A 60ª edição do Conune reúne cerca de 15 mil estudantes em Goiânia para debater soberania, educação e justiça após tragédia fatal
Da Redação
Começou hoje, 17 de julho de 2025, o 60º Congresso da União Nacional dos Estudantes (CONUNE), na Universidade Federal de Goiás em Goiânia — um encontro que, entre homenagens emocionadas e a presença do presidente Lula, se firma como marco da resistência estudantil e debate urgente sobre o futuro da educação pública.
Começou nesta quinta-feira, 17 de julho de 2025, na Universidade Federal de Goiás (UFG), o 60º Congresso da União Nacional dos Estudantes (Conune), o maior encontro do movimento estudantil da América Latina. Com a presença de cerca de 15 mil estudantes de todas as regiões do país, o congresso já se configura como um dos mais marcantes da história recente da entidade, tanto pela força das pautas em debate quanto pela comoção provocada pela trágica morte de três estudantes da Universidade Federal do Pará a caminho do evento. O ato de abertura foi transformado em uma homenagem emocionante a Ana, Welfeson e Leandro, que perderam a vida em um acidente na BR-153. A presidenta da UNE, Manuella Mirella, emocionada, afirmou que os três “estarão em cada canto desse congresso, em cada grito, em cada bandeira que levantarmos”.
O luto não impediu, no entanto, que o congresso assumisse sua tradicional vocação de resistência, reflexão crítica e proposição política. A organização do evento articulou uma ampla rede de apoio psicológico, logístico e social aos familiares e colegas das vítimas, e reforçou a estrutura de acolhimento aos delegados e participantes. Também em resposta ao acidente, a UNE estabeleceu parceria com a Polícia Rodoviária Federal e entidades regionais para garantir a segurança de estudantes que ainda estão em deslocamento.
A UNE, fundada em 1937 e protagonista de diversos momentos históricos do país, desde a campanha “O Petróleo é Nosso” até a resistência à ditadura militar, mostra mais uma vez sua relevância. O Conune deste ano se dá em meio a uma conjuntura complexa: o Brasil vive uma encruzilhada entre a reconstrução de direitos após o ciclo destrutivo bolsonarista e os desafios estruturais impostos por um modelo econômico ainda comprometido com o arrocho fiscal, a financeirização da educação e a crescente presença das grandes corporações privadas no ensino superior. A atual gestão da UNE tem se posicionado fortemente contra a lógica dos “tubarões do ensino”, expressão usada por Manuella para denunciar o domínio das megacorporações educacionais que, segundo ela, “não enxergam alunos, enxergam boletos”.
O evento contará com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que participa nesta sexta-feira, 18 de julho, de um ato político no Centro de Cultura e Eventos da UFG, às 11 horas. O encontro terá como lema “Brasil é dos brasileiros: taxar os super-ricos e investir na educação” e deverá reunir milhares de participantes. A presença do ministro da Educação, Camilo Santana, também está confirmada, além de lideranças de movimentos sociais, sindicais, indígenas e da juventude negra.
Os debates do congresso são densos e diversos. A pauta da reforma universitária aparece com força, assim como a crítica ao novo arcabouço fiscal, que compromete o financiamento de políticas públicas estratégicas. A permanência estudantil é um dos temas centrais, especialmente em um cenário em que o aumento do custo de vida impacta duramente a vida de estudantes pobres, negros, indígenas e de regiões periféricas. Também serão debatidas políticas de cotas, o financiamento da pesquisa científica, o fortalecimento do SUS e a urgência de uma transição energética justa, além da regulação de plataformas digitais e das big techs. Um ato político em solidariedade ao povo palestino está marcado para a sexta-feira, demonstrando o compromisso da entidade com a luta internacionalista.
Mas o congresso é também um espaço de disputa política interna. As correntes do movimento estudantil mobilizam suas bases e articulam alianças para a eleição da nova diretoria da UNE, marcada para os dias 19 e 20 de julho. O processo eleitoral é sempre um termômetro da correlação de forças no interior da juventude brasileira. A expectativa é que a atual gestão, ligada ao campo progressista, mantenha a hegemonia, mas o ambiente é de disputa acirrada, especialmente com o crescimento de coletivos independentes que se articulam a partir das universidades do interior.
Outro aspecto fundamental deste 60º Conune é a reafirmação da UNE como uma força estratégica na defesa da soberania nacional. Em um contexto geopolítico marcado pela ascensão da extrema-direita, pelo avanço do autoritarismo digital e pela instabilidade internacional, a UNE se apresenta como uma trincheira da juventude brasileira em defesa de um país soberano, com educação pública, ciência livre e justiça social. A presença de movimentos populares, como o MST e a Frente Brasil Popular, reforça o caráter plural e combativo do evento.
O Congresso da UNE de 2025 não é apenas um encontro estudantil. É um momento político nacional. É uma memória viva dos que tombaram no caminho. É um espaço de reconstrução coletiva dos sonhos de um país que ainda insiste em ser democrático, popular e solidário. A UNE, que já foi perseguida, incendiada e criminalizada, volta a ocupar seu lugar no centro do debate público. E, como sempre, nas palavras de seus fundadores e de gerações que vieram depois, ela volta a dizer: a juventude não foge à luta.


