Pesquisa da UERJ analisa falas do presidente Lula no cárcere e aponta dimensão ética e política de resistência diante do lawfare
Uma tese de doutorado defendida na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) lança luz sobre um dos períodos mais intensos da história política recente do Brasil: a prisão do presidente Lula entre 2018 e 2019. O trabalho, intitulado “As entrevistas de Lula no cárcere: a coragem da verdade e a defesa da democracia”, foi desenvolvido pela pesquisadora Eliana Rocha Oliveira e posteriormente transformado em livro, “Lula: a parresia no cárcere”, publicado pela Kotter Editora.
O estudo, com mais de 500 páginas, reúne, organiza e analisa as entrevistas concedidas por Lula durante o período em que esteve preso em Curitiba, oferecendo não apenas um registro histórico, mas também uma interpretação política e filosófica dessas falas.
Segundo a autora, as entrevistas revelam não apenas o pensamento político do presidente Lula, mas também uma dimensão ética marcada pela coragem da verdade, conceito inspirado no filósofo Michel Foucault.
Um ano de silêncio e 24 entrevistas históricas
Um dos pontos centrais da pesquisa é o período em que Lula foi impedido de falar com a imprensa. Durante mais de um ano, de abril de 2018 a abril de 2019, o então ex-presidente ficou silenciado, sem autorização para conceder entrevistas.
A primeira entrevista autorizada ocorreu apenas em abril de 2019, com os jornalistas Mônica Bergamo e Florestan Fernandes. A partir daí, Lula concedeu ao todo 24 entrevistas, que se tornaram a base empírica do trabalho acadêmico.
Essas falas, segundo a pesquisadora, funcionam como a voz no cárcere do presidente, permitindo reconstruir sua leitura sobre o processo político, judicial e midiático que resultou em sua prisão.
Parresia e o risco de dizer a verdade
O eixo teórico da tese está no conceito de parresia, desenvolvido por Michel Foucault, que define o ato de dizer a verdade mesmo sob risco pessoal. A autora sustenta que Lula encarna essa figura ao manter, durante todo o período de prisão, a defesa pública de sua inocência.
A pesquisa argumenta que a postura do presidente, recusando acordos que implicassem reconhecimento de culpa, representa uma prática política rara, a escolha de permanecer preso em nome da verdade.
Essa dimensão aparece reiteradamente nas entrevistas analisadas, nas quais Lula afirma que não abriria mão de provar sua inocência, mesmo diante das restrições impostas pelo sistema judicial.
Lawfare, geopolítica e democracia
A tese também insere a prisão de Lula em um contexto mais amplo, apontando a Operação Lava Jato como parte de uma estratégia de lawfare, o uso do sistema judicial como instrumento de perseguição política.
De acordo com a autora, esse processo estaria relacionado a interesses geopolíticos e econômicos, especialmente ligados à soberania brasileira e às reservas do pré-sal. A pesquisa conecta esses elementos ao cenário pós-2016, marcado pela ruptura institucional com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
Nesse sentido, o trabalho defende que as entrevistas de Lula não são apenas relatos individuais, mas documentos políticos que ajudam a compreender a crise democrática brasileira.
Da tese ao livro
O trabalho acadêmico deu origem ao livro “Lula: a parresia no cárcere”, ampliando o alcance da pesquisa para além da universidade. A obra se destaca por reunir as entrevistas transcritas e analisadas, oferecendo ao público um material sistematizado sobre o período.
Mais do que um estudo sobre comunicação ou política, a obra se consolida como um documento histórico sobre o Brasil contemporâneo, registrando como um dos principais líderes do país se posicionou diante de sua prisão.
Memória, disputa e futuro
Ao recuperar as entrevistas de Lula no cárcere, a tese de Eliana Rocha Oliveira contribui para a disputa de memória sobre o período recente da história brasileira. Em um cenário marcado por narrativas conflitantes, o trabalho reafirma a importância dos registros diretos, da palavra dita, como instrumento de análise política.
Ao transformar a fala em objeto de pesquisa, a autora aponta que a democracia também se constrói na preservação da memória e na coragem de dizer a verdade, mesmo quando isso implica enfrentar o poder.






