Rodrigo Nunes afirma que a extrema direita aprendeu a transformar plataformas digitais em poder político e alerta para uma nova geração de lideranças mais adaptada às eleições de 2026
Da Redação
A derrota de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022 não desfez as condições políticas, sociais e tecnológicas que permitiram a consolidação da extrema direita no Brasil. Enquanto setores progressistas continuam dependentes de lideranças formadas em outro período histórico, a direita apresenta novos nomes que dominam a linguagem das plataformas digitais, compreendem os mecanismos de disputa por visibilidade e se oferecem como aliados políticos das grandes empresas de tecnologia.
A avaliação foi feita pelo filósofo Rodrigo Nunes, professor da PUC-Rio e pesquisador vinculado à Universidade de Essex, durante entrevista ao programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular. Em conversa com a professora Sandra Helena, ele analisou o bolsonarismo, as consequências de junho de 2013 e a influência da economia da atenção sobre a política contemporânea.
Autor de “Do transe à vertigem: ensaios sobre bolsonarismo e um mundo em transição”, Nunes esteve em Fortaleza para uma série de atividades acadêmicas promovidas pelo Mestrado em Avaliação de Políticas Públicas da Universidade Federal do Ceará e pela Cátedra Reitor Antônio Martins Filho.
A visita incluiu palestras, lançamento da edição revista e ampliada de “Do transe à vertigem” e um minicurso baseado em outro livro do filósofo, “Nem vertical nem horizontal: uma teoria da organização política”. Nesta obra, Nunes revisita a disputa entre organizações centralizadas e movimentos horizontais para discutir como diferentes formas de atuação podem coexistir dentro de uma estratégia política.
Um livro escrito durante a ascensão do bolsonarismo
Rodrigo Nunes começou a elaborar as reflexões reunidas em “Do transe à vertigem” no final de 2018, quando Jair Bolsonaro venceu a eleição presidencial. Naquele período, o filósofo estava nos Estados Unidos como pesquisador visitante da Universidade Brown e trabalhava na redação de “Nem vertical nem horizontal”.
Embora acompanhasse com preocupação o processo eleitoral brasileiro, Nunes procurou concluir o projeto que o havia levado aos Estados Unidos. À medida que identificou padrões no governo Bolsonaro e nas interpretações apresentadas no debate público, passou a escrever textos sobre temas específicos.
O primeiro deles foi dedicado ao conceito de polarização política. Outros ensaios surgiram em resposta a acontecimentos e discussões que, na avaliação do autor, exigiam novas ferramentas de interpretação. Esses textos foram inicialmente produzidos de maneira independente, mas compartilhavam questões e princípios de análise.
“O livro foi sendo escrito aos poucos, conforme as oportunidades se apresentavam, mas sempre com a sensação de que havia alguns fios comuns, uma análise coerente por trás de tudo aquilo”, explicou.
Em 2022, a Ubu Editora propôs reunir os textos em uma publicação. A primeira edição chegou às livrarias antes da campanha presidencial daquele ano e foi amplamente discutida durante a disputa entre Bolsonaro e o Presidente Lula.
Posteriormente, Nunes preparou uma edição em inglês, processo que exigiu contextualizar acontecimentos brasileiros para leitores estrangeiros. O autor também precisou explicar por que uma análise produzida a partir do Brasil poderia contribuir para compreender a ascensão internacional da extrema direita.
A nova edição em português incorpora parte desse trabalho. O texto recebeu uma introdução, uma conclusão e passagens que conectam os capítulos. Alguns ensaios foram significativamente ampliados para incluir o 8 de Janeiro, o segundo governo de Donald Trump, a eleição de Javier Milei na Argentina e outros acontecimentos posteriores a 2022.
“Nunca foi um livro estritamente sobre o Brasil. A proposta sempre foi buscar aquilo que, no Brasil, se comunicava com o que estava acontecendo no exterior e identificar em quais sentidos o país estava na vanguarda dos processos envolvidos na ascensão global da extrema direita”, afirmou.
