Da Redação
No lançamento do caça Gripen nacional, vice-presidente destaca inovação, indústria de defesa e soberania como pilares do desenvolvimento brasileiro.
O lançamento do primeiro caça F-39E Gripen montado no Brasil marcou, neste 25 de março de 2026, um momento simbólico da estratégia industrial e tecnológica do país. Durante a cerimônia em Gavião Peixoto, interior de São Paulo, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, sintetizou a visão do governo ao afirmar que “quem domina a tecnologia domina o futuro”.
A declaração não é apenas retórica. Ela traduz uma diretriz estratégica que vem ganhando centralidade na política industrial brasileira: a de que soberania nacional, desenvolvimento econômico e protagonismo internacional passam necessariamente pelo domínio tecnológico.
O evento marca um avanço concreto nesse sentido. O caça F-39E Gripen faz parte de um programa que vai além da aquisição de equipamentos militares. Ele envolve transferência de tecnologia, participação da indústria nacional e inserção do Brasil em cadeias globais de alta complexidade tecnológica.
Produzido em parceria com a empresa sueca Saab e com forte participação da Embraer, o Gripen representa uma mudança qualitativa na indústria de defesa brasileira. Não se trata apenas de comprar aeronaves prontas, mas de internalizar conhecimento, desenvolver competências e criar capacidade produtiva local.
Essa dimensão é central para entender o discurso de Alckmin.
Segundo o vice-presidente, o governo federal já direcionou cerca de R$ 108 bilhões em investimentos para inovação por meio de instituições como BNDES, Finep e Embrapii, com foco em áreas estratégicas da economia.
Nesse contexto, a indústria de defesa aparece como um dos principais vetores de inovação, funcionando como ponta de lança para o desenvolvimento tecnológico.
Historicamente, esse papel não é novo. Em diversas economias centrais, tecnologias que hoje estruturam o cotidiano — como internet, GPS e sistemas avançados de comunicação — tiveram origem em projetos militares. A aposta brasileira segue essa lógica: utilizar a indústria de defesa como catalisador de inovação e difusão tecnológica para outros setores.
Alckmin foi direto ao afirmar que a indústria de defesa é “a vanguarda da inovação” e um “seguro para a soberania nacional”.
A mensagem é clara: em um mundo marcado por disputas geopolíticas e tecnológicas, países que não dominam tecnologias críticas tendem a ocupar posições subordinadas na divisão internacional do trabalho.
Esse ponto ganha ainda mais relevância no cenário atual.
A economia global vive uma nova corrida tecnológica, envolvendo áreas como inteligência artificial, semicondutores, sistemas de defesa, energia e infraestrutura digital. Nesse contexto, a capacidade de desenvolver tecnologia própria deixou de ser apenas um diferencial competitivo e passou a ser um requisito de soberania.
O programa do Gripen se insere exatamente nessa disputa.
O Brasil encomendou inicialmente 36 aeronaves, com previsão de expansão futura, e participa diretamente da produção e do desenvolvimento tecnológico do projeto.
Isso permite ao país não apenas operar o equipamento, mas também absorver conhecimento técnico, formar engenheiros e integrar sua indústria a cadeias globais de alto valor agregado.
Sob uma perspectiva estrutural, esse movimento dialoga com a chamada Nova Indústria Brasil, política que busca reindustrializar o país com base em inovação, sustentabilidade e agregação de valor.
O desafio, no entanto, é significativo.
O Brasil ainda enfrenta limitações importantes no campo tecnológico, incluindo dependência de insumos importados, baixa intensidade de inovação em parte da indústria e dificuldades de financiamento contínuo de pesquisa e desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, há oportunidades estratégicas.
O país possui base industrial relevante, empresas com capacidade tecnológica consolidada, como a Embraer, e recursos naturais estratégicos, como minerais críticos para a economia digital e energética. A combinação desses fatores pode posicionar o Brasil como ator relevante na nova geopolítica da tecnologia.
É nesse ponto que a fala de Alckmin ganha profundidade.
Ao afirmar que “quem domina a tecnologia domina o futuro”, ele não se refere apenas ao setor de defesa ou à indústria aeronáutica. Ele aponta para uma disputa global mais ampla, na qual tecnologia, soberania e poder estão cada vez mais interligados.
Sob o olhar do Sul Global, essa disputa é ainda mais decisiva.
Historicamente, países periféricos foram inseridos na economia global como fornecedores de matéria-prima e consumidores de tecnologia. Romper esse padrão exige políticas ativas de industrialização, inovação e desenvolvimento tecnológico — exatamente o que o governo busca sinalizar com iniciativas como o programa do Gripen.
No limite, o lançamento do caça não é apenas um marco industrial.
Ele representa uma tentativa de reposicionar o Brasil no sistema internacional — não mais como espectador da revolução tecnológica, mas como participante ativo na construção do futuro.
E, como indicou Alckmin, esse futuro será definido por quem tiver capacidade de dominar, produzir e aplicar tecnologia em escala estratégica.


