Da Redação
Com maior peso geopolítico e voz coletiva crescente, países africanos exigem assentos permanentes no CSNU e questionam estrutura construída no pós-Segunda Guerra — proposta causa temor em potências tradicionais e acende debate sobre ordem internacional.
A discussão sobre a reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas voltou ao centro do debate global em 2025, impulsionada, desta vez, por uma articulação mais forte e coordenada de países africanos. O continente, que reúne 54 nações e representa uma das regiões mais populosas e geopoliticamente relevantes do planeta, reivindica a inclusão de pelo menos dois assentos permanentes com poder de veto, além da ampliação de vagas rotativas. A iniciativa busca corrigir o desequilíbrio histórico que mantém a África excluída das decisões mais determinantes para a paz e a segurança internacionais.
A estrutura atual do Conselho de Segurança, criada após a Segunda Guerra Mundial, mantém cinco potências com poder absoluto: Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. Esses países detêm assentos permanentes e o direito de veto, o que lhes permite bloquear qualquer resolução, independentemente do apoio da maioria. Para os países africanos, esse modelo reflete um mundo que já não existe e que perpetua a desigualdade entre antigos centros imperiais e a chamada maioria global.
Representantes da União Africana têm reiterado que a ausência do continente no grupo dos membros permanentes é incompatível com a realidade geopolítica contemporânea. A África é uma das regiões que mais sofre intervenções externas autorizadas pelo próprio Conselho, sediando operações de paz, enfrentando conflitos, participando de negociações humanitárias e servindo de palco para disputas entre potências globais. Apesar disso, não tem assento nas instâncias onde se definem as estratégias que moldam diretamente seu futuro.
O argumento africano é direto: é impossível legitimar decisões que impactam profundamente Estados e populações inteiras quando esses mesmos Estados não possuem voz ativa no processo. Não se trata apenas de representatividade simbólica, mas de soberania, autodeterminação e revisão de estruturas de poder no sistema internacional.
A pressão africana coincide com um cenário de multipolaridade crescente. A ordem global se fragmenta, novas potências emergem e o eixo de decisão já não pode ser restrito a alianças militares da metade do século XX. A demanda por democratização da governança global ganha, assim, respaldo político e moral.
A reforma, porém, enfrenta resistência considerável das potências que detêm o veto. Mudar a composição do Conselho implica diluir a influência de quem sempre ocupou o núcleo decisório do sistema internacional. Além disso, há obstáculos internos entre os próprios países africanos, que precisam definir como seriam escolhidos os ocupantes dos assentos permanentes, quais critérios definiriam esses representantes e se o poder de veto seria efetivamente exercido.
Apesar desses desafios, a mobilização africana conquistou apoios relevantes em outras regiões do Sul Global, especialmente na Ásia e na América Latina. Para muitos diplomatas, negar indefinidamente a inclusão africana compromete a legitimidade e a credibilidade da ONU, além de aprofundar tensões em um momento histórico marcado por guerras regionais, disputas de recursos estratégicos e crises humanitárias.
Analistas avaliam que, se implementada de maneira estrutural, a reforma poderia alterar profundamente o funcionamento da ONU, trazendo maior pluralidade de perspectivas e reduzindo a predominância das potências tradicionais. Contudo, há preocupações de que uma ampliação desordenada do Conselho produza um órgão ainda mais lento, travado por vetos ampliados e por divergências internas.
O debate continuará ocupando a diplomacia global ao longo dos próximos meses. No entanto, uma coisa já é evidente: ignorar a demanda africana, cada vez mais articulada e respaldada internacionalmente, não será mais uma opção viável. A legitimidade do sistema multilateral depende, cada vez mais, de sua capacidade de refletir o mundo real — e não apenas a geografia do poder de 1945.
