS”, afirmou.
Ele citou o Residencial José Euclides como exemplo. Segundo seu relato, o empreendimento reúne milhares de moradores, mas enfrenta dificuldades de acesso à atenção básica de saúde porque parte da população não estaria incluída na área de cobertura das unidades existentes nas proximidades.
Léo também relatou demandas relacionadas ao atendimento de crianças atípicas, à saúde mental e ao acesso a serviços especializados. Para ele, essas questões precisam integrar a política pública destinada às periferias e não podem ser deixadas exclusivamente para a atuação de grupos políticos que apresentam soluções simplificadas para problemas complexos.
Participação popular para além das eleições
Outro ponto destacado durante a entrevista foi a relação entre movimentos sociais e governos. Léo defendeu que a participação política não se limite ao momento eleitoral.
Segundo ele, movimentos sociais devem continuar organizados depois das eleições para pressionar governos e parlamentares pela execução de políticas públicas. O candidato afirmou que críticas a governos progressistas podem fazer parte desse processo, desde que tenham como objetivo ampliar políticas e disputar seus rumos.
“A crítica não é o governador, é o governo”, afirmou. “Porque a gente tem que puxar o governo é pro nosso lado.”
Na sua avaliação, eleger representantes comprometidos com determinadas pautas não encerra a participação política. Ao contrário, cria a necessidade de manter organizações comunitárias, movimentos sociais e associações atuando sobre o poder público.
Léo também criticou a prática de limitar a participação política de trabalhadores por meio de relações de dependência nos locais de trabalho. Relatou situações em que pessoas afirmam apoiar uma candidatura, mas evitam colocar adesivos ou declarar publicamente seu voto por receio de consequências profissionais.
Para ele, a política precisa enfrentar também situações de controle territorial e compra de votos. O candidato afirmou que pretende manter esse tema entre as pautas de sua campanha.
“A gente tá na política para mudar a vida do povo”
Na parte final da entrevista, Léo resumiu sua concepção de atuação política ao defender uma relação permanente entre mandato e movimentos sociais.
“Não é para outra coisa não. Não é para ganhar pessoal, nem para dizer que eu sou bonito. Arrotar, por exemplo, intelectualidades, discursos, frases do Marx. Não, a gente tá política para mudar a vida do povo e conscientizar”, afirmou.
Ele também defendeu a organização comunitária como forma de ampliar a participação popular nas decisões públicas. Citou comitês comunitários, grupos de bairro, associações e movimentos sociais como espaços que precisam permanecer ativos independentemente do calendário eleitoral.
A entrevista terminou com Léo reiterando que pretende levar para o Parlamento as pautas apresentadas durante o programa, caso seja eleito, e afirmou que pretende manter seu mandato aberto às demandas dos territórios periféricos.
“Continue organizado, se organize, reivindique seu lugar no mundo”, disse.
O Eleições 2026 em Debate é uma realização da Atitude Popular e do Coletivo das Estatais e do Serviço Público do Ceará. O programa promove entrevistas com candidatos e candidatas nas eleições de 2026 e busca apresentar propostas e trajetórias ao público cearense.
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