O Brasil como antecipação de uma crise global
Uma das teses apresentadas por Nunes é a de que os países considerados centrais no capitalismo precisam observar com mais atenção os processos políticos e econômicos ocorridos nas periferias. Isso porque condições antes associadas principalmente ao Sul Global estão se tornando comuns na Europa e nos Estados Unidos.
A precarização do trabalho, o crescimento das periferias urbanas, a redução da qualidade das instituições democráticas e o aumento da exploração econômica atingem países que, durante décadas, foram apresentados como modelos de modernização.
“O centro do capitalismo deve olhar para a periferia porque, cada vez mais, o futuro do capitalismo é prefigurado não pelo centro, mas pela periferia. Nós somos hoje muito mais o futuro deles do que eles imaginam”, declarou.
Para o filósofo, a promessa capitalista de que os países periféricos alcançariam progressivamente os padrões de vida do centro está sendo cumprida no sentido inverso. Em vez da expansão dos sistemas de proteção social, são as condições de insegurança econômica e instabilidade política que se disseminam.
“A promessa da modernização capitalista está sendo realizada ao contrário. Não é a periferia que chegou ao nível do centro. É o centro que, com a aceleração da predação, está cada vez mais se aproximando da periferia”, afirmou.
Nunes citou o avanço da extrema direita no Reino Unido, na França e na Alemanha. Segundo ele, governos centristas ou progressistas de baixa intensidade não conseguem responder ao crescimento da insatisfação social. Com poucas iniciativas próprias e receio de enfrentar interesses econômicos, essas administrações acabam incorporando parte do discurso conservador.
O resultado é que funcionam como intervalos entre governos de direita, enquanto as causas da insatisfação permanecem. A extrema direita aproveita esse desgaste e se apresenta como força de ruptura, mesmo quando defende políticas que ampliam a concentração de poder e riqueza.
Junho de 2013 não produziu Bolsonaro automaticamente
Um dos capítulos de “Do transe à vertigem” examina a relação entre as manifestações de junho de 2013 e a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018. Nunes rejeita tanto a leitura segundo a qual os protestos teriam causado diretamente o bolsonarismo quanto a interpretação que nega qualquer ligação entre os dois processos.
Para ele, junho de 2013 começou como uma mobilização pela ampliação de direitos. O aumento das tarifas do transporte público desencadeou manifestações que rapidamente passaram a reivindicar o direito à cidade, melhores serviços públicos e maior responsabilidade das instituições.
“Foi um movimento que nasceu como uma demanda por expansão de direitos, por uma qualidade de vida melhor, por qualificação das instituições e aumento da responsabilidade institucional”, explicou.
O movimento se ampliou, tornou-se mais heterogêneo e produziu uma mudança profunda no cenário político. Partidos, organizações e grupos que até então ocupavam posições previsíveis tiveram que agir diante de uma conjuntura nova. Também surgiram oportunidades para forças com pouca relevância eleitoral naquele momento.
Nunes considera equivocado descrever esse processo como uma sequência automática na qual junho de 2013 teria levado ao impeachment de Dilma Rousseff, à Lava Jato e à eleição de Bolsonaro. As manifestações alteraram o terreno da disputa, mas o resultado permaneceu aberto durante anos.
“Junho muda o cenário político do país. Obriga diferentes forças a se posicionarem de uma maneira nova e abre oportunidades políticas para forças que não estavam posicionadas até então. Esse cenário permanece em disputa por algum tempo, e a disputa acaba sendo vencida pela direita”, afirmou.
Essa vitória, no entanto, também dependeu dos erros de partidos tradicionais. O PSDB e o MDB participaram do processo de impeachment acreditando que herdariam os votos do PT e retomariam a Presidência. Na prática, ajudaram a fortalecer uma direita que acabaria retirando espaço das próprias legendas responsáveis pela destituição de Dilma Rousseff.
O campo progressista também cometeu erros. Segundo Nunes, a tentativa de tratar junho de 2013 apenas como uma ameaça contribuiu para que a extrema direita se apresentasse como representante do desejo de mudança manifestado nas ruas.
