Lina Noronha analisa o centenário de Fidel Castro, o agravamento da crise econômica cubana e as medidas adotadas pelo governo de Miguel Díaz-Canel
Da Redação
As comemorações do centenário de nascimento de Fidel Castro ocorreram em meio a uma das crises econômicas e energéticas mais graves enfrentadas por Cuba desde a Revolução de 1959. A escassez de combustíveis, os apagões prolongados e as dificuldades para importar alimentos, medicamentos e insumos básicos marcaram as homenagens realizadas na ilha e em outros países.
O tema foi analisado por Lina Noronha, apresentadora do programa Cubanias, em entrevista concedida ao Café com Democracia, da TV Atitude Popular, nesta quarta-feira, 26 de agosto. Em conversa com o cientista político, radialista e mestre em Políticas Públicas Luiz Regadas, a convidada relacionou a situação atual ao endurecimento das sanções dos Estados Unidos, discutiu as reformas econômicas anunciadas por Havana e abordou a permanência de Fidel como referência política.
Fidel Castro nasceu em 13 de agosto de 1926 e morreu em novembro de 2016, aos 90 anos. As celebrações do centenário reuniram representantes de diferentes países em Havana e tiveram como um dos principais momentos uma cerimônia político-cultural no Teatro Karl Marx, com a presença do presidente Miguel Díaz-Canel e de Raúl Castro.
Segundo Lina Noronha, o evento combinou apresentações artísticas com uma narrativa sobre as transformações promovidas pela Revolução Cubana nas áreas de educação, saúde, ciência, esporte e cultura. Crianças e jovens participaram do espetáculo, que também homenageou médicos, atletas, cientistas e figuras ligadas à trajetória revolucionária do país.
“Ainda assim, a festa de comemoração do centenário foi um evento belíssimo. Quem teve a oportunidade de ver a transmissão pelo YouTube ficou encantado com o espetáculo de arte, com a participação das crianças e com a valorização das conquistas da Revolução Cubana”, afirmou.
Para a apresentadora, a presença de crianças nas atividades não teve apenas uma função estética. Ela refletiu o investimento cubano na formação cultural desde os primeiros anos escolares. O espetáculo procurou apresentar a trajetória do país antes e depois de 1959, associando a liderança de Fidel Castro à campanha de alfabetização, à expansão da educação pública e à formação de profissionais em diferentes áreas.
“O cubano sabe o que é a revolução e o que foram as conquistas da luta liderada por Fidel Castro. Desde criança, aprende a própria história, o que era Cuba antes da revolução e o que foi construído depois”, declarou Lina.
Centenário em meio à escassez
O contraste entre a dimensão das homenagens e a gravidade da situação econômica esteve no centro da entrevista. Lina destacou que os cubanos convivem com a falta de combustíveis, medicamentos, transporte e energia elétrica. Ela atribuiu grande parte desse cenário às sanções impostas pelos Estados Unidos e às restrições que atingem empresas e países interessados em negociar com Cuba.
Na avaliação da convidada, o cerco econômico ganhou uma dimensão ainda mais severa com as limitações ao fornecimento de petróleo. A escassez compromete a produção de alimentos, o funcionamento do transporte público, o atendimento hospitalar e outras atividades essenciais.
“A população está vivendo com falta de medicamentos, de transporte e de combustível. Tudo aquilo de que um país necessita encontra enormes dificuldades para chegar”, disse.
Lina classificou a política norte-americana como uma tentativa de provocar esgotamento econômico e insatisfação social. Durante a entrevista, ela recordou documentos produzidos por autoridades dos Estados Unidos nas primeiras décadas posteriores à Revolução Cubana, nos quais a deterioração das condições de vida aparecia como instrumento de pressão contra o governo da ilha.
A convidada também mencionou a posição da Assembleia Geral das Nações Unidas, que, em sucessivas votações, tem aprovado resoluções favoráveis ao fim do embargo. Embora essas manifestações indiquem ampla rejeição internacional às sanções, elas não têm força para obrigar os Estados Unidos a alterar sua política.
O debate sobre as responsabilidades internas
Luiz Regadas questionou Lina sobre uma entrevista recente de Miguel Díaz-Canel à jornalista Mônica Bergamo. Na conversa, o presidente cubano reconheceu dificuldades administrativas, problemas burocráticos e atrasos na execução de mudanças internas.
Lina rejeitou a expressão “bloqueio interno” para descrever esses problemas. Segundo ela, o termo costuma ser empregado para reduzir ou apagar o impacto das medidas norte-americanas. Isso não significa, no entanto, que a administração cubana esteja isenta de erros ou de dificuldades próprias.
Para a apresentadora, problemas administrativos e burocráticos precisam ser debatidos, mas não podem ser equiparados às consequências de uma política externa que limita transações financeiras, transporte marítimo, importações e investimentos.
“Não se pode falar de Cuba sem falar do bloqueio e dos seus efeitos”, declarou.
A situação coloca Miguel Díaz-Canel diante de um dos períodos mais difíceis desde que assumiu a presidência. Além de suceder a geração histórica representada por Fidel e Raúl Castro, ele precisa administrar a escassez e conduzir mudanças econômicas em um país submetido a forte pressão externa.
“Eu acho que ele deve estar muito cansado, porque o sofrimento da população está muito grande. Ele é o sucessor dos irmãos Castro, o que já não seria uma tarefa fácil, e precisa conduzir o país diante de uma situação dificílima”, avaliou Lina.
As 176 medidas econômicas
A entrevista também tratou do pacote de 176 medidas aprovado pelo governo cubano para reformular aspectos da economia. As mudanças procuram ampliar investimentos, reorganizar setores produtivos, incentivar atividades privadas e criar alternativas para a entrada de capital estrangeiro.
