Em entrevista ao programa Democracia no Ar, Waldemir Catanho analisa o cenário de 2026, defende a ampliação do debate político e afirma que as alianças serão decisivas diante da disputa entre projetos de país
O processo de montagem das chapas para 2026 já movimenta os bastidores da política cearense e nacional. Em entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, o jornalista e dirigente político Waldemir Catanho analisou as articulações em curso, o papel das alianças e os impasses que cercam a formação de palanques competitivos para a próxima disputa eleitoral.
Na conversa, que contou com comentários de Osmar de Sá Ponte Jr., Catanho tratou o período das pré-convenções não apenas como uma fase de negociações partidárias, mas como um momento estratégico para definir o rumo político do país. Ao longo da entrevista, ele sustentou que a eleição de 2026 será mais uma disputa decisiva entre projetos de sociedade e alertou que a esquerda precisa ir além da lógica eleitoral imediata, enfrentando o desafio de reconstruir vínculos políticos, ideológicos e sociais com parcelas amplas da população.
Para Catanho, o problema central não está apenas em escolher bons nomes ou costurar alianças viáveis, mas em compreender a profundidade do momento histórico. Segundo ele, o Brasil vive novamente uma encruzilhada, na qual se confrontam, de um lado, uma visão ultraliberal, marcada pela defesa do Estado mínimo e da primazia do mercado, e, de outro, um projeto comprometido com inclusão social, direitos e participação popular.
Ao resumir esse impasse, ele foi direto ao ponto: “O principal desafio dessa eleição é o de politizar a eleição.” A frase condensa uma das ideias mais fortes de sua participação no programa e resume sua avaliação de que os campos progressistas acumularam vitórias institucionais e sociais importantes nas últimas décadas, mas não conseguiram consolidar, na mesma intensidade, um acúmulo político e ideológico mais profundo junto à base social beneficiada por essas políticas.
Na entrevista, Catanho argumentou que a esquerda melhorou concretamente a vida de milhões de brasileiros, com expansão do acesso à universidade, programas de transferência de renda, redução da pobreza e retomada de políticas públicas desmontadas nos anos recentes. Ainda assim, observou que esses avanços materiais, embora fundamentais, não bastam por si só para assegurar estabilidade política e vitórias duradouras.
“Só isso não basta”, afirmou, ao defender que os ganhos concretos precisam estar associados a um horizonte mais amplo de valores, pertencimento e consciência política. Em sua leitura, a disputa de 2026 exigirá mais do que a apresentação de resultados administrativos ou indicadores econômicos favoráveis. Será necessário, segundo ele, oferecer à sociedade, especialmente à juventude, uma perspectiva de futuro capaz de mobilizar esperanças, identificar interesses em conflito e produzir engajamento real.
Ao refletir sobre a formação de alianças, Catanho associou a fragmentação partidária e a dependência de composições amplas à dificuldade histórica da esquerda de politizar mais profundamente a sociedade. Segundo ele, essa fragilidade ajuda a explicar por que governos progressistas frequentemente dependem, para vencer eleições e governar, de setores fisiológicos ou conservadores do sistema político.
“Nós somos reféns do político tradicional. Somos reféns para ganhar a eleição e somos reféns para governar”, disse. A declaração aponta para um dos eixos centrais de sua análise: a persistência de uma base social pouco politizada amplia o poder de chantagem de grupos parlamentares e enfraquece a capacidade de governos populares sustentarem agendas estruturais.
Nesse sentido, o entrevistado insistiu que não basta apenas administrar bem ou entregar políticas públicas, embora isso seja indispensável. Para ele, a política precisa se apresentar novamente como espaço de disputa de valores, de consciência social e de compreensão mais profunda sobre como se organiza o poder no Brasil.
Ao longo da entrevista, esse raciocínio foi se aprofundando. Catanho insistiu que, apesar das enormes mudanças tecnológicas, comunicacionais e comportamentais das últimas décadas, certas estruturas de desigualdade permanecem intactas. Em outras palavras, o mundo mudou, mas o núcleo da disputa social segue presente.
“Tem algumas coisas que não mudaram. Essa coisa de um pouquinho se dando bem e um bocado se dando mal continua”, resumiu. Na sequência, ele ligou essa permanência às disputas em torno do orçamento público, dos juros, da dívida e das prioridades fiscais do Estado. Para o entrevistado, o embate segue sendo, em essência, entre quem quer ampliar direitos, serviços e políticas públicas e quem deseja preservar privilégios concentrados no topo da pirâmide.
