Carta assinada por docentes de diferentes áreas da Universidade de São Paulo relaciona a disputa presidencial à defesa da ciência, da educação pública, do meio ambiente e da democracia. Documento critica o governo Bolsonaro e reúne nomes como Lilia Schwarcz, Renato Janine Ribeiro, Carlos Nobre e Kabengele Munanga.
Da Redação
O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) recebeu uma carta assinada por 1.200 professores da Universidade de São Paulo (USP) em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O documento, intitulado Docentes da USP, Pela Vida, Contra a Barbárie, foi entregue por uma comissão liderada por Adrian Fanjul, diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Divulgada na reta final da campanha presidencial, a manifestação reúne pesquisadores e professores de diferentes áreas do conhecimento que associam seu posicionamento eleitoral a preocupações com o futuro das universidades, da produção científica, das políticas públicas e das instituições democráticas brasileiras.
A iniciativa foi revelada pela coluna Painel, da Folha de S.Paulo, e repercutida nesta terça-feira, 20 de outubro, pelo Brasil 247. Entre os signatários estão intelectuais de reconhecida atuação acadêmica, como a historiadora Lilia Schwarcz, o filósofo e ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, o climatologista Carlos Nobre, o professor de comunicação Eugênio Bucci, o cientista político André Singer, a urbanista Raquel Rolnik, o pesquisador Paulo Sérgio Pinheiro, o antropólogo Kabengele Munanga e a ex-reitora da USP Suely Vilela.
A carta representa uma manifestação coletiva de docentes, não uma decisão institucional da Universidade de São Paulo. A distinção é importante: os professores participam do debate público no exercício de seus direitos políticos, mas a posição apresentada não pode ser atribuída automaticamente à reitoria, aos colegiados ou ao conjunto da comunidade universitária.
O documento expressa uma avaliação crítica do governo de Jair Bolsonaro, especialmente em relação às políticas adotadas entre 2019 e 2022. Seus signatários apontam problemas na gestão da educação, no financiamento das atividades científicas, na proteção ambiental e na condução da pandemia de Covid-19. Também relacionam suas preocupações à inflação, ao desemprego e às condições de funcionamento dos serviços públicos naquele período.
Na avaliação dos professores que assinam a carta, um retorno do campo político liderado por Bolsonaro à Presidência, por meio da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), representaria riscos para diferentes áreas da vida nacional. O manifesto menciona expressamente universidades, ciência, educação, saúde pública, meio ambiente, democracia, soberania e direito à vida.
Essas afirmações constituem o posicionamento político dos signatários. A avaliação dos efeitos de uma eventual mudança de governo exige considerar as propostas de cada candidatura, os instrumentos institucionais disponíveis e os resultados documentados de políticas anteriores.
A abrangência dos temas mencionados ajuda a compreender a composição do grupo que subscreveu o manifesto. A presença de pesquisadores ligados às humanidades, às ciências ambientais, à educação e às áreas de comunicação indica que a iniciativa não se limita a reivindicações relativas ao funcionamento administrativo da universidade.
Os docentes procuram relacionar as condições de produção do conhecimento às políticas econômicas e sociais desenvolvidas pelo Estado. Na perspectiva apresentada pela carta, decisões orçamentárias, ambientais, educacionais e sanitárias possuem consequências diretas para a pesquisa científica e para a população.
O financiamento das universidades ocupa posição relevante nesse debate. Embora a USP seja uma instituição estadual, mantida principalmente com recursos vinculados à arrecadação paulista, seus pesquisadores participam de programas nacionais de fomento e de redes de cooperação financiadas por órgãos federais, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
As políticas federais de ciência e tecnologia, portanto, alcançam também pesquisadores de universidades estaduais. Bolsas de estudo, editais de pesquisa, financiamento de equipamentos e projetos desenvolvidos em parceria com instituições de outras regiões dependem, em diferentes graus, de decisões tomadas pela administração federal.
Durante o governo Bolsonaro, as restrições orçamentárias e as mudanças na execução de recursos destinados à educação superior e à pesquisa foram objeto de críticas de associações científicas e entidades universitárias. Houve também disputas relacionadas às políticas ambientais, à produção de informações públicas e à atuação de instituições federais de ensino.
O manifesto recupera esse período como fundamento para o posicionamento de seus signatários. Entretanto, a reportagem de origem não apresenta uma análise estatística detalhada de todos os indicadores mencionados na carta. Por isso, as conclusões políticas do documento devem ser atribuídas aos professores, enquanto a avaliação histórica de cada política exige o exame de dados específicos.
