Atitude Popular

“As redes sociais servem como ferramenta e instrumento propulsor de recrutamento”

Henrique Domingues alerta, no Democracia no Ar, para o papel das plataformas digitais na radicalização de jovens e no avanço do nazismo no século XXI

O avanço de grupos extremistas no ambiente digital, a radicalização de jovens e a disseminação de discursos de ódio foram o centro do debate promovido pelo programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, que recebeu Henrique Domingues, dirigente da CTB Jovem, para discutir o tema “Nazismo no século XXI: as redes sociais como instrumento de formação e recrutamento”. A edição também contou com a participação de Sandra Helena.

A presente matéria tem como fonte o conteúdo do programa exibido no canal da TV Atitude Popular no YouTube, a partir de entrevista e debate com Henrique Domingues sobre o uso das redes sociais por grupos de extrema direita e organizações neonazistas para arregimentar apoiadores, especialmente entre adolescentes e jovens.

Ao longo da conversa, Henrique chamou atenção para a gravidade do fenômeno e para o erro de tratá-lo como exagero ou desvio pontual. Segundo ele, o nazismo contemporâneo não é apenas uma sombra do passado, mas uma força que encontrou no ambiente virtual um instrumento poderoso de reorganização, propaganda e captação de novos militantes.

As redes sociais servem como ferramenta e instrumento propulsor de recrutamento”, afirmou.

Plataformas digitais e radicalização

Na análise apresentada no programa, Henrique sustentou que o ambiente digital se tornou decisivo para a formação subjetiva e ideológica de parcelas da juventude. Para ele, a lógica algorítmica das plataformas favorece a circulação de conteúdos violentos, misóginos e desumanizadores, enquanto materiais críticos ou de denúncia frequentemente sofrem restrições de alcance ou remoção.

O dirigente da CTB Jovem apontou que vídeos e postagens marcados por apologia à violência, humilhação, automutilação, crueldade contra animais e ataques a mulheres se disseminam com facilidade, compondo um ecossistema de brutalização cotidiana.

Quando você desumaniza, quando você faz um jovem, um adolescente, uma criança perder os sentimentos de empatia e de humanidade, você tá abrindo possibilidades para que essa criança e esse adolescente se tornem um potencial militante”, declarou.

A observação não se limita a um problema moral ou comportamental. O que está em jogo, segundo ele, é um processo político de formação. Em vez de enxergar as redes apenas como meios neutros de comunicação, Henrique defendeu que elas sejam compreendidas como dispositivos ativos de produção de subjetividades e de recrutamento para projetos autoritários.

O nazismo para além da caricatura

Um dos pontos mais fortes do debate foi a recusa em suavizar o problema com expressões genéricas. Para Henrique, há uma tendência de substituir o nome do fenômeno por categorias mais vagas, o que acaba enfraquecendo a capacidade de enfrentamento.

Eu não vou chamar de extrema direita. Quando a gente chama de extrema direita, a gente suaviza o que está acontecendo hoje, que é muito grave”, disse.

Em sua leitura, o que se vê em diversos espaços não é apenas conservadorismo, mas uma reorganização fascista e nazista, com linguagem atualizada, estratégias de comunicação mais sofisticadas e forte presença nas redes. Essa reorganização, segundo ele, se alimenta tanto do anonimato e da velocidade do meio digital quanto da sensação de impunidade que cerca muitos desses grupos.

Henrique lembrou ainda que há células nazistas já identificadas no país, mas sem que isso se traduza, necessariamente, em resposta estatal à altura da ameaça.

Hoje nós temos mais de 700 células nazistas mapeadas no país pela Polícia Federal, mas objetivamente falando, a gente não vê ações efetivas de desmonte, desmantelamento, de prisão desses atores”, afirmou.