Lina explicou que as medidas não foram formuladas de maneira repentina. Segundo ela, o pacote resulta de discussões realizadas ao longo de um período mais extenso e tenta responder a uma crise agravada pela escassez energética, pela perda de parceiros comerciais e pelas limitações impostas às transações internacionais.
“As medidas têm sido muito criticadas porque o momento é extremamente difícil. O que Díaz-Canel tem explicado é que elas não foram criadas agora. Vêm sendo discutidas e debatidas com a população há bastante tempo”, afirmou.
Na interpretação da apresentadora, o governo procura introduzir mudanças sem abandonar o caráter socialista do Estado cubano. A abertura de novas possibilidades para investimentos privados e estrangeiros provoca debates dentro e fora da ilha, sobretudo sobre desigualdade, concentração de renda e o futuro do planejamento estatal.
“A revolução quer resistir, não vai se entregar. Cuba está tentando encontrar saídas para sobreviver à crise”, disse Lina.
Fidel entre as novas gerações
A permanência de Fidel Castro como referência entre os cubanos mais jovens também foi discutida. A expansão da internet colocou a juventude em contato mais frequente com conteúdos culturais e políticos produzidos fora do país. Ao mesmo tempo, a emigração e a crise econômica modificaram a relação de parte da população com o projeto revolucionário.
Lina considera que a educação histórica desenvolvida nas escolas ainda exerce forte influência. Para ela, a memória da campanha de alfabetização e dos investimentos em saúde, ciência e formação profissional ajuda a explicar por que Fidel continua presente na identidade política cubana.
“Fidel mostrou para eles e para o mundo que é possível uma outra maneira de se viver e que é possível enfrentar o imperialismo”, declarou.
A convidada também destacou a trajetória esportiva de Cuba. Mesmo com uma população e uma economia menores do que as de outros países latino-americanos, a ilha acumulou resultados expressivos em competições internacionais. Lina citou o lutador Mijaín López, vencedor de cinco medalhas de ouro olímpicas consecutivas, como símbolo desse investimento.
Raúl Castro e a geração histórica
A participação de Raúl Castro nas celebrações do centenário recebeu atenção especial. Aos 95 anos, o ex-presidente já não ocupa funções formais no governo, mas continua sendo uma referência política e simbólica da geração que participou da guerrilha na Sierra Maestra.
“Raúl continua sendo uma grande referência da Revolução Cubana. Ele não está ativo no governo, mas, como ele mesmo diz, permanece a postos”, afirmou Lina.
A aparição de Raúl no Teatro Karl Marx ganhou destaque por ser uma de suas raras participações públicas recentes. Na avaliação da convidada, sua presença estabeleceu uma ligação entre os combatentes que derrubaram a ditadura de Fulgêncio Batista e a atual direção política cubana.
Energia solar e cooperação com a China
A cooperação entre Cuba e China para ampliar a geração de energia solar foi apontada como uma alternativa importante diante da falta de petróleo. Lina informou que painéis e unidades de produção energética estão sendo destinados prioritariamente a hospitais, instituições de atendimento a idosos e comunidades isoladas.
A transição, contudo, ainda não consegue compensar a escassez de combustíveis. A instalação das estruturas demanda tempo, recursos técnicos e transporte de equipamentos, o que também sofre os efeitos das restrições comerciais.
“A China já está ajudando muito com os painéis solares. Foram criados polos de produção dessa energia, priorizando hospitais e locais de maior necessidade, mas ainda é insuficiente”, explicou.
Homenagens no Brasil
O centenário de Fidel também foi lembrado em São Paulo. Lina participou de um festival que reuniu militantes, pesquisadores e representantes de organizações solidárias a Cuba. Entre os participantes mencionados por ela estavam Thiago Ávila, Vivian Mendes, o diplomata cubano Benigno Pérez e Neto Duarte.
A apresentadora recordou ainda o acolhimento oferecido por Cuba a brasileiros perseguidos durante a ditadura militar. Para Lina, essa relação ajuda a compreender por que organizações políticas e movimentos sociais brasileiros continuam promovendo campanhas de solidariedade, inclusive com o envio de medicamentos e outros materiais.
“Fidel é uma figura de repercussão mundial, considerada uma das grandes personalidades políticas do século XX. Em São Paulo, lembramos sua importância não apenas para Cuba, mas para toda a América Latina”, afirmou.
Livro mostra Cuba antes e depois de 1959
Ao final da entrevista, Lina apresentou o livro “E então chegou Fidel: Cuba 1959”, publicado pela Editora Nossa América. A obra reúne textos e fotografias sobre as condições sociais do país antes da Revolução Cubana e as mudanças ocorridas após a chegada dos revolucionários ao poder.
Segundo a convidada, a publicação permite compreender por que parcelas da sociedade cubana continuam defendendo a revolução apesar das privações enfrentadas atualmente. O livro apresenta registros das campanhas de alfabetização, das políticas sociais e da expansão dos serviços públicos.
“Os ganhos foram imensos e os cubanos não querem perder tudo aquilo que conquistaram. É por isso que Cuba resiste e luta por sua soberania”, declarou.
Lina também convidou o público a acompanhar o Cubanias, transmitido às segundas-feiras, às 19h30, pela Kotter TV e pelos canais do programa. A atração, que está em seu sexto ano, dedica-se a discutir a política, a cultura e a realidade social de Cuba.
Referências
E então chegou Fidel: Cuba 1959
Autoria: não informada durante a entrevista
Tradução apresentada por Lina Noronha
Editora Nossa América
Ano de publicação: não informado
📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
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