A condução da pandemia de Covid-19 é outro elemento central da manifestação. O período foi marcado por divergências entre o governo Bolsonaro, autoridades sanitárias, instituições de pesquisa e governos estaduais sobre medidas de prevenção, vacinação e comunicação dos riscos à população.
Universidades públicas participaram diretamente do enfrentamento da emergência sanitária, realizando pesquisas, desenvolvendo testes, estudando vacinas e apoiando serviços de saúde. A experiência ampliou a visibilidade da produção científica brasileira, ao mesmo tempo que expôs conflitos sobre a utilização de evidências técnicas na formulação de políticas públicas.
Ao mencionar a pandemia, os docentes relacionam a atuação do poder público à necessidade de preservar instituições capazes de produzir conhecimento independente e orientar decisões sanitárias.
A referência ao meio ambiente também possui relevância para o grupo. O climatologista Carlos Nobre, um dos nomes divulgados entre os signatários, possui trajetória de pesquisas sobre a Amazônia e os efeitos das mudanças climáticas. A participação de especialistas de diferentes áreas ambientais insere no manifesto preocupações relacionadas ao desmatamento, à proteção dos biomas e à capacidade científica de acompanhar transformações ecológicas.
A carta menciona o aumento do desmatamento durante o governo Bolsonaro e associa a questão às decisões adotadas pela administração federal. O comportamento dos indicadores ambientais deve ser examinado por meio de séries históricas e dados de instituições responsáveis pelo monitoramento, mas a inclusão do tema revela sua importância na avaliação política apresentada pelos signatários.
Outro aspecto da mobilização é a presença de pesquisadores que dedicaram parte de suas trajetórias ao estudo da democracia, das instituições políticas, das desigualdades sociais e dos direitos humanos.
Renato Janine Ribeiro, André Singer e Paulo Sérgio Pinheiro, por exemplo, desenvolveram trabalhos e participaram de debates públicos relacionados à política brasileira, ao Estado e aos direitos fundamentais. Kabengele Munanga é reconhecido por suas contribuições aos estudos sobre relações raciais e combate ao racismo. Raquel Rolnik possui atuação nas discussões sobre urbanização, moradia e direito à cidade.
A diversidade das áreas representadas permite compreender por que o manifesto apresenta uma pauta que ultrapassa a educação superior. As preocupações formuladas pelos docentes abrangem tanto o financiamento da pesquisa quanto as condições sociais e institucionais necessárias ao desenvolvimento de políticas públicas.
Professores levam manifestação à campanha presidencial
A entrega da carta a Geraldo Alckmin representa uma forma de participação direta de integrantes da comunidade acadêmica no processo eleitoral. Em vez de se limitar à divulgação de um documento público, a comissão organizadora procurou encaminhar formalmente sua posição a um representante da chapa presidencial apoiada.
A escolha de Alckmin como destinatário possui significado político. Além de exercer a Vice-Presidência da República, ele participa da articulação da campanha de reeleição de Lula e mantém relações com diferentes setores políticos, empresariais e acadêmicos de São Paulo.
O gesto também evidencia a importância atribuída pelos signatários à interlocução entre universidades e poder público. Instituições acadêmicas dependem de autonomia para desenvolver pesquisas e produzir conhecimento, mas suas atividades se relacionam diretamente às políticas de financiamento, educação e desenvolvimento científico adotadas pelos governos.
Essa relação não significa que os pesquisadores possuam posições políticas uniformes. Universidades públicas abrigam diferentes correntes de pensamento, e professores podem discordar sobre avaliações governamentais, prioridades econômicas e candidaturas.
A manifestação dos 1.200 docentes, por isso, deve ser entendida como iniciativa de um grupo identificado de participantes, e não como expressão de consenso de toda a USP.
O número de assinaturas informado pelos organizadores representa uma adesão expressiva ao documento, mas não constitui uma pesquisa de opinião sobre as preferências eleitorais da comunidade universitária. Não há, nas informações divulgadas, levantamento representativo que permita estender essa posição aos demais professores, estudantes e trabalhadores da instituição.
A carta também não corresponde a uma decisão de órgãos administrativos universitários. Sua legitimidade decorre do direito dos signatários de participar do debate público e apresentar coletivamente suas posições.
O contexto eleitoral ajuda a explicar o momento escolhido para a divulgação. A manifestação ocorre na semana do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro, quando diferentes organizações sociais, entidades profissionais e grupos de cidadãos intensificam suas atividades políticas.
A eleição entre Lula e Flávio Bolsonaro envolve divergências sobre políticas econômicas, programas sociais, segurança pública, relações internacionais e o papel do Estado no financiamento de serviços e atividades científicas.
