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Banco Master usou dinheiro vivo e garantias infladas, diz Coaf

Da Redação

Relatório de inteligência financeira revela uso de recursos em espécie, ativos superavaliados e operações bilionárias incompatíveis com o porte das empresas, ampliando gravidade do escândalo.

O escândalo do Banco Master ganha novos contornos com a revelação de práticas consideradas altamente sensíveis pelo sistema de controle financeiro brasileiro: uso de dinheiro vivo em operações de grande porte e garantias infladas para viabilizar empréstimos bilionários.

Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), encaminhado à CPI do Crime Organizado no Senado, detalha uma série de transações realizadas entre 2022 e 2025 que apresentam indícios de irregularidades graves, incluindo movimentações fora dos padrões do sistema financeiro formal.

O dado mais alarmante é o uso de dinheiro em espécie.

Segundo o relatório, diversas operações do banco envolveram, em algum estágio, recursos físicos — o chamado “dinheiro vivo”. Esse tipo de movimentação é considerado de alto risco pelas autoridades, justamente por dificultar a rastreabilidade da origem dos recursos e facilitar práticas como lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial.

E não se trata de valores pequenos.

Entre os casos citados está uma operação de aproximadamente R$ 468,8 milhões envolvendo uma empresa do setor de terraplanagem. O relatório indica que, em algum momento dessa transação, houve uso de dinheiro em espécie — algo extremamente incomum para operações dessa magnitude.

Outro eixo central do relatório é a manipulação de garantias.

O Coaf identificou situações em que ativos apresentados como garantia de empréstimos estavam superavaliados em níveis extremos. Em um dos exemplos, terrenos adquiridos por cerca de R$ 9 mil foram avaliados em valores que chegavam a até R$ 6 milhões.

Esse tipo de prática levanta suspeitas diretas.

A superavaliação de garantias pode ser utilizada para justificar concessão de crédito em valores muito superiores à capacidade real dos ativos, criando uma aparência artificial de solidez financeira e mascarando riscos sistêmicos.

Há ainda casos que chamam atenção pela incompatibilidade estrutural.

O relatório cita operações de crédito superiores a R$ 387 milhões concedidas a uma empresa com capital social declarado de apenas R$ 2 mil — um descompasso que, para investigadores, é indicativo clássico de irregularidade ou uso de empresas de fachada.

Além disso, o documento aponta conexões com empresas e grupos empresariais de grande porte, incluindo operações que somam centenas de milhões de reais, ampliando o alcance do caso e sua complexidade.

Essas revelações se somam a um contexto já extremamente grave.

O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em 2025 após investigações apontarem suspeitas de fraude, manipulação de ativos e lavagem de dinheiro, em um caso que mobilizou bilhões de reais e levou ao acionamento massivo do Fundo Garantidor de Créditos.

O impacto foi sistêmico.

Milhares de investidores foram afetados, e o caso passou a ser considerado um dos maiores escândalos financeiros da história recente do país, com desdobramentos que atingem o sistema bancário, o mercado financeiro e o próprio Estado.

Nesse contexto, o relatório do Coaf cumpre um papel estratégico.

Ele não apenas reúne dados técnicos sobre movimentações financeiras, mas também fornece insumos para investigações da Polícia Federal, do Ministério Público e de comissões parlamentares. É, na prática, um mapa das possíveis engrenagens do esquema.

E esse mapa revela um padrão.

Um padrão baseado em três pilares:

uso de dinheiro de difícil rastreamento,
manipulação de garantias para inflar operações,
e estruturas empresariais incompatíveis com os valores movimentados.

No fundo, o que emerge é um modelo sofisticado de operação financeira.

Um modelo que não depende apenas de fraude direta, mas da construção de uma arquitetura que simula legalidade enquanto desloca grandes volumes de recursos por canais opacos.

E é exatamente essa arquitetura que agora começa a ser desmontada.

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