“O espaço ficou aberto para que a extrema direita se colocasse como legítima herdeira de junho de 2013. Não era evidente que ela ocuparia esse lugar. Esse espaço precisou ser construído”, analisou.
A extrema direita não se limita à família Bolsonaro
A permanência da extrema direita não pode ser medida apenas pelo desempenho eleitoral dos integrantes da família Bolsonaro. Para Nunes, esse campo político adquiriu autonomia e passou a formar novas lideranças capazes de disputar eleições durante décadas.
Nomes como Pablo Marçal, Renan Santos e Nikolas Ferreira foram citados como exemplos de políticos adaptados ao ambiente digital. Eles não aprenderam apenas a utilizar redes sociais para divulgar atividades. Sua atuação política foi formada dentro das plataformas e responde diretamente aos incentivos da economia da atenção.
A política passa a operar segundo a velocidade, a linguagem e os critérios de visibilidade estabelecidos pelas empresas de tecnologia. Declarações agressivas, cenas de confronto e comportamentos aparentemente inadequados em debates podem ser planejados para produzir vídeos curtos e ampliar a circulação de um candidato.
“A política hoje é cada vez mais colonizada e submetida aos tempos, às lógicas e ao modo de fazer característico da economia da atenção”, declarou.
Nesse ambiente, o desempenho de um candidato não pode ser avaliado somente pela reação imediata do público presente ou pelos antigos critérios dos debates televisivos. Uma intervenção pode parecer desastrosa no programa completo e, ao mesmo tempo, produzir dezenas de cortes destinados a públicos específicos nas plataformas digitais.
Os conteúdos circulam sem o contexto original e encontram grupos previamente segmentados pelos sistemas de recomendação. O objetivo não é necessariamente convencer toda a audiência, mas fortalecer vínculos com parcelas mobilizadas do eleitorado, ampliar a base de seguidores e ocupar progressivamente o debate público.
Lideranças nativas das plataformas
Donald Trump demonstrou grande capacidade para controlar a atenção pública, mas ainda pertence, segundo Nunes, à geração formada pela comunicação de massa da segunda metade do século XX. Políticos mais jovens já foram moldados pela dinâmica das plataformas.
“Figuras como Bukele, Pablo Marçal e Renan Santos são mais perigosas porque já são nativas dessa nova realidade. São figuras políticas que se formaram dentro desse novo mundo e tendem a controlá-lo de maneira ainda mais eficiente”, alertou.
A expressão “economia da atenção” descreve um modelo no qual o tempo e a reação dos usuários se transformam em recursos econômicos. Plataformas aumentam seus lucros mantendo as pessoas conectadas, acompanhando seus comportamentos e direcionando conteúdos capazes de provocar interação.
Quando essa lógica passa a organizar a política, candidatos são incentivados a produzir conflitos permanentes. A indignação e a provocação geram comentários, compartilhamentos e tempo de visualização, ainda que parte das reações seja negativa.
Nunes demonstrou preocupação especial com a possível convergência entre essa nova geração da direita e os interesses das grandes empresas de tecnologia. Políticos que se opõem à regulação das plataformas podem receber apoio econômico, técnico ou político de grupos interessados em preservar sua influência.
“Uma figura como Renan Santos começa a sinalizar o entendimento de que, se as Big Techs estão procurando alguém para ser o candidato delas no Brasil, ele está disponível e pode fazer isso com mais convicção do que Flávio ou Jair Bolsonaro”, avaliou.
Da crise financeira à plataformização da política
Para compreender por que a extrema direita avançou em diferentes países ao mesmo tempo, Nunes propõe observar dois processos que ganharam força em torno de 2008. O primeiro foi a crise financeira internacional, que abalou a legitimidade do consenso neoliberal sem provocar o fim das políticas neoliberais.
Partidos tradicionais perderam credibilidade porque salvaram instituições financeiras enquanto grandes parcelas da população enfrentavam desemprego, endividamento e perda de direitos. O neoliberalismo continuou sendo aplicado, mas já não conseguia se apresentar como projeto capaz de beneficiar a maioria da sociedade.