Nesse ambiente, os professores decidiram destacar temas diretamente relacionados às suas áreas de atuação e à experiência acumulada durante administrações anteriores.
O manifesto não apresenta apenas demandas corporativas, como salários ou condições de trabalho na universidade. Seu conteúdo relaciona a atividade acadêmica à saúde pública, à preservação ambiental, aos direitos fundamentais e às condições gerais de funcionamento das instituições nacionais.
Esse caráter abrangente é uma das características da iniciativa. Para os signatários, a disputa presidencial envolve decisões que poderão produzir efeitos sobre a capacidade brasileira de formar pesquisadores, desenvolver tecnologias, preservar recursos naturais e oferecer serviços públicos.
Trata-se de uma interpretação política construída a partir da experiência e das avaliações do grupo, sujeita ao debate público e à confrontação com outras perspectivas.
Ciência, autonomia universitária e políticas públicas
A participação de professores e pesquisadores em manifestações políticas possui longa trajetória na história brasileira. Universidades estiveram presentes em debates sobre redemocratização, direitos sociais, políticas educacionais e desenvolvimento científico, por meio de associações, organizações estudantis e iniciativas individuais ou coletivas de seus integrantes.
O exercício dessa participação, entretanto, é distinto das responsabilidades institucionais das universidades. Enquanto pesquisadores podem apoiar candidatos e apresentar posições políticas, as instituições públicas devem observar as normas relativas à administração, ao uso de recursos e à preservação da liberdade acadêmica.
A autonomia universitária, prevista na Constituição Federal, protege a capacidade das universidades de organizar suas atividades acadêmicas, científicas e administrativas dentro dos limites legais. Essa garantia é relevante precisamente porque o ambiente universitário reúne diferentes opiniões e linhas de pesquisa.
O manifesto entregue a Alckmin se insere nesse espaço de participação dos docentes, sem eliminar a pluralidade existente na USP.
Do ponto de vista da política científica, os temas apresentados pelos professores envolvem questões que permanecerão relevantes independentemente do resultado eleitoral.
A manutenção de programas de pós-graduação, o financiamento de laboratórios, a formação de novos pesquisadores e a cooperação entre universidades e empresas exigem planejamento de longo prazo. A interrupção de projetos ou a instabilidade orçamentária pode comprometer pesquisas que dependem de anos de trabalho e equipes especializadas.
Da mesma maneira, políticas ambientais e sanitárias dependem de sistemas permanentes de produção de informações. Monitoramento climático, vigilância epidemiológica, desenvolvimento de medicamentos e avaliação de políticas públicas exigem instituições com capacidade técnica e continuidade administrativa.
Os investimentos necessários para essas atividades competem por recursos com outras despesas do Estado, o que torna inevitável o debate sobre prioridades orçamentárias e modelos de financiamento.
A carta dos professores manifesta uma posição sobre essas prioridades e sobre o projeto político que seus signatários decidiram apoiar. O documento não substitui, contudo, uma avaliação detalhada das propostas das duas candidaturas para cada área.
A comparação entre programas de governo exige examinar compromissos orçamentários, medidas legislativas pretendidas e políticas já implementadas, levando em conta as condições econômicas e institucionais existentes.
Na disputa presidencial de 2026, tanto a campanha de Lula quanto a de Flávio Bolsonaro apresentam propostas e críticas relacionadas ao funcionamento do Estado, embora sustentem posições diferentes em diversas áreas.
O manifesto entregue a Alckmin representa uma das manifestações organizadas de preferência eleitoral divulgadas nesta etapa da campanha.
Até a publicação das reportagens consultadas, não haviam sido apresentados detalhes sobre uma resposta formal do vice-presidente ao conteúdo da carta, além do recebimento do documento.
O que está confirmado é a entrega do manifesto, o número de assinaturas informado pelos organizadores, a identificação da comissão responsável e a presença de nomes conhecidos do meio acadêmico entre os apoiadores.
Na reta final do segundo turno, a iniciativa acrescenta ao debate eleitoral uma manifestação coletiva de professores que relacionam suas experiências de pesquisa e ensino à avaliação das políticas públicas nacionais.
Sua repercussão evidencia que a disputa pela Presidência também mobiliza setores profissionais e acadêmicos interessados nas decisões futuras sobre educação, ciência, proteção ambiental e instituições democráticas.
A carta entregue por 1.200 docentes da USP deve ser compreendida nesse contexto: uma manifestação política de seus signatários, apresentada publicamente à campanha presidencial que apoiam, com críticas ao governo Bolsonaro e preocupações sobre os rumos das políticas públicas brasileiras.


