“As pessoas pagam o plano de saúde a vida inteira e até quando vão conseguir pagar?”

Renê Patriota afirma que reajustes abusivos, perda de rede credenciada e omissão regulatória empurram idosos e classe média para fora da saúde suplementar

Durante entrevista ao programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, a médica, advogada e coordenadora executiva da ADUSEPS, Renê Patriota, fez um duro diagnóstico sobre a situação dos planos de saúde no Brasil. Em conversa com o apresentador Luiz Regadas, nesta quarta-feira (21), ela afirmou que os reajustes constantes, a redução de cobertura e a fragilidade da regulação estão tornando inviável a permanência de milhões de brasileiros na saúde suplementar.

Segundo Renê, a situação é especialmente cruel para aposentados e idosos que passaram décadas pagando mensalidades e agora enfrentam aumentos muito acima da inflação. “As pessoas pagam o plano de saúde a vida inteira e até quando vão conseguir pagar? Eis a pergunta misteriosa”, declarou. Ela argumenta que apenas setores privilegiados do Estado seguem protegidos, graças a planos subsidiados por cargos públicos e estruturas institucionais.

A coordenadora da Associação de Defesa dos Usuários de Seguros, Planos e Sistemas de Saúde afirmou que a população comum vive “numa corda bamba”, sobretudo os trabalhadores vinculados a contratos coletivos administrados por empresas intermediárias. Ela citou o caso de operadoras que aplicam reajustes por sinistralidade que podem chegar a 80% ou até 100% em um único ano.

“Quem tem contrato individual ainda possui alguma proteção da ANS. Já os contratos coletivos sofrem reajustes praticamente sem limite. As operadoras deveriam justificar esses aumentos, mas muitas vezes não informam nada”, afirmou.

Renê também criticou duramente a atuação da Agência Nacional de Saúde Suplementar. Para ela, a agência reguladora “pende para o lado do mercado” e não atua de forma efetiva na defesa do consumidor. “Eu sempre pergunto: cadê a agência? E a resposta que escuto é que ela não está à disposição dos consumidores, mas do sistema”, disse.

Outro ponto destacado pela advogada foi o descredenciamento de hospitais, clínicas e profissionais, processo que vem afetando milhares de usuários em todo o país. Ela citou mudanças ocorridas após a venda da SulAmérica para a Rede D’Or e afirmou que consumidores perderam médicos de confiança e tiveram tratamentos interrompidos.

“A saúde hoje está mercantilizada. Ela está ligada ao mercado financeiro. Nosso dinheiro cabe no bolso das operadoras, mas nossa doença não cabe dentro do programa delas”, afirmou.

Ao longo da entrevista, Renê relatou sua própria experiência após descobrir um aneurisma cerebral. A médica utilizou o episódio para defender a saúde como direito fundamental e não como mercadoria sujeita apenas à lógica do lucro. “Você escolhe muitas coisas na vida. A doença não. Ela surpreende”, declarou.

Ela também denunciou dificuldades enfrentadas mesmo por consumidores que conseguem decisões favoráveis na Justiça. Segundo a advogada, muitos processos acabam esvaziados posteriormente por cálculos atuariais que revisam os valores definidos judicialmente. “Você ganha, mas não leva”, resumiu.

Durante a conversa, Luiz Regadas chamou atenção para o peso crescente dos planos de saúde no orçamento familiar e para a incapacidade de grande parte da população de sustentar despesas privadas com saúde e educação. O apresentador defendeu fortalecimento do SUS e ampliação de direitos sociais.

Renê afirmou que a principal saída continua sendo a organização coletiva e a pressão pública. Ela destacou o trabalho da ADUSEPS, entidade fundada há três décadas em Pernambuco, que atua com ações civis públicas contra operadoras e em defesa dos consumidores da saúde suplementar.

“Nós não estamos mortos. O povo precisa ficar ligado. Informação e mobilização são fundamentais”, afirmou.

A advogada também revelou que acompanha uma ação coletiva contra a SulAmérica para tentar restabelecer redes credenciadas retiradas dos contratos antigos. Segundo ela, decisões estruturais da Justiça poderiam beneficiar milhares de consumidores simultaneamente, sobretudo idosos que hoje enfrentam insegurança permanente diante dos aumentos e mudanças contratuais.

A entrevista terminou com um alerta sobre o futuro da saúde privada no Brasil. Para Renê Patriota, a continuidade do modelo atual pode expulsar parcelas crescentes da população dos planos de saúde, aprofundando desigualdades e ampliando a pressão sobre o SUS.

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