Juventude precarizada e terreno fértil para o ódio

Ao abordar o crescimento da adesão de jovens a discursos reacionários, Henrique evitou explicações simplistas. Para ele, as redes sociais desempenham papel central, mas esse avanço também se apoia em condições materiais concretas.

Sua avaliação é a de que a juventude brasileira segue submetida a trabalho precário, baixa remuneração, frustração e falta de horizonte social. Nesse cenário, discursos autoritários encontram terreno fértil para prosperar, sobretudo quando oferecem pertencimento, identidade e alvos para o ressentimento.

Nós vivemos num país hoje em que a juventude é extremamente explorada”, resumiu.

A precarização, segundo ele, não atinge apenas o bolso, mas a própria percepção de futuro. Jovens submetidos a salários baixos, estágios mal remunerados e vínculos frágeis entram em contato, ao mesmo tempo, com uma avalanche de conteúdos que transformam frustração em ódio e ressentimento em identidade política.

Nesse ponto, o debate aproximou a questão tecnológica da questão social: não se trata apenas de regular plataformas, mas também de enfrentar as condições que tornam esse recrutamento mais eficiente.

Violência, misoginia e desumanização

Outro aspecto destacado foi a conexão entre o crescimento dessas comunidades digitais e a propagação de práticas violentas que, muitas vezes, aparecem de forma fragmentada e aparentemente dispersa. Misoginia, maus-tratos aos animais, ataque a professores, culto à agressão e defesa da humilhação do outro foram apresentados como expressões de um mesmo ambiente cultural.

Henrique argumentou que esses conteúdos não surgem isoladamente. Eles funcionam como etapas de dessensibilização, criando disposições subjetivas compatíveis com ideologias autoritárias.

Nesse sentido, o fenômeno extrapola a esfera da opinião e alcança a formação afetiva e moral de adolescentes e jovens, o que torna ainda mais urgente o debate público sobre a responsabilidade das plataformas e sobre o papel da escola, das famílias, dos movimentos sociais e das organizações democráticas.

O desafio democrático

A entrevista também apontou para um problema mais amplo: o nazismo contemporâneo não pode ser enfrentado apenas como caso de polícia, embora a responsabilização penal seja necessária em muitos casos. O desafio é também político, educacional e cultural.

O debate indicou que a sociedade brasileira ainda subestima a capilaridade dessas redes e, em muitos casos, reage apenas quando a violência já se materializou em ataques, crimes ou tragédias. Antes disso, permanece invisível um processo contínuo de formação ideológica que ocorre em fóruns, grupos, perfis e comunidades digitais.

Ao tratar das experiências internacionais e da circulação transnacional dessas ideias, Henrique chamou atenção para o fato de que o problema não é exclusivamente brasileiro. Mas insistiu que o país precisa reconhecer a gravidade interna do fenômeno e agir com mais clareza diante da presença organizada de grupos neonazistas.

Educação, regulação e organização social

Sem reduzir a questão a uma única saída, a conversa apontou três frentes indispensáveis de enfrentamento: educação crítica, regulação das plataformas e fortalecimento da organização social democrática.

A educação aparece como ferramenta decisiva para reconstruir a empatia, a capacidade de discernimento e a leitura histórica. A regulação das plataformas surge como necessidade diante da assimetria entre a velocidade de propagação do ódio e a fragilidade dos mecanismos de controle. E a organização da sociedade civil é tratada como condição para disputar valores, referências e horizontes com a juventude.

O alerta deixado no programa é claro: o nazismo do século XXI não chega necessariamente com a mesma estética do século XX, mas preserva seu núcleo de violência, hierarquia e desumanização. E encontra nas redes sociais um ambiente particularmente favorável para se atualizar, se difundir e recrutar.

Ao fim, a entrevista reforçou que o combate a esse avanço exige nomear corretamente o problema, compreender seus mecanismos contemporâneos e reconstruir, no campo democrático, uma resposta capaz de disputar a juventude antes que o ódio a transforme em base social permanente do autoritarismo.


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