O segundo processo foi a plataformização da internet. A expansão das redes sociais concentrou poder econômico e político nas mãos de poucas empresas do Vale do Silício e alterou a forma como pessoas, movimentos e partidos se comunicam.
No início da década de 2010, esse ambiente contribuiu para mobilizações como a Primavera Árabe, os Indignados na Espanha, o Occupy Wall Street e as jornadas de junho no Brasil. Eram movimentos que, apesar de suas diferenças, contestavam a concentração do poder econômico e reivindicavam maior participação democrática.
A partir de 2016, a extrema direita demonstrou maior capacidade para ocupar o mesmo ambiente. Naquele ano, ocorreram o impeachment de Dilma Rousseff, a vitória do Brexit no Reino Unido e a primeira eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.
“Na primeira metade da década, tivemos movimentos que apontavam para maior igualdade e democracia real. Depois, esse processo caminhou na direção contrária, com a ascensão da extrema direita”, explicou.
A esquerda e o problema da sucessão
A vantagem geracional da direita foi apontada como um dos problemas centrais para as eleições atuais e futuras. Enquanto o campo progressista permanece fortemente dependente do Presidente Lula, a extrema direita acumula lideranças jovens que já possuem audiência própria e domínio das novas linguagens políticas.
Nunes não tratou essa desigualdade como uma questão meramente etária. O problema envolve a dificuldade da esquerda para criar espaços de formação, renovar dirigentes e construir formas de comunicação compatíveis com o ambiente contemporâneo.
“Quando olhamos para a esquerda, não vemos candidatos imediatos para as próximas eleições. Quando olhamos para a direita, vemos que eles têm potencialmente quadros para competir até 2070”, comparou.
O filósofo chamou atenção para a necessidade de compreender a extrema direita como um fenômeno internacional, apoiado por transformações econômicas e tecnológicas. Uma análise concentrada exclusivamente em Bolsonaro corre o risco de não perceber os grupos que já disputam sua sucessão.
Isso não significa ignorar a influência da família ou os casos políticos, financeiros e judiciais relacionados aos seus integrantes. Significa reconhecer que o bolsonarismo ajudou a constituir um campo maior do que o próprio Bolsonaro.
Um fenômeno que permanece após as eleições
A entrevista mostrou que derrotar a extrema direita nas urnas é indispensável, mas não suficiente para dissolver sua base social. Enquanto persistirem a precarização econômica, o descrédito das instituições, a concentração do poder tecnológico e a incapacidade de governos progressistas apresentarem mudanças perceptíveis, a direita continuará encontrando condições para mobilizar a insatisfação.
A política de plataformas também permite que candidatos com baixa intenção de voto acumulem atenção, construam comunidades digitais e se preparem para eleições futuras. Uma candidatura ainda pequena pode funcionar como investimento de longo prazo.
Para Nunes, compreender esse processo exige abandonar explicações simples. Nem junho de 2013, nem a Lava Jato, nem as redes sociais explicam isoladamente o surgimento do bolsonarismo. Esses acontecimentos se relacionam dentro de uma mudança mais ampla na economia, na comunicação e nas formas de organização política.
A edição revista de “Do transe à vertigem” procura acompanhar esse deslocamento. Ao incluir o 8 de Janeiro, o avanço de Milei e o retorno de Trump, o livro sustenta que o Brasil não vive uma anomalia separada do restante do mundo. O país antecipou problemas que agora aparecem com maior nitidez nas democracias centrais.
Referências
Do transe à vertigem: ensaios sobre bolsonarismo e um mundo em transição
Autor: Rodrigo Nunes
Ano da primeira edição: 2022
Edição revista e ampliada: 2026
Editora: Ubu
Nem vertical nem horizontal: uma teoria da organização política
Autor: Rodrigo Nunes
Ano: 2023
Editora: Ubu
Sociedade excitada: filosofia da sensação
Autor: Christoph Türcke
Ano da edição brasileira: 2010
Editora: Unicamp
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