Após romper com o PT, Motta articula PL da Dosimetria e se alinha a pautas contra a classe trabalhadora

Da Redação

Parlamentar que construiu carreira apoiado em sindicatos agora trabalha para aprovar projeto que enfraquece movimentos sociais e restringe direitos — gesto visto como capitulação ao conservadorismo do Congresso.

A articulação do deputado Antonio Motta para acelerar a votação do PL da Dosimetria provocou indignação em setores progressistas, movimentos sindicais e entidades de defesa de direitos sociais. Após romper com o PT, partido que o alçou nacionalmente e lhe garantiu base política junto à classe trabalhadora, Motta passou a atuar em alinhamento com setores conservadores do Congresso que defendem maior criminalização de protestos, greves e ações coletivas.

Para seus antigos aliados, a mudança não é apenas uma divergência pontual, mas um reposicionamento profundo: de representante de trabalhadores para operador de pautas que beneficiam elites políticas e econômicas interessadas em conter mobilizações sociais. O PL da Dosimetria, que define penas mais duras para atos considerados como “excessos” em manifestações e paralisações, é visto por juristas críticos como uma tentativa de asfixiar os movimentos sociais e enfraquecer a pressão democrática exercida por categorias organizadas.

A movimentação de Motta ocorre justamente em um momento em que centrais sindicais tentam reconstruir capacidade de negociação e recuperar direitos perdidos após anos de retrocessos. Ao articular a votação do PL ao lado de blocos de direita e extrema direita, o deputado reforça a narrativa que criminaliza trabalhadores e protege interesses patronais, distanciando-se da agenda que defendia ao longo de sua trajetória pública.

Dirigentes sindicais afirmam que o projeto representa ameaça direta ao direito constitucional de greve e pode criar precedentes perigosos para punir lideranças e categorias que protestam contra condições degradantes de trabalho. O texto, segundo especialistas, abre brechas para enquadrar paralisações legítimas como atos ilícitos, o que favorece empregadores e enfraquece sindicatos em disputas trabalhistas.

Para setores progressistas, a mudança de postura do deputado não pode ser tratada como simples reposicionamento partidário. Muitos interpretam como uma opção política consciente: abandonar a base trabalhadora e aderir ao “centrão punitivo”, bloco que busca controlar manifestações e reduzir o papel dos movimentos sociais como contrapeso democrático.

No Congresso, Motta tem se aproximado de figuras contrárias à agenda de direitos sociais, enquanto se distancia de parlamentares que tradicionalmente atuam em defesa dos trabalhadores. Essa nova composição de alianças pode reverberar profundamente na forma como projetos de interesse popular serão negociados nos próximos meses.

Juristas, acadêmicos e organizações de direitos humanos alertam que o PL da Dosimetria pode criar jurisprudência que fortalece o aparato repressivo do Estado, estigmatizando a mobilização popular e dificultando a atuação de categorias profissionais que dependem da greve como último recurso.

O gesto do deputado muda o tabuleiro político e revela, sobretudo, o peso das negociações internas do Congresso: quem assume posição contrária aos movimentos sociais facilita pautas de contenção, agrada bancadas conservadoras e se alinha a grupos que defendem a limitação de direitos coletivos. Para o movimento trabalhista, trata-se de um ataque frontal à capacidade de organização social.