Essa leitura também apareceu quando Catanho comentou o debate econômico nacional. Sem entrar em nomes de candidaturas, ele criticou a lógica que trata programas sociais, valorização do salário mínimo e expansão de direitos como ameaça fiscal, enquanto preserva benefícios e privilégios destinados aos setores mais ricos. Para ele, trata-se de uma disputa política travestida de técnica.
“No final das contas, é uma discussão de para onde vai o dinheiro”, disse. Para o jornalista, cabe aos campos progressistas traduzirem isso de forma mais clara para a população, mostrando que a política não se resume a arranjos entre partidos, mas à definição concreta de quem ganha e quem perde com cada escolha do Estado.
Outro ponto central da entrevista foi a relação entre política, juventude e esperança. Catanho concordou que o Brasil de 2026 não é mais o mesmo de 2002 ou 2006 e que a esquerda precisa compreender melhor as transformações profundas do mundo do trabalho, das formas de sociabilidade e das referências que orientam as novas gerações. Segundo ele, oferecer apenas políticas compensatórias ou melhorias pontuais não responde integralmente à ansiedade social produzida por um tempo de insegurança, individualismo competitivo e promessas de empreendedorismo como solução universal.
Em um dos trechos mais importantes da conversa, ele observou que o ganho material precisa vir acompanhado de um sentido mais amplo. “O ganho material precisa ter um invólucro, precisa ter uma embalagem com tempero de sonho, precisa entrar nesse lado da disputa de valores”, afirmou. A fala revela uma preocupação que ultrapassa o calendário eleitoral e toca na necessidade de reconstruir um imaginário de futuro para setores que já não se reconhecem automaticamente nas narrativas tradicionais do campo progressista.
Ao abordar o cenário cearense, Catanho também comentou a importância da construção de um palanque amplo e coeso no campo da centro-esquerda, capaz de sustentar as candidaturas majoritárias e, ao mesmo tempo, enfrentar a reorganização das forças conservadoras e de extrema direita. Para ele, a montagem dessa frente exige maturidade política e capacidade de somar lideranças que tenham densidade popular, autoridade moral e lastro histórico.
Nesse contexto, defendeu que nomes com credibilidade pública e trajetória reconhecida podem ter papel importante na composição de 2026. Ao tratar das divergências no interior da esquerda, indicou que as diferenças não podem se sobrepor ao objetivo estratégico maior de impedir retrocessos e consolidar uma vitória política ampla.
“Nós vamos precisar de todo mundo”, afirmou, já na reta final da entrevista. A frase, além de ecoar seu apelo à unidade, resume bem o espírito da conversa: 2026 não será uma disputa simples, automática ou resolvida apenas por acordos de cúpula. Será uma eleição de alta tensão política, marcada por alianças delicadas, conflitos internos, guerra de narrativas e necessidade de reconexão com a base social.
Waldemir Catanho falou a partir de uma trajetória que ajuda a explicar o peso de sua análise. Jornalista, filiado ao PT desde 1990, ele acumulou funções relevantes na vida pública cearense, atuando como assessor e secretário de governo em Fortaleza, coordenando o mandato federal de Luizianne Lins e exercendo a Secretaria de Articulação Política do Governo do Ceará. Em 2025, assumiu a superintendência do Detran-CE, onde passou a conduzir medidas de ampliação da CNH Popular e de modernização do órgão com foco em sustentabilidade.
Sua leitura, no entanto, foi menos administrativa do que estratégica. O que Catanho propôs ao longo da entrevista foi uma reflexão sobre os limites da política feita apenas para vencer o próximo pleito. Para ele, a urgência da conjuntura não pode apagar a necessidade de construir consciência, disputar valores e reorganizar socialmente o campo popular. Sem isso, alertou, a esquerda seguirá entrando em cada eleição sob pressão, dependente de arranjos contraditórios e excessivamente concentrada em poucas lideranças capazes de sustentar, quase sozinhas, a esperança democrática do país.
No Ceará e no Brasil, as pré-convenções de 2026 já começaram a sinalizar mais do que nomes e siglas. Elas expõem as contradições de uma democracia tensionada, os limites da representação tradicional e a urgência de projetos políticos que consigam falar com uma sociedade em mudança sem abrir mão do compromisso com justiça social, igualdade e soberania popular.
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