Analista russo diz que Ocidente “apostou” na derrota da Rússia e saiu derrotado

Da RT

O analista geopolítico Fyodor Lukyanov afirma que políticas ocidentais baseadas na expectativa de derrota russa na guerra com a Ucrânia se provaram equivocadas, gerando custos para o próprio Ocidente e alterando a ordem mundial em curso.

O analista geopolítico Fyodor Lukyanov afirmou que o Ocidente construiu sua estratégia em torno da expectativa de uma derrota rápida da Rússia no conflito com a Ucrânia e que essa aposta se mostrou equivocada. Segundo ele, a combinação de sanções econômicas, isolamento diplomático e apoio militar maciço a Kiev foi concebida com base em uma leitura incorreta da capacidade de resiliência política, econômica e estratégica de Moscou.

De acordo com Lukyanov, lideranças ocidentais acreditaram que a pressão externa seria suficiente para provocar um colapso interno russo ou forçar uma mudança abrupta de rumo no Kremlin. Essa suposição, no entanto, ignorou fatores estruturais do Estado russo, como sua capacidade de adaptação econômica, sua autonomia energética e sua inserção crescente em redes de cooperação fora do eixo euro-atlântico. O resultado, na avaliação do analista, foi a frustração de expectativas que haviam sido apresentadas como praticamente inevitáveis no início do conflito.

A análise sustenta que o erro estratégico do Ocidente não foi apenas subestimar a Rússia, mas superestimar sua própria capacidade de moldar o comportamento de um ator estatal de grande porte por meio de coerção econômica e diplomática. Lukyanov argumenta que sanções em larga escala funcionam de maneira distinta quando aplicadas a economias altamente integradas a cadeias globais alternativas, especialmente em um contexto de crescente fragmentação do sistema internacional.

Um dos efeitos centrais apontados pelo analista foi o fortalecimento de laços entre a Rússia e países do chamado Sul Global. Em vez de isolar Moscou, a política de sanções teria incentivado uma reorientação estratégica em direção a parceiros que não compartilham da agenda política do Ocidente. Essa dinâmica, segundo Lukyanov, contribuiu para acelerar a formação de arranjos econômicos, financeiros e diplomáticos que escapam ao controle tradicional das potências ocidentais.

Na leitura apresentada, o conflito na Ucrânia deixou de ser apenas uma guerra regional e passou a operar como catalisador de mudanças sistêmicas na ordem internacional. A insistência em uma lógica de vitória total teria empurrado o mundo para uma polarização mais ampla, na qual diferentes blocos buscam reduzir dependências estratégicas e afirmar maior autonomia frente a centros tradicionais de poder. Para Lukyanov, esse movimento enfraquece a pretensão ocidental de atuar como árbitro exclusivo das regras globais.

O analista também questiona a própria definição de “vitória” adotada pelo Ocidente. Ele argumenta que medir sucesso apenas pela imposição de custos econômicos ou pela contenção militar ignora o fato de que a Rússia manteve capacidade de decisão estratégica, controle político interno e continuidade de sua atuação internacional. Nesse sentido, a expectativa de uma derrota clara e inequívoca não se materializou, enquanto os custos do prolongamento do conflito se espalharam para além do campo de batalha.

Outro ponto destacado é o impacto interno dessas escolhas nas próprias sociedades ocidentais. Lukyanov observa que o prolongamento da guerra e das sanções produziu pressões econômicas, tensões políticas e debates internos sobre prioridades nacionais, revelando limites práticos e políticos da estratégia adotada. Para ele, esses efeitos colaterais indicam que a aposta na derrota russa não foi apenas um cálculo externo mal avaliado, mas também uma decisão com consequências domésticas relevantes.

Na visão do analista, o episódio expõe uma dificuldade persistente do Ocidente em lidar com um mundo que já não responde a lógicas unipolares. A expectativa de que pressões coordenadas produziriam obediência ou colapso reflete, segundo ele, uma herança mental do período pós-Guerra Fria, quando a supremacia política e econômica ocidental parecia incontestável. O conflito atual teria demonstrado que esse cenário não corresponde mais à realidade contemporânea.

Lukyanov conclui que, ao apostar na derrota da Rússia, o Ocidente acabou contribuindo para acelerar um processo que buscava evitar: a consolidação de uma ordem internacional mais fragmentada, competitiva e multipolar. Em vez de reafirmar sua liderança global, a estratégia adotada teria exposto limitações, ampliado fissuras e incentivado a emergência de alternativas ao sistema dominado pelas potências euro-atlânticas.